Como a China ganhou terreno em LatAm muito antes da guerra comercial com os EUA

Brasil, Chile e Peru são três exemplos de mercados regionais que reduziram a dependência dos EUA e que encontraram na potência asiática um destino confiável para seus produtos, em relação com interesse mútuo

Xi Jinping e Lula: relação bilateral de proximidade diante dos interesses mútuos entre as duas nações, em particular na economia
17 de Maio, 2025 | 08:53 AM

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Bloomberg Línea — Muito antes do início da guerra comercial em 2025, grandes economias regionais, como Brasil, Chile e Peru, não apenas reduziram grande parte de sua dependência dos Estados Unidos como diversificaram seus parceiros e se aproximaram da China, que transformou a América Latina em sua reserva de matérias-primas.

Há vários anos, esses países se aproximam da segunda maior economia do mundo para fortalecer seus laços comerciais diante da crescente demanda por commodities como soja e cobre.

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A aproximação entre a potência asiática e os países da região também se refletiu na IV Reunião Ministerial do Fórum China-Celac em Pequim, onde o presidente chinês Xi Jinping pediu que eles “rejeitassem a interferência externa”.

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“Acho que isso responde à necessidade de expandir seus parceiros comerciais”, disse o analista financeiro Gregorio Gandini à Bloomberg Línea.

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“A China é o maior consumidor de cobre do mundo e os principais produtores são o Chile e o Peru, o que já era uma base comercial sólida.”

“É fundamental não substituir um parceiro comercial forte como os EUA por outro, mas buscar um equilíbrio”, acrescentou Gandini. Em sua avaliação, o fortalecimento dos laços com países como a China deve ser visto como parte de uma estratégia de diversificação.

El presidente chino, Xi Jinping, declaró su apoyo a que los países latinoamericanos y caribeños rechacen las interferencias externas.​

Atualmente, 39,1% das exportações do Chile vão para a China, enquanto no caso do Brasil elas representam 31,7%, e no Peru, 29,2%, de acordo com dados da holding financeira Credicorp.

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No início de maio, a Colômbia aderiu à iniciativa de cooperação da Rota da Seda, ignorando as advertências de seu principal parceiro comercial, os EUA. O Chile e o Brasil também assinaram acordos de cooperação com o objetivo de fortalecer as relações com a China.

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Brasil: comércio bilionário com a China

O Brasil tem uma forte relação comercial com a China, embora o país nunca tenha tido uma política de Estado que priorizasse o gigante asiático como parceiro, nem que fosse contrária aos interesses dos EUA.

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De fato, o Brasil não assinou um acordo de livre comércio com a China, como fizeram o Chile e o Peru. O gigante sul-americano também não aderiu à Iniciativa do Cinturão e da Rota.

“O que aconteceu foi que as circunstâncias históricas, as mudanças tecnológicas e econômicas e o desenvolvimento de cada nação levaram a uma sinergia natural entre as economias brasileira e chinesa, tornando a China o principal parceiro comercial”, disse Pedro Rebelo, diretor executivo de Negócios Internacionais da São Paulo Negócios, uma agência de promoção de investimentos e exportações.

O especialista em investimentos estrangeiros no Brasil explicou que as relações bilaterais com a China só foram formalizadas em 1974, durante o governo do general Ernesto Geisel.

E, desde a abertura econômica da China na década de 1980, a necessidade do país por matérias-primas encontrou no Brasil uma fonte importante.

Em 2001, a China foi responsável por apenas 3,27% das exportações brasileiras. O ano de 2009, por outro lado, foi um marco nas relações comerciais entre os dois países, pois a China ultrapassou os Estados Unidos e se tornou nosso principal parceiro comercial, com uma balança comercial superavitária. Hoje, as economias brasileira e chinesa são complementares

Pedro Emilio Polli Rebelo, especialista em investimentos estrangeiros no Brasil.

Na década de 1980, o agronegócio também começou a se desenvolver mais, em grande parte devido ao desenvolvimento de tecnologias de cultivo pela Embrapa (Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária), que possibilitaram a correção do solo para a agricultura de soja, café e milho.

“Como nossas economias são complementares, hoje vejo uma interdependência mútua. O Brasil é tão importante para a China quanto eles são para o país. Podemos não ser o maior parceiro comercial da China, mas, sem o Brasil, a China não seria capaz de sustentar sua produção econômica ou garantir a segurança alimentar de sua população”, disse o analista.

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Em meio à guerra comercial, o Brasil é uma fonte importante de fornecimento de soja para a China e é atualmente o principal produto agrícola exportado pelo gigante sul-americano para esse destino.

A associação de classe do setor, Aprosoja, prevê que o Brasil aumentará suas exportações de soja para a China em 4% neste ano, embora uma das limitações mais importantes seja a capacidade dos portos locais de lidar com o volume.

“Se depender do meu governo, nossa relação com a China será indestrutível”, disse o presidente Luiz Inácio Lula da Silva em sua mais recente visita a Pequim, no âmbito do Fórum China-Celac.

De qualquer forma, os EUA ainda são um parceiro histórico e estratégico extremamente importante para o Brasil.

De acordo com Pedro Rebelo, em 2024, o país foi o segundo maior destino das exportações brasileiras, com um total de US$ 40,3 bilhões, representando quase 12% do total das exportações brasileiras.

AnoMarco nas relações Brasil-China
1974Início oficial das relações diplomáticas entre Brasil e China
1988Acordo para desenvolver o programa CBERS (China-Brazil Earth Resources Satellite).
1993Assinatura de uma parceria estratégica (a primeira da China com outro país).
2004Criação da Comissão COSBAN para coordenar a cooperação bilateral.
2009A China se torna o principal parceiro comercial do Brasil.
2012A relação bilateral é atualizada para uma parceria estratégica global.
2015Visita do primeiro-ministro chinês e anúncio de US$ 53 bilhões em investimentos.
2020-2021A China desempenha um papel fundamental no fornecimento de vacinas durante a pandemia.

