Crise em Cuba: elites de Miami veem recuperação econômica cada vez mais distante

Apesar das pressões do governo americano por uma mudança de regime, empresários na Flórida avaliam que as dificuldades do país se tornaram profundas demais

Cuba
Por Jim Wyss
09 de Fevereiro, 2026 | 05:10 PM

Bloomberg — As elites empresariais cubanas de Miami já planejaram esse momento inúmeras vezes.

Após a queda da União Soviética e durante um breve período de distensão entre Washington e Havana, há cerca de uma década, elas contrataram analistas e economistas para elaborar planos de reconstrução da ilha no caso de uma mudança de regime.

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Agora, com um presidente dos Estados Unidos mais assertivo empurrando Cuba para o limite, a possibilidade parece novamente tentadoramente próxima.

Mas “o argumento econômico que poderia ter sido feito nos anos 1990, ou mesmo em 2015 — isso simplesmente não existe mais”, disse Carlos Saladrigas, fundador do grupo de recursos humanos Regis HR Group, hoje com 77 anos, e presidente do Cuba Study Group, uma organização sediada em Washington.

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Esse é o dilema enfrentado pelo governo Trump e pelo setor privado do qual ela dependeria para financiar uma reviravolta.

As necessidades de Cuba são hoje tão gigantescas, e sua política tão entrincheirada, que é difícil enxergar como o país conseguiria atrair o investimento necessário para se recuperar da pior crise econômica de sua história moderna.

Donald Trump afirma que o regime em Havana está à beira do colapso, e seu principal diplomata disse no mês passado que os Estados Unidos “adorariam ver” o governo cair.

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Em uma rara entrevista coletiva na quinta-feira (5), o presidente cubano Miguel Díaz-Canel afirmou que seu governo “está pronto para dialogar com os Estados Unidos sobre qualquer tema que queiram debater, mas isso precisa acontecer sem pré-condições, em pé de igualdade e com respeito”.

Enquanto isso, apagões prolongados e a escassez de bens básicos paralisaram a economia da ilha, levando quase um em cada cinco habitantes a deixar o país ao longo da última década. E, em 3 de janeiro, os Estados Unidos cortaram na prática o fornecimento de petróleo a Cuba ao capturar seu principal aliado, o líder venezuelano Nicolás Maduro.

Medidas emergenciais estão sendo adotadas à medida que o combustível se esgota. Companhias aéreas foram alertadas de que não poderão reabastecer em Havana. Tubulações de água, redes de esgoto, estradas, portos, escolas e hospitais precisam desesperadamente de reparos e investimentos.

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A rede elétrica, que sofreu cerca de meia dúzia de apagões nacionais ao longo de um ano, necessita de uma injeção de ao menos US$ 10 bilhões, segundo algumas estimativas.

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A situação miserável da ilha expõe outro desafio para os Estados Unidos: Cuba não é a Venezuela, e o manual usado por Washington em Caracas dificilmente funcionará em Havana.

Desde que tropas americanas retiraram Maduro do poder, sua aliada de longa data e número dois, Delcy Rodríguez, tornou-se a nova líder da Venezuela, em grande medida alinhada a Washington, reformulando a indústria de petróleo do país e prometendo libertar centenas de presos políticos.

É difícil imaginar algo semelhante em Cuba, onde seis décadas de regime comunista eliminaram qualquer oposição viável e vestígios de alinhamento aos Estados Unidos.

“Quem você acha que, em Cuba, poderia se tornar uma Delcy Rodríguez? Ninguém sabe”, disse Saladrigas, que deixou o país em 1961 na Operação Pedro Pan, que levou milhares de crianças desacompanhadas aos Estados Unidos.

Cuba

Desde que Trump ameaçou impor tarifas a qualquer país que enviasse combustível a Cuba, surgiram relatos não confirmados de que Alejandro Castro, filho do líder revolucionário Raúl Castro, hoje com 94 anos, manteve conversas com autoridades americanas no México.

Também ganhou projeção Óscar Pérez-Oliva, chefe da pasta de Comércio e sobrinho de Castro, que anunciou as medidas emergenciais em rede nacional na sexta-feira. Ainda assim, não há fissuras na unidade do regime nem facções autônomas de poder que Washington possa explorar, como fez na Venezuela.

