Brasil assume papel incômodo de mediar crise entre Venezuela e Guiana

Governo brasileiro reconhece a necessidade de intervir para evitar que a disputa escale, de acordo com fontes. Lula deve telefonar para presidente de ambos os países nos próximos dias

Nicolás Maduro fala com a mídia depois de votar durante referendo sobre anexar parte da Guiana
Por Simone Iglesias e Martha Beck
07 de Dezembro, 2023 | 03:19 PM

Bloomberg — O presidente Luiz Inácio Lula da Silva, que tenta se posicionar como árbitro independente em conflitos globais, agora enfrenta a incômoda possibilidade de ter de mediar a crise entre Venezuela e Guiana.

A escalada das tensões sobre Essequibo, uma região rica em petróleo pertencente à Guiana mas reivindicada pela Venezuela como parte de seu território desde o século 19, se tornou prioridade na agenda de Lula, ofuscando a cúpula de líderes do Mercosul que acontece nesta quinta-feira no Rio de Janeiro.

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Embora não seja cômodo mediar um conflito regional tão próximo, o governo brasileiro reconhece a necessidade de intervir para evitar que a disputa escale ainda mais, segundo quatro autoridades familiarizadas com o assunto.

Lula, um tradicional aliado do presidente da Venezuela, Nicolás Maduro, e de seu antecessor Hugo Chávez, passou horas em reuniões com seus principais assessores de política externa na quarta-feira para discutir o conflito, considerado altamente sensível pela diplomacia brasileira, disseram as autoridades, que pediram anonimato. Segundo essas fontes, Lula planeja telefonar para os presidentes dos dois países nos próximos dias.

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A principal preocupação de Brasília: Lula terá que andar na corda bamba para moderar uma crise diplomática entre a antiga aliada Venezuela e a Guiana, que tem o apoio de Washington – especialmente depois de a Exxon Mobil ter descoberto enormes reservas de petróleo ao largo da costa do país.

A situação pode se complicar ainda mais se Vladimir Putin – aliado do governo venezuelano – também intervir em meio a uma possível reunião com Maduro em Moscou neste mês, disseram as autoridades.

O delicado jogo geopolítico deixa Lula em uma posição desconfortável, pois representa um desafio para sua abordagem diplomática multilateral, que até agora permitiu ao Brasil manter boas relações com a maioria dos países, independentemente de sua ideologia. A reação calibrada de Lula à crise na fronteira norte do Brasil também contrasta com seu papel ativo para pôr fim a conflitos longe de casa, como na difícil resolução da guerra Rússia-Ucrânia.

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“O que a América do Sul não está precisando é de confusão. Não se pode ficar pensando em briga. Espero que o bom senso prevaleça, do lado da Venezuela e do lado Guiana”, disse Lula no fim de semana.

Sem alinhamento automático

Uma das principais preocupações de Lula é sinalizar à Guiana e ao mundo que seu governo não está automaticamente alinhado com Caracas, apesar da proximidade política. Embora o Brasil compreenda as razões da Venezuela para reivindicar Essequibo como parte do seu território, não tem uma posição oficial sobre qual país tem o direito de ocupar a região, disseram as autoridades.

Mais importante ainda, acrescentaram, o Brasil não concorda com a estratégia utilizada por Caracas – convocando referendo para perguntar à população, entre outras coisas, se Essequibo deveria fazer parte do estado venezuelano – e muito menos com o timing de Maduro. O referendo de 3 de dezembro foi visto pela maioria de analistas políticos como uma estratégia para captar eleitores com uma retórica nacionalista antes das eleições presidenciais do próximo ano.

Para transmitir essa mensagem à Guiana, o ministro de Relações Exteriores, Mauro Vieira, conversou por telefone com o presidente Irfaan Ali na terça-feira.

Lula tende a pressionar por uma solução negociada por meio dos canais diplomáticos, tentando acalmar as tensões que levaram a Guiana a intensificar medidas de segurança na fronteira e a pedir apoio militar dos EUA. Tudo o que o Brasil quer evitar é uma guerra perto de sua fronteira porque, como disse uma das autoridades, as coisas poderiam facilmente sair do controle.

Ainda assim, algumas autoridades brasileiras continuam confiantes de que a disputa não se transformará em conflito armado porque a Venezuela, segundo uma fonte, quer evitar sanções dos EUA à sua produção de petróleo, gás e ouro. As medidas punitivas foram suspensas em outubro, quando Maduro concordou em permitir que a oposição o desafiasse em eleições no próximo ano, mas poderiam facilmente ser reimpostas se suas ações na Guiana forem consideradas ilegais.

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