Ofensiva de Trump com Israel mira elo entre Irã, China e Rússia, dizem especialistas

‘Interpreto essa estratégia de Trump como uma tentativa de compensar a perda de hegemonia econômica e geopolítica’, disse à Bloomberg Línea Sergio Florencio, ex-diplomata brasileiro com experiência em Teerã e ex-embaixador no Equador, no México e junto à ONU, em Genebra

Para especialistas que falaram à Bloomberg Línea, ação vai além do programa nuclear e busca redesenhar o equilíbrio de poder no Oriente Médio (AP Photo)
01 de Março, 2026 | 09:09 AM

Bloomberg Línea Brasil — Crítico das “guerras eternas” dos Estados Unidos, o presidente Donald Trump começou o dia de sábado (28) liderando, ao lado de Israel, uma ofensiva militar contra o Irã, o que reacendeu as tensões no Oriente Médio.

Entre os argumentos oficiais, os ataques são uma resposta à repressão do regime dos aiatolás aos protestos recentes no país e à falta de acordo para o fim dos programas de desenvolvimento nuclear e de mísseis, em negociações ocorridas nos últimos dias.

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Para especialistas ouvidos pela Bloomberg Línea, há um pano de fundo muito mais complexo por trás dos ataques, combinando elementos geopolíticos e econômicos.

“Eu interpreto toda essa estratégia de Trump como uma tentativa de compensar a perda da hegemonia econômica e geopolítica. Como? Consolidando os Estados Unidos como a grande potência capaz de reverter situações em diversos países, inclusive por meio do intervencionismo militar”, disse Sergio Florencio, ex-diplomata brasileiro com experiência em Teerã e ex-embaixador no Equador, no México e junto à ONU, em Genebra.

Ou seja, mais do que o ataque a um país em específico, a ofensiva tem um objetivo maior: romper a ligação do Irã com a China e a Rússia, dois parceiros de longa data do regime comandado pelo aiatolá Ali Khamenei, o líder supremo do país.

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Essa fórmula “em construção” de minar as relações entre países antagônicos e grandes potências foi testada na Venezuela, com a captura de Nicolás Maduro, hoje preso nos Estados Unidos.

No país latino-americano, não houve mudança de regime, mas a postura de quem governa interinamente é de alinhamento aos EUA e distanciamento de China e Rússia.

O contexto atual também reforça a importância do Irã como produtor de petróleo. O país persa produz cerca de 3,3 milhões de barris por dia — aproximadamente 3% da produção mundial —, o que o torna o quarto maior produtor da Opep (Organização dos Países Exportadores de Petróleo).

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Além disso, o país exerce uma influência grande sobre o abastecimento energético global devido à sua localização estratégica. O Irã ocupa uma das margens do Estreito de Ormuz, rota marítima por onde passa cerca de um quinto do petróleo transportado no mundo, proveniente de grandes produtores como Arábia Saudita e Iraque.

“Acho que, se olharmos só para o tabuleiro político, não conseguiremos entender essa dimensão. Agora, se olharmos para os tabuleiros político e econômico, temos indícios de que há um interesse genuinamente econômico em ter influência sobre os grandes produtores de petróleo”, afirma Fabio de Andrade, do curso de Relações Internacionais da ESPM.

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O professor lembra que a China, a partir dos BRICS, aproximou-se nos últimos anos de alguns dos maiores produtores de petróleo. Em 2024, o próprio Irã, além de Arábia Saudita, Emirados Árabes Unidos, Egito e Etiópia, passaram a integrar o bloco de desenvolvimento econômico.

O momento do Irã

A ofensiva deste sábado atingiu um Irã já enfraquecido nos campos militar e político após uma sequência de eventos. Entre eles estão bombardeios americanos realizados no ano passado contra estruturas nucleares do país, protestos reprimidos com rigor pelas autoridades e a derrota do Hamas na Faixa de Gaza, além da perda de influência de outros grupos aliados, como o Hezbollah.

“Você tinha um Irã poderoso, que era o grande inimigo dos Estados Unidos na região. No mundo de hoje, o que vemos é que o Irã perdeu muito do seu poder e da sua capacidade militar”, afirma Florencio. “Os Estados Unidos querem aproveitar esse momento de declínio”.

Apesar da fragilidade militar do país persa, o ex-diplomata — que morou em Teerã na década de 1970 e presenciou in loco a queda da monarquia do xá Reza Pahlavi e a vitória da Revolução Iraniana em 1979 — não vê perspectivas de sucesso para uma política de mudança de regime no curto prazo.

“Acho que essa decisão dos Estados Unidos foi um ato impensado. Os riscos são muito maiores do que as possibilidades”, afirma, apontando diferenças entre os governos da Venezuela e do Irã.

“Na Venezuela, retirou-se Maduro e o governo tornou-se pró-americano. No Irã, se tirarem Khamenei, o regime continuará antiamericano”, diz o ex-diplomata.

As diferenças residem em uma estrutura social dividida, onde, de um lado, está a população mais pobre, que mantém o fervor religioso e se beneficia de programas sociais; e, de outro, as classes médias, contrárias ao regime, porém reticentes ao apoio externo — uma herança da experiência traumática da época do xá.

Sobre como conter um eventual ímpeto de deposição do governo pela sociedade, os especialistas apostam que o regime tende a radicalizar diante da pressão.

“O que o regime fez diante das maiores manifestações desde 1979? Uma repressão brutal, que silenciou as multidões”, disse Florencio.

“O que vejo é uma reedição dessa brutalidade e um governo ainda mais isolado. Ou seja, vejo uma radicalização e pouquíssimas perspectivas de mudanças de regime a curto prazo”.

Para Andrade, da ESPM, o Irã tentará usar outras ferramentas, além de uma retaliação militar contra Israel. “Prevejo o Irã tentando articular um movimento para diminuir a produção e distribuição de petróleo, agindo em conjunto com os produtores mais próximos”, diz.

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