Bloomberg Línea — A venda de petróleo bruto aos Estados Unidos anunciada pela empresa estatal Petróleos de Venezuela (PDVSA) levantou novas questões sobre como o governo interino, liderado por Delcy Rodríguez, poderá cobrar e administrar o dinheiro, disse o ex-czar do petróleo na era Chávez, Rafael Ramírez.
“O problema não é vender. O problema é se a Venezuela vai conseguir cobrar e administrar esses recursos”, disse Ramírez em entrevista à Bloomberg Línea.
Engenheiro e figura central do chavismo durante os anos de maior influência petrolífera da Venezuela, Ramírez presidiu a PDVSA entre 2004 e 2013 e foi ministro do Petróleo no mesmo período.
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Manteve parcerias com mais de 30 empresas internacionais, liderou a nacionalização de projetos na Faixa Petrolífera do Orinoco em 2007 e manteve níveis de produção próximos a três milhões de barris por dia.
A venda de entre 30 e 50 milhões de barris de petróleo aos Estados Unidos aponta para o que pode ser o primeiro capítulo econômico visível em meio às dúvidas sobre a transição política no país após a captura de Nicolás Maduro, mas Ramírez vê além do volume e questiona o fato de a empresa estatal não ter especificado o mecanismo de pagamento e gestão de receitas.
Em particular, alerta sobre as declarações de funcionários americanos que sugerem que Washington poderia reter e administrar os fundos provenientes das exportações.
“Precisamos ter essa influência e esse controle sobre as vendas de petróleo para impulsionar as mudanças que simplesmente precisam ocorrer na Venezuela”, afirmou o secretário de Energia dos EUA, Chris Wright, na Conferência sobre Energia, Tecnologia Limpa e Serviços Públicos da Goldman Sachs, realizada em Miami, e citada pela Reuters.
Segundo o funcionário, Washington comercializará inicialmente o petróleo armazenado e, em seguida, continuará vendendo a produção a prazo, com os fundos depositados em contas sob controle dos Estados Unidos.
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“Isso é absolutamente irregular e insustentável. Quem vai pagar os salários na Venezuela? Quem vai sustentar o funcionamento do Estado? A receita do petróleo representa cerca de 90% da economia nacional”.
Segundo ele, o único antecedente semelhante foi o programa “Petróleo por alimentos”, aplicado ao Iraque na década de 1990, sob a administração das Nações Unidas.
“Aqui não há uma instância multilateral com legitimidade. Seria os Estados Unidos controlando diretamente a renda petrolífera venezuelana”.
Após sua saída do governo, Rafael Ramírez rompeu com o governo de Nicolás Maduro depois de denunciar o que ele chamou na época de “a militarização da PDVSA”. Ele acabou no exílio, enfrentando investigações que classifica como perseguição política.
Capacidade produtiva e limites reais
Do ponto de vista operacional, Ramírez disse que os volumes de vendas anunciados são tecnicamente possíveis, considerando que a produção venezuelana gira atualmente em torno de 900.000 barris por dia, segundo dados da OPEP.
“Isso equivale a cerca de 28 milhões de barris por mês. Os 50 milhões representariam apenas dois meses de exportação”.
Os estoques internos vêm se acumulando desde o endurecimento do bloqueio e a apreensão de navios no final de 2025.
Mas acrescenta que o problema central não é técnico, mas político. “A grande questão é se os Estados Unidos permitirão que a Venezuela cobre pelo seu próprio petróleo e administre seus recursos, como é normal”.
Administrar o petróleo externamente ou reconstrução interna?
Diante da ideia de uma administração externa para recuperar a indústria petrolífera, Ramírez disse que a Venezuela “não precisa que ninguém lhe ensine a produzir petróleo”.
Segundo o ex-ministro, o colapso da PDVSA ocorreu após a militarização da empresa, a perseguição ao seu pessoal técnico e os cortes orçamentários durante o governo de Maduro.
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“Existem mais de 12.000 poços perfurados, infraestrutura e conhecimento. Se o dinheiro entrar no país e houver parceiros que trabalhem conosco, a indústria se recuperará em poucos anos”.
O presidente Donald Trump disse em uma coletiva de imprensa em 4 de janeiro, após a captura de Maduro, que os Estados Unidos gastariam bilhões de dólares para consertar a infraestrutura petrolífera gravemente danificada, a fim de começar a gerar receita para o país.
Os bancos de investimento apontaram que a reconstrução implicaria um desembolso de US$ 10 bilhões na próxima década. No caso de uma recuperação gradual da produção, Ramírez disse que as projeções assumem um cenário de estabilidade que hoje não está garantido.
“A indústria petrolífera internacional investe quando há regras claras e estabilidade a longo prazo. Hoje, a Venezuela oferece muitas incertezas”.
Diante da possibilidade de Delcy Rodríguez, ex-ministra do Petróleo, liderar a transição e ser o rosto institucional para a reabertura do setor petrolífero, Rafael Ramírez mostra-se cético quanto à funcionalidade do esquema para gerar confiança sustentada nos investidores internacionais, pois o problema “não é apenas de nomes, mas de legitimidade política, controle real do poder e acesso efetivo à renda petrolífera”.
Exxon, ConocoPhillips e os investimentos
Sobre a possibilidade de grandes petrolíferas internacionais voltarem a operar na Venezuela, Rafael Ramírez disse que nem todas as empresas terão o mesmo interesse nem as mesmas condições para investir.
O secretário de Energia dos EUA, Chris Wright, afirmou que tanto a ConocoPhillips quanto a Exxon e outras empresas petrolíferas dos EUA estavam analisando o papel que podem desempenhar na Venezuela, agora que Maduro não está mais no poder.
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Nesta sexta-feira, está prevista uma reunião na Casa Branca entre Donald Trump e executivos do setor petrolífero.
De acordo com a Bloomberg, as empresas petrolíferas mostram-se cautelosas diante da possibilidade de investir dezenas de bilhões de dólares na Venezuela e exigem garantias de segurança física e financeira.
A Exxon e a ConocoPhillips retiraram-se da Venezuela depois de seus ativos terem sido nacionalizados pelo ex-presidente Hugo Chávez.
Um acordo nacional
Rafael Ramírez insiste que a transição só será sustentável se incorporar todos os fatores políticos, o que requer “um esforço nacional”, e lembra que a reconstrução da Venezuela está indissociavelmente ligada ao controle de seu principal recurso.
“Não podemos sair desta crise entregando nossa soberania sobre o petróleo. Não se pode reconstruir um país sem lei, sem Constituição e sem autoestima”.
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