Bloomberg Línea — A poucas semanas do início da Copa do Mundo FIFA 2026, as reservas hoteleiras nas cidades-sede estão abaixo do esperado, segundo relatório publicado em 4 de maio pela Associação de Hotéis e Hospedagem dos Estados Unidos (AHLA, na sigla em inglês).
Oitenta porcento dos hotéis consultados pela AHLA afirmaram que a demanda por quartos é consideravelmente menor do que o projetado, enquanto entre 65% e 70% atribuem a lentidão das reservas a barreiras na concessão de vistos, preços elevados dos ingressos, o clima político e outras preocupações geopolíticas.
“Apesar de mais de 5 milhões de ingressos terem sido vendidos, essa demanda ainda não se traduziu em um forte volume de reservas hoteleiras”, afirma a associação na introdução do relatório.
“As projeções indicam que os viajantes domésticos estão superando em número os internacionais (...), um desequilíbrio que ameaça o impacto econômico mais amplo que se esperava da Copa do Mundo.”
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Segundo o informe, 70% dos hotéis pesquisados em Dallas (cidade mais próxima de Arlington, uma das sedes) e Houston (outra sede no Texas) reportaram que o ritmo de reservas para junho e julho recuou a níveis normais para a época — com uma leve melhora atribuída à Copa, mas longe dos patamares previstos pela FIFA.
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Outro fator de preocupação para a indústria hoteleira é a reserva em bloco de quartos pela FIFA e o posterior cancelamento de mais da metade desses blocos em cidades como Boston, Dallas, Los Angeles, Filadélfia, Seattle e outras sedes.
“Em alguns mercados afetados, esses cancelamentos chegaram a superar 70% do inventário contratado”, diz o relatório.
“Essas reservas em bloco, garantidas com meses de antecedência, moldaram as projeções de receita dos hotéis, seus planos de pessoal e os preparativos para reformas ou parcerias temáticas ligadas à Copa do Mundo.”
Diante dos cancelamentos inesperados, “os estabelecimentos estão trabalhando rapidamente para preencher os quartos vagos e ajustar suas estratégias de vendas”, diz o estudo.
Questionada sobre as críticas aos preços elevados dos ingressos e sobre as poucas reservas hoteleiras nos EUA a um mês da Copa, a FIFA manteve seu discurso oficial.
“Todas as liberações de quartos foram realizadas dentro dos prazos acordados contratualmente com os hotéis parceiros, uma prática habitual para um evento desta magnitude”, disse um porta-voz da entidade à Bloomberg Línea por e-mail.
“Em muitos casos, as liberações foram feitas antes dos prazos estabelecidos, para melhor atender às solicitações dos hotéis”, acrescentou.
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A FIFA afirma que, ao longo de todo o processo de planejamento, sua equipe de hospedagem manteve “comunicação contínua” com os hotéis sobre blocos de quartos, definição de tarifas, confirmação de tipos de acomodação e elaboração de relatórios periódicos.
O relatório da AHLA também cita o atual clima político e o aumento de tarifas e impostos nas cidades-sede como fatores que contribuem para a menor afluência de turistas nesta Copa.
“Apesar da crescente expectativa mundial, o caminho até os Estados Unidos para muitos torcedores da Copa está sendo percebido como cada vez menos uma recepção de tapete vermelho”, afirma o documento.
“Há a percepção de que os viajantes internacionais podem enfrentar longos tempos de espera para obter vistos, aumento nas taxas de processamento e persistente incerteza em torno dos procedimentos de entrada”, acrescenta.
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Atlanta e Miami são as sedes que “relativamente” menos preocupam a indústria hoteleira. Cerca de metade dos consultados em Atlanta relataram que as reservas estão dentro do planejado ou até acima do ritmo normal para junho e julho.
“Miami apresenta um desempenho ainda mais forte, com aproximadamente 55% dos entrevistados informando que o ritmo de reservas supera as expectativas”, diz o relatório.
No extremo oposto, Kansas City — que receberá seis partidas entre 16 de junho e 11 de julho, incluindo Argentina x Argélia no dia 16 — é a sede mais prejudicada pela baixa atividade hoteleira. Entre 85% e 90% dos hotéis pesquisados reportaram reservas abaixo do esperado, inclusive inferiores às de um junho ou julho normal.
“Os estabelecimentos relatam cancelamentos em massa dos blocos de quartos da FIFA, que chegam a entre 70% e 95% do inventário originalmente contratado”, diz a AHLA, “enquanto mais de 70% citam as barreiras de visto e a fraca demanda internacional como os principais fatores.”
A ameaça do ICE
Há versões contraditórias sobre a presença — ou não — do Serviço de Imigração e Controle de Alfândegas dos EUA (ICE) dentro e nos arredores dos estádios.
“Por 39 dias, teremos basicamente 78 Super Bowls em 11 cidades”, disse Markwayne Mullin, secretário de Segurança Nacional, à Fox Business em 7 de maio. “Consideramos que o nível de ameaça é extremamente alto, especialmente nas áreas vulneráveis fora dos estádios.”
Já Rodney Barreto, copresidente do Comitê Anfitrião de Miami para a Copa do Mundo, afirmou na mesma data ao The Athletic, publicação esportiva do New York Times, que o ICE não será uma ameaça. “Falei com o secretário de Estado Marco Rubio”, disse Barreto. “O ICE não estará no estádio. Isso não vai se tornar uma espécie de ‘operação de deportação’. Não é o propósito disso.”
