Bloomberg — Donald Trump reduziu drasticamente a ajuda dos EUA à América Latina, mesmo com vários países, um após o outro, elegendo governos alinhados com ele.
Apesar do renovado foco de Washington na região, a ajuda militar a oito de suas principais economias caiu para apenas US$ 56 milhões no ano passado, o valor mais baixo desde pelo menos 2001, de acordo com dados compilados pela Bloomberg Economics.
Flávio Bolsonaro, aliado de Trump, ficou em primeiro lugar no primeiro turno da eleição presidencial brasileira de domingo (4) e é o favorito para vencer o segundo turno, em 25 de outubro, contra o atual presidente, Luiz Inácio Lula da Silva. Uma vitória de Bolsonaro deixaria o México como a única grande economia regional não liderada por um governo alinhado a Trump.
No entanto, em vez de financiar governos amigos, Trump está pressionando-os a aumentar os orçamentos de defesa, comprar armas dos EUA e aderir a operações lideradas pelos EUA contra os cartéis de drogas.
⟶ Assine as newsletters da Bloomberg Línea e receba as notícias do dia em primeira mão no e-mail.
Desde 2023, aliados de Trump venceram eleições em toda a América Latina, incluindo na Argentina, no Chile, no Peru e na Colômbia. O governo socialista da Venezuela se realinhou com Washington depois que forças americanas capturaram o presidente Nicolás Maduro em janeiro.
A Colômbia, maior beneficiária da ajuda militar dos EUA na região desde o início dos anos 2000, recebeu a promessa de nova ajuda desde que o advogado de direita Abelardo de la Espriella assumiu o poder em agosto. Mas mesmo os US$ 52 milhões em financiamento militar adicional que o Departamento de Estado planeja dividir entre Colômbia, Equador, Peru e Panamá representam apenas uma fração do que a Colômbia, por si só, recebeu no auge do Plano Colômbia — o programa de combate ao narcotráfico e à insurgência da era Clinton que canalizou bilhões de dólares em assistência de segurança para Bogotá.
O contraste com as campanhas anteriores dos EUA é gritante. No auge do Plano Colômbia, Washington gastava centenas de milhões de dólares por ano somente na Colômbia em programas militares, policiais e de combate ao narcotráfico.
Leia também: Trump critica Brasil, mas abre mercado à carne do país para combater inflação nos EUA
“O financiamento militar estrangeiro está fora de questão. As vendas militares ao exterior estão em alta”, afirmou Henry Ziemer, pesquisador do Centro de Estudos Estratégicos e Internacionais, em Washington.
“As exportações militares são uma forma de revitalizarmos a base industrial dos EUA, mas não há muito interesse em concedê-las gratuitamente. Os EUA querem que as pessoas paguem por elas.”
Embora Trump tenha evitado o apoio financeiro, ele tem comprometido recursos de outra forma, enviando tropas em algumas situações.
Quatorze países latino-americanos aderiram ao “Escudo das Américas” de Trump, uma aliança contra o crime que ele lançou em março. Vários países concordaram em realizar ataques conjuntos com os EUA, afirmou o secretário de Defesa Pete Hegseth em agosto. Tropas americanas participaram recentemente de uma operação policial no Equador e treinaram no Panamá para operações na selva.
Separadamente, as forças americanas mataram mais de 220 pessoas em ataques a embarcações que, segundo os militares, transportavam drogas.
A abordagem de Trump em relação à América Latina foi apelidada de “Doutrina Donroe”, um trocadilho com a Doutrina Monroe, a política do século XIX que afirmava o domínio dos EUA no Hemisfério Ocidental.
“Os fluxos reais de assistência não têm acompanhado a retórica, pelo menos até o momento, em meio a uma redução mais ampla da assistência externa dos EUA”, afirmou Jimena Zuniga, da Bloomberg Economics.
O Pentágono e o Departamento de Estado não responderam aos pedidos de comentário.
Leia também: Do México ao Brasil, Trump enfrenta forte rejeição na América Latina, diz pesquisa
Governos anteriores também se concentraram em iniciativas econômicas na região, o que, em seu auge em 2012, elevou o apoio de todos os tipos a oito de suas principais economias — incluindo o apoio militar — para mais de US$ 2 bilhões, ajustado pela inflação. No ano passado, esse valor caiu para quase a metade: US$ 1,1 bilhão.
Considerações ideológicas não são o principal fator que determina quais países receberam apoio dos EUA, escreveu a Bloomberg Economics. O México, que tem um governo de tendência de esquerda, há muito tempo é um colaborador-chave, embora a presidente Claudia Sheinbaum tenha rejeitado repetidamente qualquer operação militar estrangeira em seu país.
Leia também: Trump volta a ajudar governo de Milei e apoia projeto de gás de US$ 24 bi da Argentina
O governo de Trump demonstrou favoritismo de outras formas, prometendo apoio financeiro a Javier Milei, da Argentina, antes de eleições decisivas, e punindo o Brasil com tarifas depois que seus tribunais se recusaram a retirar as acusações contra o ex-presidente Jair Bolsonaro por tentativa de golpe.
“Os EUA dispõem de outras ferramentas para apoiar aliados e pressionar supostos adversários, como ilustram, respectivamente, o apoio financeiro à Argentina e as altas tarifas impostas ao Brasil”, escreveram Zuniga e Courtney McBride, da Bloomberg Economics. “Ainda assim, a evolução dos fluxos de assistência até o momento pode indicar limites à estratégia dos EUA.”
Veja mais em bloomberg.com