Suíça rejeita imposto sobre grandes heranças por temor de ‘fuga’ de milionários

Medida foi rejeitada por 78,3% dos eleitores e afetaria 0,03% da população com fortunas acima de 50 milhões de francos; pesquisas antes do plebiscito já indicavam esse resultado

Richemont, dona da Cartier
Por Bastian Benrath-Wright
30 de Novembro, 2025 | 06:29 PM

Bloomberg Línea — A Suíça votou para rejeitar um imposto de 50% sobre heranças de residentes super-ricos depois que empreendedores ameaçaram deixar o país.

O plano foi rejeitado por 78,3% do eleitorado, segundo dados do governo neste domingo.

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Pesquisas antes do plebiscito já indicavam esse resultado. Com participação de 43%, a medida não obteve maioria em nenhum cantão.

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“Os eleitores rejeitaram claramente um experimento arriscado de política fiscal”, disse a ministra das Finanças, Karin Keller-Sutter. “Um imposto como esse teria desequilibrado nosso sistema tributário e prejudicado a atratividade da Suíça.”

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Eleitores suíços rejeitam imposto de 50% sobre heranças milionárias

O grupo Jovens Socialistas, de esquerda, lançou a proposta como uma forma de arrecadar recursos para combater as mudanças climáticas.

O imposto seria aplicado sobre todos os ativos superiores a 50 milhões de francos (US$ 62 milhões) que uma pessoa transmitisse por herança ou doação. Isso afetaria cerca de 2.500 pessoas na Suíça — os 0,03% mais ricos da população.

O plano enfrentou forte oposição do governo e de todos os partidos, exceto os de esquerda.

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Eles argumentaram que o imposto poderia levar à saída de pessoas ricas, anulando qualquer arrecadação e deixando os cofres públicos em pior situação.

Peter Spuhler, maior acionista da Stadler Rail AG, estava entre os empresários abastados que afirmaram que emigrariam caso a medida fosse aprovada. Ele disse à mídia local que o imposto obrigaria à venda de sua empresa em caso de sua morte.

A Suíça — que já tributa patrimônio — tem mais de nove bilionários por milhão de habitantes, cinco vezes a média da Europa Ocidental, segundo um estudo do UBS.

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O país também conta com regimes especiais para estrangeiros abastados, que lhes permitem pagar impostos sem revelar completamente o que possuem.

Os benefícios fiscais gerados por esses residentes milionários provavelmente influenciaram os eleitores no pleito deste domingo.

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Keller-Sutter disse neste domingo que, quando a proposta de imposto sobre herança começou a ser debatida publicamente, recebeu alertas de “vários” funcionários locais — especialmente da região da Suíça Central — de que moradores ricos estavam considerando se mudar.

A região ao redor do Lago Lucerna é considerada um polo de concentração de riqueza.

A rejeição do imposto alivia preocupações de que o status do país como um dos principais destinos do mundo para pessoas ricas estivesse em risco.

Essa reputação — alimentada pelo foco de seu setor bancário em clientes de alta renda e pelas políticas fiscais de alguns cantões — vem sendo testada pela competição de outros centros na Ásia e no Oriente Médio.

Os suíços — que votam em plebiscitos até quatro vezes por ano, sob o sistema de democracia direta do país — têm repetidamente ficado ao lado dos interesses empresariais.

Nos últimos anos, rejeitaram propostas para impor limites de emissão mais rígidos, mais dias obrigatórios de férias e um salário mínimo nacional.

Eleitores do cantão de Friburgo também seguiram essa tendência neste domingo, com 53,5% rejeitando um plano para estabelecer um salário mínimo de ao menos 23 francos (US$ 28,60) por hora.

Em uma votação nacional separada, os eleitores decidiram que o serviço militar na Suíça deve continuar obrigatório apenas para homens.

A proposta, apresentada por uma coalizão de centro-esquerda, buscava estender a obrigação às mulheres, além de permitir que qualquer pessoa cumprisse o dever por meio de serviços civis, como cuidado de idosos ou trabalhos ambientais.

O plano recebeu apenas 15,9% de apoio.