Bloomberg Línea — “Eu recebi com a mesma surpresa que todo o mundo”, afirmou Tomás Straka sobre o anúncio de Donald Trump que os Estados Unidos pretendem “governar a Venezuela” por tempo indeterminado após a captura de Nicolás Maduro.
“Esse tipo de declaração de perda da autonomia se transformou em uma espécie de país ocupado. É triste que a sociedade venezuelana tenha chegado até este ponto.”
Tomás Straka é professor de história na Universidade Católica Andrés Bello, membro da Academia Nacional de História da Venezuela desde 2016 e autor de obras consideradas fundamentais para compreender a Venezuela contemporânea, como “A República Fragmentada” (2015) e “A Épica do Desencanto” (2009), na qual analisa Simón Bolívar como figura de culto na política venezuelana.
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Com doutorado em História e passagens como professor visitante pela Universidade de Chicago, UNAM e Pomona College, Straka é reconhecido como um dos principais analistas da história política venezuelana, do chavismo e do bolivarianismo.
Em entrevista à Bloomberg Línea, o historiador ofereceu uma perspectiva histórica sobre os eventos que levaram à captura de Maduro, examinou os interesses geopolíticos e petroleiros por trás da operação americana e analisou a fragmentação política entre María Corina Machado, ganhadora do Nobel da Paz e opositora do regime chavista, e Delcy Rodríguez, atual presidente interina do país, enquanto avaliou os cenários possíveis para o futuro da Venezuela.
“Tínhamos o privilégio de ser um dos poucos países do Caribe que não havia sofrido intervenção norte-americana de forma direta, violenta”, disse Straka.
“Um conjunto de erros cometidos fundamentalmente pelos venezuelanos desde muito tempo — antes mesmo do chavismo —, mas, em particular, desde a chegada de Chávez ao poder, levou as circunstâncias a este ponto.”
Mas há raízes históricas que vão muito além do desgate das relações do país sob o chavismo com os Estados Unidos, de acordo com Straka.
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Segundo o historiador, “parecia que, no fundo, um regime com um sistema inimigo dos EUA e aliado de muitos rivais dos EUA, tão perto de seu território e com as principais reservas de petróleo, não poderia ser admitido”.
“A Venezuela, com a proximidade, com o petróleo, com as relações históricas, teve um papel e pode cumpri-lo novamente potencialmente no presente e no futuro, em uma recomposição do mundo dividido em áreas de influência, no momento em que os EUA estão voltando à sua área de influência inicial, que é o Caribe”, afirmou.
Veja a seguir a entrevista com Tomás Straka, editada para fins de clareza e compreensão, à Bloomberg Línea:
Os EUA justificaram o ataque à Venezuela usando a lei de segurança nacional e uma acusação formal de 2020. Como estudioso da história venezuelana, quais são os elementos que considera fundamentais para entender o ataque americano e a captura de Nicolás Maduro?
Nós tínhamos o privilégio de ser um dos poucos países do Caribe que não havia sofrido intervenção norte-americana de forma direta, violenta e, muito menos, algo tão grande e tão absurdo como a captura do presidente em exercício e seu traslado preso aos Estados Unidos, que é uma coisa muito particular.
Para chegar a esse ponto, há uma combinação de muitas coisas que começam já na primeira administração de Trump [de 2016 a 2020], mas que também têm início mais tempo atrás, nos distanciamentos e nos conflitos de Hugo Chávez com os Estados Unidos, no sentido muito ideológico.
Em um primeiro momento, Chávez se alinha contra os países ocidentais, com os seus oponentes, buscando o que chamamos de mundo multipolar, e se aliando dessa maneira com os setores que também estão de uma maneira ou outra contra o modelo ocidental capitalista, sobretudo em relação à democracia liberal. Isso é algo que começou a acontecer há de mais de vinte anos e que foi piorando.
E piorou em particular nos últimos dez anos, quando a legitimidade de Nicolás Maduro começou a ser questionada e os decibéis subiram até o ponto de desconhecimento da legitimidade da sua administração por parte dos Estados Unidos e por grande parte do mundo ocidental, com questões relacionadas a temas eleitorais e direitos humanos. Essa é a história de fundo.
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E quais são as outras camadas por trás dessa história?
Talvez haja algo maior e até mais antigo, que é a importância geopolítica da Venezuela. Trump tem indicado muitas coisas, como se tratar de um problema de segurança nacional. No meio da crise migratória, segundo seus comentários, foram enviados aos Estados Unidos de forma deliberada por parte do estado venezuelano ex-presidiários e enfermos psiquiátricos - um pouco repetindo o discurso do Êxodo de Mariel, nos anos 1980, de Cuba.
