Bloomberg Línea — Um ano depois da volta de Donad Trump ao poder nos EUA, o Brasil se prepara para mais uma eleição presidencial acirrada. E a possibilidade de uma interferência do governo americano antes e depois da votação parece “clara”, mas o país está hoje em uma posição forte o suficiente para resistir a esse tipo de pressão externa.
A avaliação é de Ted Piccone, pesquisador do Strobe Talbott Center for Security, Strategy, and Technology do Brookings Institution, que atuou por oito anos como conselheiro sênior de política externa no governo Clinton e hoje também integra o Club de Madrid, think tank europeu de apoio à democracia.
“Dado o histórico deste governo até agora, os brasileiros devem presumir que ele tentará interferir nas eleições no Brasil, tanto antes da votação quanto depois. Isso parece muito claro”, disse em entrevista à Bloomberg Línea.
“Eles [governo dos EUA] escolhem seus favoritos e distorcem os fatos para apoiá-los. Eles vão tentar manipular o resultado onde bem entenderem, onde acharem conveniente para seus interesses", disse o pesquisador de um dos mais respeitados think tanks dos Estados Unidos.
Leia mais: Em busca da Groenlândia, Trump parece optar por destruir a aliança com o Ocidente
Nesse contexto, segundo ele, a questão se torna como o Brasil pode mitigar esse risco. Piccone diz que o país já tem avançado nesse sentido nos últimos anos e diversificado suas relações com o resto do mundo nos âmbitos econômico e político, o que oferece alguma segurança.
“Os Estados Unidos não têm mais a mesma influência de antes”, disse.
A percepção de Piccone reflete a análise de um momento de crescente tensão sobre o impacto da política externa americana em democracias fora do eixo tradicional de aliados de Washington.
Desde que voltou ao poder, há um ano, Trump tem adotado uma postura mais assertiva e transacional, colocando em segundo plano o compromisso dos EUA com o sistema internacional baseado em regras, segundo o pesquisador.
Leia mais: Da geopolítica à eleição no Brasil: 10 temas que investidores devem acompanhar em 2026
Ao mesmo tempo, a reorganização da ordem global promovida pelo republicano desde seu retorno à Casa Branca abre espaço para que o Brasil assuma um papel mais relevante no cenário internacional.
“É muito alarmante o que está acontecendo, mas é uma enorme oportunidade para países como o Brasil assumirem um papel de liderança ainda maior nessa ordem mundial em transformação”, disse Piccone.
“O Brasil traz para a mesa um respeito ao direito internacional e aos princípios da Carta da ONU, e isso está profundamente enraizado na política externa brasileira.”

Na avaliação do pesquisador, essa tradição diplomática diferencia o Brasil em um momento em que os Estados Unidos, a principal potência global, passaram a agir de forma mais unilateral.
“Isso está sob ataque por parte dos Estados Unidos e, por causa do enorme poder que o país tem, estamos vendo uma deterioração acelerada”, disse.
“Não começou com Trump, mas ficou muito pior sob Trump, e muito mais rápido do que a maioria das pessoas esperava.”
Margem de manobra do Brasil
Apesar dos riscos, Piccone afirmou que o Brasil tem hoje mais margem de manobra do que outros países da América Latina.
Um dos fatores centrais é a diversificação de relações econômicas e políticas, especialmente com a China e com a União Europeia.
“O Brasil tem opções, incluindo a China, e algumas das coisas que os Estados Unidos estão fazendo acabam empurrando não só o Brasil, mas outros países, para mais perto de Pequim”, disse. Segundo ele, o peso da economia brasileira reduz a capacidade de pressão de Washington.
Leia também: Em busca da Groenlândia, Trump parece optar por destruir a aliança com o Ocidente
Para Piccone, isso explica por que tentativas recentes de pressão direta sobre o Brasil não tiveram o efeito esperado.
Ele citou a reversão parcial de tarifas aplicadas sobre exportações do país, a ausência de sanções mais duras contra a maioria dos ministros do Supremo Tribunal Federal e o encontro entre Trump e o presidente Luiz Inácio Lula da Silva durante a Assembleia Geral da ONU como sinais de reconhecimento, por parte de setores da Casa Branca, de que o Brasil não é um ator facilmente isolável.
A situação contrasta com a da Argentina, em que Trump teve maior capacidade de influência política nas eleições legislativas do ano passado, favorecendo o governo de Javier Milei, segundo Piccone.
“A Argentina estava muito mais vulnerável, precisava desesperadamente de apoio financeiro e tinha uma convergência ideológica muito maior”, disse. “O Brasil tem uma dinâmica muito mais complexa.”
Leia também: Ação de Trump na Venezuela expõe impotência geopolítica do Brasil na América Latina
Ainda assim, o risco de interferência eleitoral permanece, inclusive no período pós-votação.
Piccone lembrou que Trump não reconheceu o resultado da eleição americana de 2020 e que esse padrão pode se repetir fora dos Estados Unidos.
“A política oficial é dizer que os Estados Unidos não interferem em eleições estrangeiras, mas isso é besteira”, disse.
Piccone disse enxergar na atual crise da ordem internacional uma oportunidade estratégica para o Brasil.
Com os EUA menos comprometidos com o multilateralismo tradicional e a Europa concentrada em seus próprios desafios, países de porte médio ganham espaço para exercer liderança coletiva.
Leia também: Trump impôs tarifas ao Brasil, mas quem pagou foi o consumidor americano, diz estudo
“A grande questão agora é quem vai ocupar esse espaço de liderança”, disse.
“A China está se aproveitando disso, mas também existe muita desconfiança em relação a ela.” Nesse contexto, o Brasil pode ajudar a preencher o vácuo, segundo o pesquisador.
“O Brasil tem uma oportunidade real de ajudar a preencher esse vazio, não sozinho, mas junto com outros países.”
Apesar do tom relativamente otimista, Piccone fez uma ressalva. O fator Trump, segundo ele, segue sendo imprevisível. “Trump é notoriamente errático e mercurial”, disse. “Tudo isso pode mudar amanhã.”
Leia também









