Paraguai reforça laços com Taiwan enquanto América Latina se aproxima da China

O país é o único da América do Sul e um dos 12 do mundo a manter relações diplomáticas oficiais com Taiwan há quase 70 anos. À Bloomberg Línea, o analista financeiro paraguaio Amilcar Ferreira explica as bases dessa parceria

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Bloomberg Línea — O Paraguai continua sendo um dos poucos aliados diplomáticos de Taiwan na América Latina, em um contexto em que a maioria dos países da região optou por estabelecer relações com a China.

A decisão do Paraguai permitiu ao país manter vínculos com Taiwan em acordos tecnológicos, embora também tenha implicado custos em termos de acesso direto ao mercado chinês e a financiamento para infraestrutura, segundo analistas consultados.

Paraguai e Taiwan são parceiros há quase 70 anos.

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Em sua recente visita a Taiwan, o presidente paraguaio, Santiago Peña, afirmou que os dois países iniciaram “o caminho para criar o maior hub de inteligência artificial do mundo”.

Embora não tenha antecipado mais detalhes, ele disse que o projeto será construído em três fases, equiparando sua futura importância à da hidrelétrica de Itaipu.

Os acordos para investimentos em centros de dados voltados à inteligência artificial buscariam aproveitar a energia elétrica do país e a capacidade tecnológica de Taiwan.

“A visita de Santiago Peña a Taiwan mostra que a América Latina voltou ao centro da disputa entre as grandes potências: Estados Unidos e China”, disse Rafael Pampillón Olmedo, analista e professor de Economia da IE Business School.

“O Paraguai não é apenas o Paraguai: é membro do Mercosul e o último aliado sul-americano de Taiwan.”

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Segundo o acadêmico, “a questão de fundo não é apenas se China ou Taiwan são mais convenientes, mas como o Paraguai pode defender melhor seus interesses em um mundo em que comércio, tecnologia, segurança e diplomacia já não podem ser separados”.

O Paraguai, um país agrícola com potencial exportador, é o único da América do Sul e um dos 12 do mundo a manter relações diplomáticas oficiais com Taiwan, que a China considera uma província rebelde.

Na América Latina, além do Paraguai, Taiwan mantém vínculos com Guatemala, Belize, Haiti, São Vicente e Granadinas, Santa Lúcia e São Cristóvão e Névis, apesar da pressão chinesa para romper esses laços.

“Acho que houve uma melhora notável na relação [com Taiwan]”, disse à Bloomberg Línea o analista financeiro paraguaio Amilcar Ferreira.

“Estamos vendo um crescimento expressivo das exportações paraguaias para Taiwan, maior acesso ao mercado taiwanês e também cooperação na área educacional.”

Na opinião dele, “aquela reclamação que existia do lado paraguaio, especialmente da classe empresarial, de que o Paraguai perdia ao abrir mão da relação com a China, aos poucos vem sendo superada”.

Entre os projetos recentes de cooperação está a nova sede da Universidade Politécnica Taiwan-Paraguai (UPTP), cuja construção começou em outubro do ano passado com um investimento de US$ 27 milhões.

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“Acredito que as relações vivem um momento muito positivo e começam a gerar frutos especialmente para o Paraguai”, afirmou Amilcar Ferreira. “Como o Paraguai decidiu priorizar sua relação com Taiwan, também busca obter as maiores vantagens comerciais possíveis dessa parceria.”

Segundo dados divulgados pela Embaixada de Taiwan em sua conta na rede social X, as exportações paraguaias para Taiwan passaram de US$ 40 milhões em 2017 para uma projeção de US$ 400 milhões em 2026. “Em menos de dez anos, o Paraguai multiplicaria por dez suas exportações ao mercado taiwanês, com crescimento de 900%”, informou a embaixada.

Paraguai segue sob a sombra comercial da China

Amilcar Ferreira afirmou que a disputa geopolítica entre Estados Unidos e China vem influenciando as relações da América Latina, em um contexto no qual Washington busca reduzir a presença e a influência chinesa na região.

No entanto, ele alertou que esse objetivo não é simples, já que a China é a principal origem das importações de vários países sul-americanos, incluindo o Paraguai.

Embora o Paraguai seja o único país da América do Sul que mantém relações diplomáticas com Taiwan — o que implica ausência de vínculos oficiais com a China — isso não impediu o comércio.

Segundo Amilcar Ferreira, no Paraguai sempre houve total liberdade para importar produtos chineses, mas existem restrições para exportar diretamente ao gigante asiático. “O Paraguai não pode exportar diretamente seus produtos para a China; no entanto, de forma indireta isso acontece.”