Nisso também apareceu o Tren de Aragua, que, sem dúvida, é um grupo criminoso internacional venezuelano, que talvez tenha uma fama que sobrepasse sua autêntica escala. Mas, de qualquer forma, Trump conectou o contexto do Tren de Aragua com o tema da imigração e com o narcotráfico.
Uma coisa, unida a outra, criou um problema político que foi piorando cada vez mais as relações entre Trump e Maduro, nos Estados Unidos e na Venezuela. Há também uma dimensão política interna nos Estados Unidos. Os imigrantes venezuelanos tendem a fazer um voto republicano precisamente por sua oposição ao governo, ao regime chavista, e estão muito ligados com o voto cubano.
Além disso, cada vez mais Trump fala de petróleo. O que acontece é que há um interesse geostratégico, dado que a Venezuela tem a maior reserva de petróleo do mundo. Atualmente, devido à destruição da indústria petroleira, em grande medida, resultado de decisões internas - mais do que de sanções -, a produção venezuelana é muito, muito pequena, mas no seu melhor momento Venezuela chegou a estar entre os maiores produtores mundiais. É um petróleo que está a quatro dias de distância das refinarias dos Estados Unidos no Golfo do México.
Quem ouve Trump percebe que ele insiste, de forma cada vez mais clara, sobre essa importância geoestratégica. O tema da democracia, do narcotráfico ou dos direitos humanos parece ocupar uma prioridade menor em relação ao tema da indústria petroleira, como disse na entrevista coletiva de imprensa.
Parecia que, no fundo, um regime com um sistema inimigo dos Estados Unidos e aliado de muitos rivais dos EUA, tão perto de seu território e com as principais reservas de petróleo, não poderia ser admitido.
A líder da oposição María Corina Machado declarou seu apoio à operação, e governos como Colômbia, Rússia, Cuba e Irã condenaram a ação. Além disso, a vice-presidente Delcy Rodríguez denunciou o ataque, mas Trump afirmou que ela ‘está disposta a fazer o que for necessário’. Como você interpreta essa fragmentação política após a captura de Maduro?
É difícil saber exatamente o que está acontecendo, porque, por muito tempo, se fala de conversas que foram mantidas com os Estados Unidos com o objetivo de reduzir as tensões. Em todos os casos, quando parecia que um consenso estava prestes a ser alcançado, por uma razão ou outra, sobretudo o governo de Caracas fazia algo que rompia com esse entendimento, dando a sensação de que estava fundamentalmente buscando tempo para não mudar as coisas.
E, em todos esses casos, o principal operador político e negociador de Maduro é Jorge Rodríguez, político, um intelectual importante, um escritor, um psiquiatra com uma formação importante e uma cultura que lhe permite negociar com bastante habilidade. Jorge Rodríguez é irmão de Delcy Rodríguez, a vice-presidente. Eles conseguiram subir ao mais alto escalão do poder durante a administração de Nicolás Maduro.
E nesses negócios sempre se falou - são basicamente rumores - em Delcy Rodríguez como uma das pessoas que poderiam assumir uma transição.
Entre outras coisas, porque Delcy Rodríguez, dentro do gabinete de Maduro, era encarregada da vice-presidência econômica. Portanto, responsável por todo o processo relativo à liberalização econômica e à paz com o capital nacional e internacional. Ela é vista como uma pessoa mais aberta ao diálogo e que conseguia consenso com os setores empresariais e internacionais e que poderia gerar algum tipo de confiança para uma transição.
A partir daí, a ideia de que Trump pense em Delcy Rodríguez segue algo que, segundo muitos analistas, já estava na mesa há muito tempo.
Agora, dentro desse contexto, Trump privilegiar o diálogo com Delcy de maneira tão clara - e não com Maria Corina Machado - foi muito surpreendente e gerou muitas especulações, mas não sabemos o que pode acontecer.
Delcy Rodríguez pode ocupar esse vazio institucional com a queda de Maduro?
Para além de toda essa capacidade de Delcy Rodríguez e de Jorge Rodríguez de ter negociado durante anos com o capital estrangeiro, com governos estrangeiros e com o capital nacional, Delcy Rodríguez é a vice-presidenta da república. Portanto, goste-se ou não, em termos constitucionais, frente a um vazio absoluto do poder, Delcy Rodríguez é a encarregada, a presidente provisória, que, de acordo com as circunstâncias, estaria obrigada a convocar eleições.
Esse movimento parecia ser uma aposta [de Trump] para evitar que um vazio de poder, que é o que se temia durante muitas horas em Caracas após o ataque. Significa continuar a operar a institucionalidade existente, com todos os defeitos e os problemas, com o poder nas mãos de uma pessoa que parece entender-se bem sobretudo com o capital. Isso explicaria a escolha de Delcy Rodríguez.
Já María Corina Machado tem muito mais dificuldades para entrar em diálogo com os setores do governo, o que, no processo de uma transição, poderia significar novos problemas.
