Bloomberg — Claudia Sheinbaum raramente fala bem de outros chefes de Estado, mas, quando se trata do brasileiro Luiz Inácio Lula da Silva, ela não mede palavras.
“Ele é um homem extraordinário, um símbolo”, disse a presidente mexicana sobre Lula numa de suas entrevistas coletivas diárias em março. “É sempre um prazer conversar com ele.”
Os dois líderes cultivaram uma relação calorosa por meio de ligações e encontros em eventos internacionais, incluindo a cúpula do G20 sediada por Lula no Rio de Janeiro em 2024.
A sintonia entre eles reflete mais do que admiração mútua. É também parte de um realinhamento geopolítico mais amplo entre as duas maiores economias da América Latina.
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Sheinbaum e Lula se veem cada vez mais isolados conforme os conservadores ganham terreno por toda a região, muitos encorajados pelo retorno de Donald Trump ao poder nos Estados Unidos.
Após a aparente vitória de Keiko Fujimori no Peru e a eleição de Abelardo de la Espriella na Colômbia, a questão agora é se a chamada onda de direita da região conquista mais um país ou se Lula, 80 anos, consegue um quarto mandato na eleição de outubro no Brasil.
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Trump representa desafios diferentes, mas que se sobrepõem, para os dois líderes. Sheinbaum tenta proteger o modelo econômico do México, voltado à exportação, das tarifas e da incerteza sobre o futuro do acordo comercial USMCA. Lula busca preservar o espaço de manobra político e econômico do Brasil conforme a influência de Washington cresce por todo o hemisfério.
Essas pressões ajudaram a transformar uma relação cordial numa aliança geopolítica mais profunda que agora se estende muito além do comércio.
O sinal mais claro dessa mudança está no setor de energia, onde as gigantes petrolíferas estatais dos dois países avançam para aprofundar a cooperação à medida que buscam repor reservas e elevar a produção.
A parceria começou a tomar forma depois que Lula sugeriu laços mais estreitos entre Petrobras e Pemex durante uma de suas ligações com Sheinbaum. As empresas assinaram um acordo inicial na terça-feira (23) que abrange potencial cooperação em exploração, produção, refino, petroquímica, fertilizantes, captura de carbono e combustíveis mais limpos.
Para a Pemex, o atrativo é claro. A petrolífera estatal mexicana é pressionada por um negócio de refino deficitário, ineficiências operacionais e uma das maiores cargas de dívida entre as produtoras de petróleo do mundo. Ela também precisa reverter anos de queda na produção de petróleo. A Petrobras (PETR3; PETR4), por sua vez, precisa adicionar reservas e se preparar para uma possível queda na produção no início da década de 2030, conforme alguns de seus campos mais produtivos amadurecem.
“Há uma relação estreita com o Brasil neste momento”, disse Sheinbaum em sua entrevista coletiva diária na quarta-feira, descrevendo o acordo entre as duas petrolíferas estatais como “muito significativo por si só”.
Se a parceria avançar, poderia marcar uma mudança gradual em relação à estratégia energética mais fechada do ex-presidente Andrés Manuel López Obrador, que priorizou a Pemex e limitou fortemente a participação estrangeira na indústria de petróleo do México.
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A Petrobras está especialmente interessada em determinar se existe uma formação de petróleo do pré-sal no Golfo do México, semelhante à que transformou a indústria de energia do Brasil e agora responde pela maior parte da produção do país.
O México há muito restringe o acesso de empresas estrangeiras a algumas de suas áreas de petróleo mais promissoras, criando uma abertura para a Petrobras caso as condições políticas permitam, segundo Jean Paul Prates, ex-CEO da estatal brasileira.
“Ao contrário de outras empresas que enfrentaram maiores barreiras de entrada, a petrolífera estatal brasileira pode estar bem posicionada para aproveitar essa abertura”, disse Prates numa entrevista em maio.
Diversificação comercial
As conversas sobre energia vêm num momento em que os fluxos comerciais entre México e Brasil também ganham impulso.
O comércio bilateral atingiu US$ 18,5 bilhões no ano passado, o segundo maior nível desde 1980, segundo dados compilados pela Bloomberg, impulsionado por produtos automotivos, máquinas e produtos agrícolas, especialmente carne bovina.
O Brasil ainda mantém um superávit significativo, mas as exportações mexicanas para o Brasil têm crescido a taxas de dois dígitos nos últimos meses.
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A mudança é em parte uma resposta às disrupções no comércio global. Algumas empresas mexicanas aumentaram sua dependência de fornecedores brasileiros conforme as cadeias de suprimentos se ajustam a novas tarifas aprovadas pelo Congresso do México, medidas voltadas em grande parte a importações da Ásia. As mudanças vêm enquanto o México recalibra sua posição numa economia global cada vez mais fragmentada.
“Muitos substituíram suas importações da China para se manterem competitivos e encontraram uma opção viável no Brasil”, disse Sergio Islas, CEO da SIEM Business, empresa de logística comercial. “Os prazos de embarque são muito competitivos, as cadeias de suprimentos são fortes, tudo se encaixou para muitos no México.”
Ninguém espera que o Brasil substitua o mercado consumidor dos EUA ou se torne uma resposta completa à ameaça que Trump representa ao modelo econômico do México. Mas, para Sheinbaum, o Brasil surgiu como uma peça de um esforço mais amplo para diversificar parcerias comerciais e industriais.
O comércio bilateral permanece concentrado num punhado de setores em que as duas economias são altamente complementares. Ainda assim, várias empresas agora veem o Brasil como uma alternativa confiável de cadeia de suprimentos, disse Islas.
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Sheinbaum também olhou para o Brasil ao tentar impulsionar o Plan México, sua estratégia industrial principal, que ainda não entregou uma retomada sustentada dos investimentos. O investimento agregado permaneceu negativo por 17 meses seguidos, a mais longa sequência do tipo desde a pandemia, segundo o instituto nacional de estatísticas do México.
O Brasil agiu de forma mais agressiva. O programa Nova Indústria começou como uma iniciativa de crédito de R$ 300 bilhões e se transformou numa política industrial mais ampla voltada a semicondutores, veículos elétricos, hidrogênio verde, fármacos e outros setores estratégicos.
O programa combina crédito de banco de desenvolvimento, incentivos fiscais, compras públicas e financiamento à inovação para fortalecer as cadeias de suprimentos domésticas. O Brasil afirma que os investimentos planejados atrelados à política já superaram R$ 750 bilhões até 2026.
Uma parceria mais profunda poderia oferecer um impulso político a ambos os líderes num momento delicado. A taxa de aprovação de Sheinbaum estava em 53% em maio, queda de cerca de 10 pontos em relação a janeiro, segundo uma pesquisa AtlasIntel para a Bloomberg News.
Lula, enquanto isso, ruma para a eleição de outubro contra um adversário de direita, Flávio Bolsonaro, com pesquisas recentes mostrando o presidente à frente, mas a disputa ainda volátil conforme o escândalo do Banco Master envolve figuras de todo o establishment político do Brasil.
Com as pressões econômicas se acumulando e o capital político sob tensão, o incentivo para o alinhamento cresce. Para dois líderes de esquerda navegando por uma região onde seus aliados perdem terreno, uma coordenação mais estreita pode ser menos uma escolha do que uma necessidade, e uma que vem com uma janela que se estreita.
-- Com a colaboração de Mariana Durão.
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