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Assim, sem mudanças profundas em Cuba que incluam instituições democráticas e “pleno respeito ao capital e aos direitos humanos”, é difícil imaginar investidores fazendo fila para entrar no país, disse o bilionário do setor imobiliário Jorge Pérez, fundador do grupo Related, com sede em Miami.

Pérez afirmou que sua empresa estava pronta para investir em Cuba em 2016, quando caminhou pelas ruas de Havana ao lado do então presidente Barack Obama, num momento em que os dois países pareciam prestes a normalizar suas relações.

Foi uma época de grande otimismo: a Major League Baseball (MLB) realizou jogos na ilha, o papa Francisco visitou o país, os Rolling Stones fizeram um show histórico.

Companhias de cruzeiros dos Estados Unidos, construtoras, grandes grupos do agronegócio e financistas passaram a fazer viagens frequentes, explorando a maior — e em grande parte intocada — ilha do Caribe, a apenas 90 milhas da Flórida.

Mas as mudanças rápidas assustaram o governo autoritário em Havana, e a porta se fechou. Em seguida, a política americana se endureceu.

“Se houver uma mudança real, muitos países — não apenas pessoas — garantirão que o dinheiro flua para Cuba para que o país, como uma democracia, possa prosperar”, disse Pérez. “Haveria um volume enorme de investimentos, e nós adoraríamos participar, nas condições certas.”

Ainda assim, o Partido Comunista Cubano, que governa a ilha desde pouco depois da revolução de 1959, parece pouco disposto a ceder. Um dos vice-presidentes de Díaz-Canel enfatizou repetidamente em entrevistas à imprensa na semana passada que o sistema de partido único é inegociável.

“Vejo como muito difícil uma revolução a partir de dentro”, disse Pérez. Embora “o país esteja economicamente asfixiado”, ele acrescentou, o governo é “extremamente repressivo”. “Qualquer manifestação mínima é imediatamente reprimida.”

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Há ainda a questão dos benefícios a oferecer à base do movimento America First, de Trump. A Venezuela possui algumas das maiores reservas de petróleo do mundo — o que permitiu ao presidente e ao secretário de Estado, Marco Rubio, apresentar a mudança como economicamente vantajosa —, mas Cuba não tem ativos fáceis de capturar.

“Na Venezuela, o dinheiro sai do chão; em Cuba, não”, disse Saladrigas. “Trump está pronto e disposto a dar a Cuba US$ 2 bilhões ou US$ 3 bilhões para recuperar a economia e apoiar a população durante uma transição de dois ou três anos?”

Ainda assim, o potencial de Cuba é grande demais para ser ignorado pelo governo dos Estados Unidos ou pelo setor privado, segundo Pedro Freyre, presidente da área internacional do escritório de advocacia Akerman.

“O turismo é o petróleo de Cuba”, disse ele de seu escritório no 11º andar, observando que o governo investiu pesado em novos quartos de hotel que estão, em grande parte, vazios, a apenas 45 minutos de voo de Miami — menos do que seu trajeto diário de Kendall.

Além disso, a ilha conta com um grupo altamente qualificado de cientistas e médicos, além de conhecimento em manufatura farmacêutica. E há ainda quilômetros de terras agrícolas improdutivas à porta da Flórida.

Durante a era Obama, “eu tinha uma empresa pronta para entrar no país em modelo turnkey e montar uma plantação de bananas em 90 dias”, disse Freyre. “Consigo imaginar Cuba como fornecedora de hortaliças de inverno para os EUA, abacates, tomates e o que mais se quiser.”

Mesmo assim, todos esses sonhos e planos exigem mudanças profundas em um governo em Havana que resistiu a décadas de tentativas de golpe, gestos de aproximação e pressão econômica por parte dos Estados Unidos.

Saladrigas diz que há uma almofada em sua casa bordada com a frase “No próximo ano, em Havana”. Ela está ali desde os anos 1960.

Freyre afirmou que os planos detalhados e ambiciosos para reconstruir a economia cubana, elaborados desde os anos 1990, ficaram armazenados por tanto tempo que “ninguém mais se lembra onde estão”.

Mas, desta vez, ele reconhece, a situação parece diferente.

“Nunca Cuba esteve em uma condição tão terrível, e os Estados Unidos nunca estiveram em uma posição de poder como esta”, disse Freyre. “Mas passei a vida inteira me decepcionando.”

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-- Com a colaboração de Anna J Kaiser e Michael Smith.

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