Bloomberg Línea — A ofensiva dos Estados Unidos contra a Venezuela, que levou à captura do presidente Nicolás Maduro, reacendeu a atenção de especialistas e investidores para os efeitos potenciais da crise sobre o mercado global de petróleo.
Isso porque a Venezuela concentra uma das principais reservas de petróleo no mundo, mas ainda enfrenta problemas em sua infraestrutura.
Embora, no curto prazo, a ofensiva americana não deva se traduzir em efeitos práticos sobre os preços do petróleo, que atravessa um cenário de sobreoferta, ela ainda pode trazer impactos relevantes no longo prazo.
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Em entrevista à Bloomberg Línea, o professor da Escola de Comunicações e Artes (ECA) e do Programa de Pós-Graduação em Ciência Ambiental do Instituto de Energia e Ambiente da USP (Universidade de São Paulo), Pedro Côrtes, disse que é fundamental separar o “ruído geopolítico da dinâmica econômica do setor energético, já que a participação venezuelana na oferta global é hoje limitada e insuficiente para provocar oscilações significativas nos preços”.
Segundo Côrtes, as cotações do petróleo seguem oscilando dentro de padrões considerados normais, perto do patamar de US$ 60 o barril do tipo Brent, e sem, portanto, uma reação expressiva à escalada de tensão americana na Venezuela.
Isso porque a contribuição do país sul-americano para a produção mundial do fóssil é limitada.
Apesar de deter as maiores reservas comprovadas do planeta, a Venezuela opera com volumes reduzidos e enfrenta restrições técnicas e de infraestrutura relevantes, já que grande parte de seu petróleo é pesado e altamente viscoso, explicou Côrtes.
O fóssil da região exige “refinarias específicas” para processamento, disse.
Esse cenário, porém, pode mudar a partir da entrada e dos maiores investimentos de petroleiras americanas - cenário que foi defendido por Trump durante entrevista coletiva de imprensa neste sábado (3) após o ataque dos EUA à Venezuela e a captura de Nicolás Maduro.
“Vamos fazer com que nossas muito grandes empresas de petróleo dos Estados Unidos, as maiores em qualquer lugar do mundo, entrem no país, invistam bilhões de dólares, consertem a infraestrutura gravemente deteriorada, a infraestrutura de petróleo, e comecem a gerar dinheiro para o país”, disse Trump.
Diante de um cenário de médio prazo de maior atuação das grandes petroleiras, explicou Côrtes, haveria potencial aumento da oferta global, o que tenderia a pressionar os preços do fóssil para baixo.
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Esse movimento, porém, estaria menos ligado à geopolítica e mais ao contexto da indústria de energia, marcado pela expansão da produção dos Estados Unidos nos últimos anos, que figura hoje na liderança da produção do fóssil.
Segundo o professor, a situação é diferente daquela observada em conflitos em regiões estratégicas do Oriente Médio, em que riscos ao transporte marítimo e às rotas internacionais costumam ter efeito quase imediato sobre as cotações.
“Há, obviamente, um choque geopolítico, mas ele não se traduz em impacto sobre a oferta de petróleo, o transporte da commodity ou os seguros marítimos. Diferentemente do que ocorreria em um conflito no Oriente Médio, a Venezuela é um país isolado do ponto de vista logístico, sem capacidade de afetar o fluxo de petróleo de outras regiões.”
O cenário atual do fóssil é marcado, ainda, pela perspectiva de recordes de produção americana entre 2025 e 2026 e já preocupa produtores, uma vez que preços mais baixos reduzem margens e tendem a limitar investimentos.
Uma queda acentuada poderia, inclusive, comprometer a viabilidade de operações de petróleo e gás de xisto, que apresentam custos mais elevados para transporte.
Consequências para a região
Do ponto de vista ambiental, Côrtes avaliou que não há, no momento, indícios de riscos para países vizinhos, como o Brasil.
Isso porque as correntes oceânicas na costa da Venezuela tenderiam a levar eventuais vazamentos em direção ao Caribe, e não à costa brasileira.
Ainda assim, a precarização da infraestrutura venezuelana ao longo dos últimos anos é um fator de atenção, explica Côrtes, especialmente até que investimentos consistentes em modernização sejam realizados.
A Venezuela segue sendo, no essencial, um país de petróleo. Outras commodities não têm peso significativo no curto prazo, e mesmo o potencial agrícola permanece pouco explorado.
Ainda assim, a relevância do país no mercado global é hoje diluída por uma diversidade muito maior de produtores de petróleo no mundo, o que reduz a probabilidade de choques.
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“Ao longo das últimas décadas, houve uma diversificação muito grande das fontes produtoras de petróleo no mundo. Diferentemente dos anos 1970, quando os choques do petróleo de 1973 e 1979 tiveram impacto profundo sobre os preços, hoje a enorme diversidade de países produtores reduz a magnitude de efeitos desse tipo”, disse.
Para o Brasil, os desdobramentos econômicos diretos tendem a ser limitados. Não há expectativa de impacto específico sobre o mercado de energia nacional, além dos movimentos que já afetam outros países, disse.
Eventuais consequências podem surgir mais no campo social, como no aumento dos fluxos migratórios para o país, acrescentou Côrtes.
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