Na prática, afirmou Ferreira, as importações vindas da China seguem normalmente, enquanto as exportações paraguaias chegam de forma indireta, por exemplo por meio de triangulação via Argentina no caso da soja.

Ferreira acrescentou que a presença de empresas chinesas no Paraguai, como a gigante de navegação Cosco Shipping, não foi limitada pela ausência de relações diplomáticas, já que essas companhias fizeram investimentos significativos no país. “O fato de não haver relações diplomáticas não impediu que uma multinacional chinesa como essa investisse no Paraguai.”

Ainda assim, ele considera que a principal limitação para o Paraguai é o acesso a financiamento e infraestrutura, área em que a China costuma oferecer crédito de longo prazo a países com os quais mantém relações.

América Latina se inclina para a China

O analista Rafael Pampillón Olmedo afirma que a guerra comercial transformou o reconhecimento da China ou de Taiwan em uma decisão econômica estratégica.

A rivalidade entre Washington e Pequim faz com que a relação com a China tenha custos geopolíticos cada vez maiores. “Já não se trata apenas de vender soja ou receber investimentos para construir ou modernizar portos e estradas.”

Segundo ele, a América Latina já não vê a China apenas como mais um parceiro comercial, mas como uma potência capaz de oferecer mercados, crédito, infraestrutura e tecnologia.

A China oferece aos países da região acesso ao seu mercado e à sua capacidade financeira, enquanto Taiwan, por outro lado, oferece uma cooperação mais limitada em volume, mas com um componente tecnológico e democrático mais claro, na visão do analista.

Para a América Latina, acrescenta o professor de Economia da IE Business School, Taiwan é importante porque oferece tecnologia, telecomunicações, dados, cibersegurança, minerais críticos e cadeias de suprimentos.

Taiwan produz cerca de 90% dos semicondutores mais avançados do mundo e uma parcela muito relevante dos chips.

“E, para os poucos países — que também são pequenos — que ainda reconhecem Taiwan, como Paraguai, Guatemala ou Haiti, a pressão da China aumenta”, afirmou.

“Isso coloca muitos governos latino-americanos em uma posição complicada em um momento em que os Estados Unidos voltam a pedir à região que não seja ingênua em relação a Pequim”, disse Pampillón Olmedo, ressaltando que a China já é um parceiro comercial fundamental para países exportadores de soja, cobre, lítio, carne, petróleo e minério de ferro.

O acadêmico destaca que “o comércio entre China e América Latina atingiu cifras recordes em 2025, em torno de US$ 530 bilhões”, à medida que a região se tornou mais estratégica para a China em áreas como alimentos, minerais críticos e energia.

A experiência hondurenha

Em março de 2023, a então presidente de Honduras, Xiomara Castro (2022-2026), rompeu relações diplomáticas com Taiwan para estabelecer vínculos oficiais com a China.

Apesar de Taiwan ter sinalizado abertura para restabelecer relações com o país centro-americano, o governo hondurenho aprofundou seus laços com a China em áreas como educação e turismo.

“A relação Honduras-China gerou expectativas muito altas e resultados ainda limitados”, afirmou o banqueiro e empresário hondurenho Lenín Palencia.

“A China representa uma oportunidade enorme pelo tamanho de seu mercado e sua capacidade de investimento, mas relações comerciais não geram benefícios automáticos; exigem competitividade interna, estratégia exportadora e capacidade de negociação.”

Segundo ele, em Honduras persiste a percepção de que a aproximação avançou mais rapidamente no campo político do que no econômico, o que explica por que hoje muitos veem a relação comercial como parcialmente estagnada.

No caso das micro, pequenas e médias empresas, ele detalha que a forte entrada de produtos chineses pode ter beneficiado o consumidor “com preços baixos”, mas também pressionou fortemente o pequeno comércio e as indústrias locais, que operam com custos muito mais altos e menor escala de produção.

Além disso, setores nos quais eram esperados resultados concretos, como saúde, agricultura e comércio, “ainda não mostram impactos transformadores visíveis, enquanto indústrias como a do camarão sofreram efeitos sensíveis após a perda do mercado taiwanês e a transição comercial para a China”.

Sobre Taiwan, ele afirma que Honduras manteve durante décadas uma relação estratégica, próxima e muito cooperativa, especialmente em assistência técnica, agricultura, saúde, educação e infraestrutura.

Na visão dele, “Taiwan foi um aliado consistente de Honduras, embora naturalmente com alcance econômico muito menor do que o potencial representado pela China. O verdadeiro desafio para Honduras não é escolher entre potências, mas construir relações internacionais que gerem resultados reais, investimento, emprego e crescimento sustentável para a população hondurenha.”