O que está confirmado é que o ICE participará de operações contra a venda de mercadoria falsificada e não autorizada relacionada à Copa, como já fez em outros eventos esportivos, a exemplo do Super Bowl.
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Segundo comunicado do ICE de 8 de abril, no ano passado as autoridades apreenderam mais de 276.000 artigos esportivos contrabandeados, avaliados em mais de US$ 33 milhões.
“Como a Copa do Mundo atrai um público global, o ICE prevê atividade criminosa semelhante e está adotando medidas proativas para proteger consumidores e empresas legítimas”, disse o órgão.
Mais tarifas e impostos
Como exemplo do aumento incomum nos preços que os torcedores pagarão nos EUA, o relatório da AHLA destacou o caso de Nova Jersey, cujo serviço de transporte público anunciou passagens de ida e volta entre a Penn Station de Nova York e o estádio MetLife nos dias de jogo por US$ 150 — 11 vezes mais do que o preço habitual de US$ 12,90.
Além disso, o estado propõe um imposto de última hora para a Copa que, se aprovado, elevaria o imposto geral sobre vendas de 6,6% para 9,6% (alta de 45%) e o imposto sobre hospedagem de 5% para 7,5% (alta de 50%) — medidas que afetariam não apenas os visitantes.
“A carga tributária recairia sobre as famílias locais por meio de preços mais altos para bens e serviços do dia a dia”, diz o relatório, “somando-se à pressão sobre o custo de vida que os moradores próximos ao estádio já enfrentam. A Copa do Mundo deveria ser um momento para mostrar Nova Jersey em seu melhor. Deveríamos tornar mais fácil e atrativo visitar e gastar, não mais caro e frustrante.”
O relatório da AHLA acrescenta que Boston anunciou passagens de ida e volta ao estádio Gillette por US$ 80, e as autoridades aeroportuárias de Los Angeles aprovaram um aumento de até US$ 12 nas tarifas de transporte de e para o aeroporto — além dos já consideráveis acréscimos por demanda em serviços como Uber e Lyft.
Uma Copa cara e confusa
Segundo a Statista, plataforma de dados e estatísticas de mercado, o preço médio dos ingressos para as finais da Rússia 2018 e do Catar 2022 ficou entre US$ 1.100 e US$ 1.607, respectivamente. Para a final da Copa de 2026, marcada para 19 de julho no estádio MetLife, em East Rutherford, Nova Jersey, o preço médio na página oficial de revenda da FIFA não fica abaixo de US$ 16.470.
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Entre outubro e dezembro de 2025, a FIFA colocou à venda um lote limitado de ingressos por US$ 60 “para torcedores”, como resposta às críticas sobre a lentidão, os preços e a complexidade do processo de compra.
“Esses ingressos da categoria mais básica (a US$ 60) para as 104 partidas são destinados especificamente aos torcedores das seleções classificadas”, disse um porta-voz da FIFA à Bloomberg Línea.
“O processo de seleção e distribuição é gerido individualmente pelas Associações de Membros Participantes (PMAs). Cada PMA pode estabelecer seus próprios critérios de elegibilidade e processo de solicitação”, acrescentou a entidade.
Embora a revenda de ingressos não fosse permitida nas Copas da Rússia e do Catar, os revendedores encontraram maneiras de operar mesmo assim. Mas mesmo com a legalidade da revenda nos EUA — a própria FIFA tem sua página oficial de revenda —, muitos revendedores reclamaram de atrasos nos pagamentos e reembolsos por parte da entidade, em alguns casos aguardando meses. A denúncia foi reportada pela primeira vez pelo The Athletic em 11 de maio.
“A FIFA está processando os pagamentos de revenda de forma contínua”, disse a entidade à Bloomberg Línea. “Embora a maioria dos casos tenha sido concluída conforme o esperado, alguns casos mais complexos exigem revisão adicional e, portanto, levam mais tempo para serem processados.”
“Os prazos de pagamento também podem ser afetados quando as informações fornecidas pelo cliente — como dados bancários — estão incompletas ou requerem verificação adicional”, acrescentou a FIFA.
Em 11 de maio, a página da FIFA mostrava ingressos para Uruguai x Arábia Saudita, em 15 de junho em Miami, a partir de US$ 1.750; para EUA x Austrália, em 19 de junho em Seattle, a partir de US$ 2.650; e para Argentina x Áustria, em 22 de junho em Arlington, no Texas, a partir de US$ 3.000.
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Segundo o Seatpick.com e plataformas similares, a seleção com maior demanda e mais cara de acompanhar é o México, com preço médio de quase US$ 1.600 por partida da primeira fase. Números altos, mas insignificantes perto dos quatro ingressos para a final oferecidos a US$ 2.299.998,85 cada um na página de revenda da FIFA, conforme reportou o Sky News em 24 de abril.
O relatório da AHLA conclui afirmando que uma “combinação saudável” de viajantes domésticos e internacionais é necessária para que a Copa gere receitas além da bem-sucedida venda de ingressos.
“Com milhões de entradas vendidas para a Copa do Mundo, não há dúvida de que os estádios estarão cheios”, diz o documento, antes de advertir: “Hoje, não está claro quem ocupará esses assentos.”
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