Bloomberg — “Vamos mesmo virar a Gestapo? ‘Onde estão seus documentos?’ É a isso que chegamos?”
Isso não é retórica anti-ICE vinda de um crítico liberal da campanha de deportação de Donald Trump, mas, sim, as palavras incrédulas de Joe Rogan — o superstar dos podcasts que apoiou a campanha presidencial de 2024 e incentivou seus milhões de ouvintes a votarem no republicano.
Rogan, a maior personalidade da “manosphere” midiática, que desempenhou um papel fundamental em incentivar homens a votar em Trump, fez os comentários em um episódio de seu podcast que foi ao ar na terça-feira (13).
Ele estava criticando ações de agentes do Immigration and Customs Enforcement (ICE, ou Serviço de Imigração e Fiscalização Aduaneira em tradução livre) depois que um agente atirou e matou a cidadã americana Renee Good na semana passada durante um confronto em Minneapolis.
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Sua crítica em referência à polícia secreta da Alemanha nazista reflete uma indignação mais ampla, que abrange alguns apoiadores de Trump, em relação às táticas linha-dura do ICE, incluindo o uso de máscaras pelos agentes, prisões de imigrantes que chegam a tribunais esperando uma audiência de rotina, operações de fiscalização perto de escolas e o uso de armas e equipamentos de estilo militar.
Um representante de Rogan não respondeu imediatamente a um pedido de comentário da Bloomberg News.
Vídeos recentemente publicados nas redes sociais retrataram confrontos cada vez mais combativos.
Em um vídeo, agentes são vistos arrastando uma mulher para fora de seu veículo após cortarem seu cinto de segurança. É possível ouvi-la gritando por ajuda.
Em outro caso, autoridades algemam um homem no chão enquanto um agente aplica um joelho na área da cabeça e do pescoço do homem, uma técnica proibida pelas autoridades em Minnesota após a morte de George Floyd pela polícia em 2020.
Agora, 46% dos americanos apoiam a abolição do ICE, segundo uma pesquisa deste mês feita pelo The Economist/YouGov. Em junho de 2025, apenas 27% apoiavam. Atualmente, a maioria também afirma que os agentes não deveriam ter permissão para usar máscaras ao realizar prisões.
No período que antecedeu a eleição de 2024, a política de fronteira considerada “frouxa” do governo de Joe Biden pesou contra a chapa democrata após um aumento nas chegadas de migrantes ao país pela fronteira sul com o México.
Trump conseguiu surfar nesse tema até a vitória e, após sua vitória, o fluxo de pessoas diminuiu para quase nada.
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Consequentemente, os americanos passaram a se preocupar menos com a questão, e as preocupações com a inflação agora estão no topo da lista.
Em Minneapolis, a morte de Renee Good alimentou protestos contra agentes federais que foram deslocados para a região a partir do início de dezembro como parte de uma repressão à imigração e de uma investigação crescente sobre fraudes, focada na comunidade somali-americana.
Nos dias seguintes à sua morte, milhares de pessoas foram às ruas para protestar contra as operações do ICE, enquanto autoridades locais e estaduais exigiram que os agentes federais deixassem a região.
Autoridades do governo Trump, lideradas pela secretária de Segurança Interna, Kristi Noem, defenderam as ações do ICE e disseram que seus agentes estão sendo atacados por “terroristas domésticos” que buscam interromper seu trabalho legal.
O ICE afirmou que mais de 2.500 “imigrantes ilegais criminosos” foram presos em Minnesota, incluindo membros de gangues e pessoas condenadas por crimes relacionados a armas.
Embora o Departamento de Segurança Interna (DHS) tenha afirmado que as operações de imigração em todo o país estão visando “os piores dos piores”, uma proporção crescente dos detidos é acusada de violações civis de imigração ou não foi condenada por nenhum crime nos EUA, segundo dados do governo.
Rogan, por sua vez, ainda apoia o direito das forças de segurança de prender e deportar criminosos.
Mas ele disse em seu podcast que “também consigo ver o ponto de vista das pessoas que dizem: ‘Sim, mas você não quer pessoas militarizadas nas ruas simplesmente circulando e agarrando pessoas, muitas das quais acabam sendo, na verdade, cidadãos americanos que apenas não estão com seus documentos.’”
Não é a primeira vez que ele se opõe às ações do ICE.
Rogan já havia lamentado anteriormente que Trump estivesse se afastando de sua promessa de mirar principalmente criminosos violentos em sua campanha de deportação.
No podcast ao ar na terça-feira, que contou com a participação do senador republicano Rand Paul, o apresentador disse que a morte de Good em Minneapolis parecia “horrível” e que é “muito feio assistir alguém atirar no rosto de um cidadão americano, especialmente de uma mulher”.
Embora Rogan seja há muito tempo um alvo frequente de críticas, especialmente de liberais irritados com sua oposição a algumas doutrinas progressistas, sua política desafia classificações fáceis.
Ele apoiou Trump em 2024, mas anteriormente endossou o “incendiário” político de esquerda Bernie Sanders para presidente e encontrou pontos em comum com o senador sobre a influência dos “oligarcas”.
Essa visão política amorfa também se estende a algumas outras figuras da “manosphere”. Theo Von, que assim como Rogan apresentou tanto Trump quanto JD Vance em seu podcast antes da eleição, pediu ao Departamento de Segurança Interna no ano passado que não o utilizasse em um de seus vídeos.
“Yooo DHS, eu não aprovei ser usado nisso”, disse Von em uma postagem nas redes sociais na época.
“Eu sei que vocês sabem meu endereço, então mandem um cheque. E, por favor, tirem isso do ar e, por favor, me mantenham fora dos seus vídeos ‘bombásticos’ de deportação. Quando se trata de imigração, meus pensamentos e meu coração são muito mais cheios de nuances do que este vídeo permite. Tchau!”
— Com a colaboração de Alicia A. Caldwell e Ashley Carman.
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