Chile e o Acordo de Livre Comércio

No caso do Chile, o país fez mudanças em sua estrutura de negócios nos últimos dez anos, o que lhe permitiu fortalecer seu relacionamento com a China.

“Além de considerar isso um prejuízo direto para suas relações com os Estados Unidos, o Chile permitiu que o país se diversificasse e se tornasse um líder na região”, disse Renato Campos Santana, analista de mercado da Squared Financial, à Bloomberg Línea.

A aproximação do Chile se baseia em fatores como a complementaridade econômica com a China, levando em conta suas exportações de matérias-primas, especialmente cobre, frutas, vinho e frutos do mar.

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O analista Renato Campos destacou que esse fluxo comercial é relevante devido à necessidade e à demanda da China por esses produtos para sustentar seu crescimento industrial e urbano, o que lhe permitiu promover uma relação comercial fluida e crescente.

Em termos gerais, “a reconfiguração geopolítica e a ascensão da Ásia permitiram que a China, como a segunda maior economia do mundo, se redefinisse como líder comercial, sendo o Chile um parceiro comercial estratégico em seus planos”.

Outro fator importante foi o investimento que a China fez na América Latina, principalmente em setores estratégicos do Chile, como mineração, energia, telecomunicações e infraestrutura. Isso não teria sido possível sem um financiamento atraente para projetos chilenos, o que fortaleceu os laços econômicos.  

Renato Campos Santana, analista da Squared Financial.

O acordo de livre comércio de 2006 do Chile foi o primeiro entre um país latino-americano e a China, o que ajudou a ampliar e aprofundar o comércio bilateral, com a redução das barreiras tarifárias e um mercado muito mais aberto como resultado.

Campos analisou que o crescimento do comércio bilateral se estabilizou.

Ele também considerou que os EUA têm se concentrado em outras frentes, como o T-MEC e/ou as tensões comerciais com a China, “o que significou um cenário turbulento para as relações e sua presença na América Latina”.

Porto de Chancay, no Peru

Peru e sua proximidade com a China

Em 2019, o Peru aderiu à iniciativa Nova Rota da Seda da China, fortalecendo ainda mais as relações com a potência asiática, uma vez que já haviam assinado um acordo de livre comércio em 2009 - que entrou em vigor no ano seguinte.

De acordo com informações do Ministério de Comércio Exterior e Turismo do Peru, publicadas em novembro do ano passado, nos primeiros 14 anos de vigência do Acordo de Livre Comércio, o valor das exportações peruanas para aquele país cresceu a uma média anual de 12,8%.

“Embora não tenha havido uma decisão explícita do governo peruano de redirecionar o comércio para a Ásia, ou especificamente para a China, na prática, são as empresas que determinam seus mercados de exportação, geralmente com base nas condições de demanda e preço que encontram no exterior, bem como nas estratégias que planejam desenvolver”, disse Guillermo Arbe, gerente sênior do Departamento de Pesquisa Econômica do Scotiabank Peru.

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Os projetos recentes da Rota da Seda no Peru incluem o mega-porto de Chancay, localizado a cerca de 70 quilômetros ao norte de Lima, que foi inaugurado em 2024 pela empresa estatal chinesa Cosco Shipping.

Esse projeto envolveu um investimento de US$ 3,5 bilhões, financiado dentro da estrutura da Iniciativa do Cinturão e Rota da China.

A evolução do comércio entre os dois mercados “é explicada pelo próprio desenvolvimento econômico da China e sua demanda por importações de produtos que o Peru produzia e exportava”, disse Leolino Dourado, pesquisador do Centro de Estudos sobre a China e a Ásia-Pacífico da Universidade do Pacífico, no Peru, à Bloomberg Línea.

Ele explicou que, à medida que a China se industrializou e se tornou a fábrica do mundo, começou a demandar cada vez mais commodities peruanas, como cobre e ferro.

“É curioso ou interessante notar que mesmo a composição das exportações peruanas não mudou muito nas últimas duas décadas”, disse o analista Dourado.

O Acordo de Livre Comércio assinado com a China é visto como interconectado com a política de diversificação e expansão das exportações, embora ele tenha alertado que é importante não presumir que todo o comércio que surgiu após a entrada em vigor desse acordo seja resultado disso.

Dourado disse acreditar que a aproximação diplomática também pode ter desempenhado um papel importante, enquanto as visitas de Estado e uma série de outros acordos assinados também ajudam a fortalecer as relações e “enviam um sinal positivo aos participantes do mercado na China de que o Peru é um parceiro confiável para a China”.

O Peru, por outro lado, também enfrenta riscos significativos devido à sua alta dependência comercial da China, pois tem um alto grau de vulnerabilidade a choques externos, como uma possível desaceleração econômica na potência asiática que reduza sua demanda por importações.

Há também riscos políticos: de um lado, a pressão dos EUA para que o Peru limite seus laços com a China, e, de outro, a possibilidade de a China usar seu peso comercial como ferramenta de pressão.

Para mitigar essa vulnerabilidade, o Peru precisaria continuar a diversificar seus parceiros econômicos e sua produção, priorizando produtos com maior valor agregado.

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Daniel Salazar

Profissional de comunicação e jornalista com ênfase em economia e finanças. Participou do programa de jornalismo econômico da agência Efe, da Universidad Externado, do Banco Santander e da Universia. Ex-editor de negócios da Revista Dinero e da Mesa América da Efe.