À frente do Fed, Kevin Warsh deve ganhar alívio na inflação com revisão do PCE

Segundo economistas, mudanças planejadas para a atualização anual do índice de preços de gastos com consumo pessoal provavelmente teriam reduzido a inflação subjacente entre cerca de 0,1 e quase 0,3 ponto percentual, se já estivessem incorporadas aos dados mais recentes

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Bloomberg — Uma revisão do indicador de inflação preferido do Federal Reserve, prevista para os próximos meses, pode ser suficiente para reduzir a pressão por aumentos de juros ainda neste ano, mesmo sem alterar de forma significativa o quadro geral dos preços.

Essa é a avaliação preliminar de economistas que analisaram a atualização anual do índice de preços de gastos com consumo pessoal (PCE, na sigla em inglês), prevista para setembro pelo Bureau of Economic Analysis (BEA). Segundo vários deles, as mudanças planejadas provavelmente teriam reduzido a inflação subjacente entre cerca de 0,1 e quase 0,3 ponto percentual se já estivessem incorporadas aos dados mais recentes.

O índice de preços do PCE subiu 4,1% em maio na comparação com o mesmo mês do ano anterior, o maior avanço desde abril de 2023 e muito acima da meta de 2% do banco central dos EUA. O núcleo do PCE — indicador no qual os dirigentes da autoridade monetária se apoiam por excluir os preços mais voláteis de alimentos e energia — avançou 3,4%.

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Na última reunião de política monetária, em junho, as autoridades do Fed foram quase unânimes ao afirmar que os riscos para as perspectivas de inflação continuavam inclinados para cima.

Mas, diante da divisão equilibrada sobre a necessidade de elevar os juros em 2026, uma revisão para baixo do PCE no momento certo pode ajudar o novo presidente do Fed, Kevin Warsh, e os integrantes mais favoráveis a uma política monetária mais branda a manter os juros inalterados.

“O argumento para o Fed manter os juros estáveis ficou significativamente mais forte”, afirmou Stephanie Roth, economista-chefe da Wolfe Research. Além da atualização prevista para o PCE, ela citou a recente queda dos preços do petróleo em relação aos picos registrados durante a guerra entre Irã e Israel, em abril e maio, e o mais recente relatório de emprego, que mostrou que o dinamismo do mercado de trabalho nos últimos meses pode ter sido superestimado.

Em um artigo recente, o BEA apresentou uma prévia das mudanças, que incluem alterações na forma de medir os preços de determinadas categorias, entre elas serviços jurídicos, softwares e consultoria de investimentos. Essas categorias vêm sendo alvo de questionamentos devido ao impacto desproporcional que exercem sobre o índice. Em relatório de 30 de junho, economistas do Citi classificaram as mudanças previstas como “muito relevantes”.

Para Warsh, os ajustes metodológicos podem aliviar parte da pressão justamente quando o comitê responsável por definir os juros, agora sob sua liderança, e os investidores passam a se convencer cada vez mais de que será necessário elevar as taxas em breve para conter a aceleração da inflação.

Muitos analistas que acompanham o Fed se perguntam como Warsh lidará com essa situação, já que o presidente dos EUA, Donald Trump, que o nomeou para o cargo, tem defendido repetidamente juros mais baixos.

O novo presidente evitou apresentar sua própria avaliação sobre as perspectivas econômicas na primeira entrevista coletiva, em 17 de junho, embora tenha afirmado, durante um evento do Banco Central Europeu em 1º de julho, que “os riscos para a inflação diminuíram”.

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Essa declaração foi feita antes de uma nova escalada das hostilidades entre os EUA e o Irã nesta semana, que voltou a impulsionar os preços do petróleo. Embora eles permaneçam bem abaixo dos níveis anteriores, a ausência de uma solução duradoura para o conflito, somada a outros fatores de cautela, deve manter vivo o debate dentro do Fed.

O Bloomberg Price Project — que reúne milhões de preços para construir um indicador alternativo ao índice de preços ao consumidor (CPI) — aponta que a inflação elevada em produtos ligados à computação, impulsionada pela corrida para construir centros de dados, deve persistir até 2027. Um exemplo é a Apple Inc., que, em uma medida incomum, elevou no mês passado os preços de diversos dispositivos, entre eles Macs e iPads.

“A situação do mercado de trabalho parece mais forte do que no outono passado. Há o boom da inteligência artificial. Portanto, vários outros fatores parecem sustentar um cenário razoável de inflação um pouco mais alta do que o comitê esperava”, afirmou James Bullard, que presidiu o Fed de St. Louis entre 2008 e 2023.

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Novos grupos de trabalho

Na entrevista coletiva de 17 de junho, Warsh anunciou a criação de novos grupos de trabalho para reavaliar diferentes aspectos do funcionamento do Fed. Um deles será dedicado à inflação, incluindo a forma como ela é medida. No passado, ele também demonstrou preferência por uma medida de inflação baseada na chamada “média aparada”, que exclui, em cada período, os componentes com maiores oscilações.

Embora Warsh tenha prometido trazer a inflação de volta à meta de 2% do Fed, as mudanças planejadas pelo BEA — definidas antes de sua chegada ao comando da instituição — estão em sintonia com seus apelos por uma nova abordagem. Anos em que formuladores de política monetária foram surpreendidos por choques de preços decorrentes da pandemia, de guerras e de tarifas abriram espaço para novas formas de pensar no banco central, segundo Ellen Zentner, estrategista-chefe de economia da Morgan Stanley Wealth Management.

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“Espero que um Fed liderado por Warsh sinalize que sua avaliação da estabilidade de preços será baseada em um amplo conjunto de indicadores de inflação”, afirmou Zentner. “Isso está diretamente ligado a um dos grupos de trabalho que ele mencionou.”

O desafio de Warsh será defender mudanças sem ser acusado de minimizar a realidade dos preços elevados. Ele reconheceu que controlar a inflação é condição indispensável antes mesmo de considerar qualquer alteração na meta. Mas o banco central não alcança esse objetivo há mais de cinco anos e não dá sinais de que conseguirá fazê-lo tão cedo.

Apoiar-se excessivamente em medidas de inflação subjacente que excluem as categorias mais voláteis, como alimentos e energia, nem sempre encontra receptividade entre o público, afirmou Jeffrey Lacker, que presidiu o Fed de Richmond entre 2004 e 2017. E preservar a credibilidade ao cumprir a meta de 2% continuará sendo essencial.

“Mudar a regra do jogo não passa uma boa imagem”, afirmou.

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