Imigração deve ser desmistificada e mostrada com escolhas e custos, diz especialista

‘Migração não é boa ou ruim por definição. E não deve ser tratada como resposta ao medo’, disse Stefan Schwarz, presidente do European Labour Mobility Institute, à Bloomberg Línea durante a Global Labor Market Conference

Enquanto os EUA em teoria sabem que suprimir a migração legal prejudica a economia, a Europa foca em construir sociedades menores e menos abertas, diz Stefan Schwarz
02 de Fevereiro, 2026 | 03:47 PM

Bloomberg Línea — A repressão à imigração pelo governo de Donald Trump nos Estados Unidos voltou a colocar o tema no holofote global de políticas públicas. E trata-se de um desafio a ser enfrentado não apenas na maior economia do mundo.

Mas a questão ainda é tratada com generalizações e simplificações, o que impede que a sociedade e a população em diferentes países tenham condições de fazer escolhas conscientes das consequências, afirmou Stefan Schwarz, presidente do European Labour Mobility Institute, em entrevista à Bloomberg Línea durante a Global Labor Market Conference, em Riad, na Arábia Saudita.

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Para o especialista, o desenho da política migratória deveria ser apresentado como um trade-off claro aos eleitores de cada país ou região.

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“A questão precisa ser colocada como uma escolha: restringir a migração e aceitar menos crescimento econômico e menos serviços, ou buscar um modelo intermediário.”

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Para o presidente do European Labour Mobility Institute, o desafio central da Europa é abandonar uma visão binária sobre imigração.

“Migração não é boa ou ruim por definição”, afirmou. “Ela envolve escolhas, compensações e custos que precisam ser explicados à sociedade de forma honesta, e não tratados apenas como uma resposta ao medo.”

Schwarz chamou a atenção também para as diferenças entre políticas de imigração no mundo desenvolvido. A política migratória europeia, por exemplo, é atualmente mais restritiva do que a dos Estados Unidos, afirmou.

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Para o especialista, enquanto os EUA endurecem suas políticas contra a imigração ilegal, mas preservam a entrada de trabalhadores com visto - ainda que a um custo mais elevado em muitos casos -, a União Europeia adota uma abordagem mais restritiva sobre ambos os fluxos, mesmo diante de uma escassez de mão de obra que tem se tornado estrutural na região.

O cerne do problema, segundo Schwarz, está na forma como a imigração é tratada no debate público europeu.

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“Migração se tornou uma palavra-guarda-chuva que mistura fenômenos completamente diferentes”, afirmou.

No mesmo conceito entram refugiados de guerras, profissionais com contratos temporários, como enfermeiros e cuidadores, e famílias que desejam se estabelecer permanentemente em outro país europeu, explicou.

Essa generalização tem levado a políticas imprecisas que não dialogam com as necessidades reais da economia, disse Schwarz.

A percepção social, segundo ele, é moldada por imagens de “travessias irregulares, crises nas fronteiras e episódios isolados de violência”, que acabam sendo tratados como regra.

“Os que formulam as políticas sentem que precisam reagir, e a reação costuma ser reduzir a entrada de trabalhadores, ainda que isso não resolva o problema que gerou o medo”, disse.

Schwarz comparou esse cenário ao dos EUA, que, em sua avaliação, adotam uma abordagem mais orientada aos negócios.

“Os Estados Unidos sabem que suprimir a migração legal prejudica a economia”, disse.

Na Europa, por outro lado, a política migratória é mais focada na “dimensão social da economia”, com ênfase em proteção social, equilíbrio entre vida pessoal e trabalho e empregos de alta qualidade.

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Essa estratégia, acrescentou, alimenta a ideia de que sociedades menores e menos abertas à imigração seriam preferíveis às mais abertas.

Essa lógica, segundo ele, ignora dados que mostram que trabalhadores migrantes não pressionam salários nem substituem trabalhadores locais.

Pelo contrário, são essenciais para manter serviços básicos em países com rápido envelhecimento populacional.

A Polônia, onde Schwarz reside, é um exemplo desse fenômeno. Projeções indicam que a população do país pode cair de cerca de 40 milhões para 20 milhões nas próximas décadas.

“Sem imigração, não haverá enfermeiros, cuidadores, motoristas, entregadores ou taxistas”, disse.

Stefan Schwarz, presidente do European Labour Mobility Institute

O presidente do instituto de mobilidade europeu disse que geralmente os políticos do bloco evitam esse debate por receio de perder apoio eleitoral, especialmente com o avanço de partidos de extrema direita.

Schwarz exemplificou esse dilema ao citar o caso do Reino Unido após o Brexit: ao reduzir a migração entre cidadãos europeus, o país acabou ampliando a emissão de vistos para trabalhadores de fora da UE, diante da falta de mão de obra em setores essenciais.

“Não é possível simplesmente parar a migração. Você precisa dela”, disse.

IA: mais uma camada de pressão

Além da imigração, Schwarz destacou que o avanço da inteligência artificial tem acrescentado uma nova camada de pressão ao mercado de trabalho europeu.

Países como a Polônia “construíram” parte do modelo de crescimento econômico com base em centros de serviços terceirizados, como processamento financeiro e tarefas administrativas, - setores que vêm sendo rapidamente automatizados.

Nos últimos anos, jovens trabalhadores, que enxergavam esses empregos como estáveis, começaram a perder espaço diante do avanço de IA.

“O problema é que os governos venderam a ideia de segurança no emprego”, disse.

“Isso é injusto. As pessoas precisam entender que terão que investir continuamente em qualificação, porque nem os contratos mais protegidos resistem à mudança tecnológica.”

Além disso, ele ressaltou que a IA não apenas elimina empregos mas também redefine funções. Em sua própria empresa de cuidados domiciliares, por exemplo, sistemas de IA substituíram tarefas de tradução entre cuidadores e clientes internacionais.

“São empregos que já desapareceram, inclusive em empresas pequenas. Eu sou testemunha pois vi isso acontecer em minha companhia”, disse.

Diante do efeito já observado da IA no mercado de trabalho - com grandes demissões em empresas de diferentes países -, Schwarz defendeu regras mais simples e claras para proteger trabalhadores migrantes.

Ele disse que atualmente a legislação europeia é tão complexa que nem empregadores nem empregados conseguem compreendê-la plenamente, o que abre espaço para distorções e manipulação pela falta de compreensão.

Setores como logística, transporte, saúde e cuidados com idosos estão entre os mais expostos às restrições atuais.

“Se o governo limita vistos para motoristas de caminhão, uma parte inteira da economia simplesmente para”, afirmou.

“No cuidado com idosos, sem trabalhadores estrangeiros, mulheres jovens acabam abandonando suas carreiras para cuidar dos pais.”

Medo de perda de emprego

Há uma lógica específica que opera em relação às políticas de migração e ao trabalho, segundo o especialista, quando questionado sobre as negociações do acordo de livre comércio entre a União Europeia e o Mercosul, que levou a grandes manifestações públicas, sobretudo do agronegócio.

Segundo ele, o debate é geralmente dominado pelo medo de perdas de emprego. No caso do setor agrícola, isso é reforçado pela influência política de sindicatos e organizações setoriais na UE.

“Mesmo sem conhecer os detalhes [do acordo], há uma lógica que se repete: quando as pessoas têm medo, pedem proteção”, afirmou.

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