Como você recebeu o anúncio de Trump de que os EUA vão ‘governar a Venezuela’ por tempo indeterminado, até que haja uma transição?
Eu recebi com a mesma surpresa que todo o mundo. Eu acho que não houve uma única pessoa, além de quem estivesse sabendo diretamente disso, que não tenha sido surpreendido. Alguns ficarem alegres, outros entristecidos e preocupados, mas esse tipo de declaração de perda da autonomia se transformou em uma espécie de país ocupado. É triste que a sociedade venezuelana tenha chegado até este ponto.
Um conjunto de erros cometidos fundamentalmente pelos venezuelanos desde muito tempo - antes mesmo do chavismo -, mas em particular desde a chegada de [Hugo] Chávez ao poder, levou as circunstâncias a esse ponto, com enfrentamentos que faz com que o presidente de um país estrangeiro diga que vai administrar a transição venezuelana.
Isso veio seguido de uma ponte com o setor do chavismo dirigido pelos irmãos Rodríguez, de tal maneira que a transição seria compartilhada. Temos que ver nas próximas horas, nos próximos dias, se funciona porque isso leva tempo para se desenvolver. É uma surpresa que me deixa com muitas reflexões sobre o nosso destino como nação.
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Trump comparou a situação venezuelana com as administrações provisórias no Japão, na Alemanha e no Iraque. Considerando a história venezuelana e suas particularidades — o bolivarianismo, a fragmentação social que você analisou, o controle sobre as Forças Armadas —, essa comparação faz sentido?
A comparação tem sentido porque, em todo caso, é o modelo que parecia que se queria aplicar e porque tem um setor muito amplo dos venezuelanos que recebe isso com aplausos. Estão pensando em uma espécie de General MacArthur, que pôs ordem na economia japonesa, que ajude a construir uma democracia. E um pouco do que se sonha, ou algo parecido com a administração colegiada dos aliados na Alemanha, que ajudou na criação de uma república federal.
Esse é um doloroso parto, mas com resultados tão positivos, a curto, médio e longo prazo, que é uma referência que muitos tomam em conta. Também se leva em consideração o Panamá, visto como uma referência também positiva.
Mas, da mesma forma, precisam lembrar de casos que não foram tão bons, como o do Iraque e o do Afeganistão. Ou de um caso de que se fala muito pouco, mas que talvez pareça bastante com a Venezuela, que foi o Haiti em 1994, quando o Raoul Cedras [que tinha liderado um golpe de estado em 1991] foi retirado do poder por uma operação militar da OEA [Organização dos Estados Americanos], mas fundamentalmente dirigida e liderada uma realidade sólida. O resultado foi algo que se aproximou à anarquia.
Talvez parece que o Iraque, neste momento, está um pouco mais estabilizado, mas o Haiti não conseguiu superar esse momento. Poderia-se pensar: a Venezuela se parece mais com o Haiti ou com a Alemanha e o Japão? Em algumas coisas, mais com o Haiti, mas em outras coisas está mais próximo de Alemanha e Japão.
Seja como for, em grande medida, diante do contexto que temos, creio que essa ponte com uma administração dirigida pela vice-presidente possa impedir que o país se polifragmente.
Como esse ataque à Venezuela se insere dentro de uma perspectiva de retomada de poder dos Estados Unidos em relação à América Latina, em contraposição à presença da China e da Rússia?
Novamente estamos diante da geopolítica. Parece que os EUA estão voltando ao “Mare Nostrum”, ao Caribe, que é a sua zona de influência inicial, ao que chamam de hemisfério ocidental, colocando todo o hemisfério em um só “saco”. E que, ao pensarem no Pacífico, na Ásia e no Oriente Médio, havia sido, em grande medida, abandonada desde a década dos 90. Parece ser um retorno para isso, sem dúvida.
É uma visão de mundo no momento em que já não há uma ideia clara de que é possível a unipolaridade, como sonhou George W. Bush (2001-2009), que retrata a volta a um modelo de área de influência.
A Venezuela, com suas reservas petrolíferas e uma história muito estreita com os Estados Unidos, que é uma dimensão que precisa ser levada em conta, entra nessa história. Quando Trump fala de tudo o que os Estados Unidos significaram para a Venezuela, provavelmente exagere em algumas coisas ou não seja preciso, mas o direcionamento está correto. Sem dúvida, é um país com uma vinculação muito clara com os Estados Unidos no passado.
Ou seja, a Venezuela, com a proximidade, com o petróleo, com as relações históricas, teve um papel e pode cumpri-lo novamente potencialmente no presente e no futuro, em uma recomposição do mundo dividido em áreas de influência, no momento em que os EUA estão voltando à sua área de influência inicial, que é o Caribe.
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