Da geopolítica à eleição no Brasil: 10 temas que investidores devem acompanhar em 2026

Ano será marcado por decisões importantes que podem alterar os mercados globais, como reformas estruturais na China e tensões entre o Federal Reserve e a Casa Branca, até eleições decisivas na América Latina e nos Estados Unidos

US Stocks Rise As Venezuela ‘Spillover’ Seen Muted
12 de Janeiro, 2026 | 12:26 PM

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Bloomberg Línea — A transição econômica global para um novo regime de investimento exige uma análise dos fatores estruturais, políticos e monetários que marcarão o rumo dos mercados durante 2026. Os investidores, em meio a um ambiente incerto e um ciclo econômico ainda em andamento, enfrentarão um ano de decisões com implicações de longo prazo.

A equipe da Amundi descreve esse cenário como uma fase de mudança. “Enfrentamos uma era de desordem controlada: um mundo multipolar redefinido por uma revolução tecnológica e uma divergência fiscal”, afirmaram os analistas da gestora de investimentos.

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Essa visão se conecta diretamente com o tipo de estratégias que os investidores deverão seguir: diversificar geograficamente, buscar proteção contra a inflação e se adaptar às novas dinâmicas setoriais.

Os bancos de investimento concordam que o ciclo econômico global ainda não terminou, mas já não depende dos mesmos motores.

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O investimento em inteligência artificial, a transição energética, as reformas industriais e os ajustes na política monetária assumiram o papel de impulsionadores do crescimento, embora seus efeitos sejam díspares entre regiões e setores.

Visão estrutural

Para a Amundi, 2026 será “um ano de transição, enquanto a economia global se ajusta a um regime de desordem controlada”. Este novo ambiente é caracterizado por uma combinação de choques estruturais: inflação persistente, tensões geopolíticas crônicas, fragmentação comercial e reordenação das cadeias de valor.

A divergência monetária marcará um ponto de inflexão. Enquanto se espera que a Europa e a Ásia iniciem ciclos de relaxamento monetário, nos Estados Unidos a inflação continuará acima dos 3%. Isso representa um desafio particular para as carteiras concentradas em ativos norte-americanos ou com alta sensibilidade à política monetária do Federal Reserve.

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Jim Allworth, analista da RBC Dominion Securities, apresenta um cenário de continuidade para os mercados bolsistas, embora com menos impulso do que nos anos anteriores.

“Podemos ver um caminho plausível para mais um ano de ganhos positivos para a maioria dos principais mercados bolsistas, mas provavelmente a um ritmo mais moderado”, afirmou Allworth.

Na sua opinião, isso dependerá de não haver recessões, de os lucros das empresas continuarem a crescer e do boom da inteligência artificial manter a sua força.

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Veja abaixo uma lista com os 10 fatos que os investidores devem acompanhar em 2026

1. Decisão sobre Lisa Cook e a independência do Federal Reserve

A Suprema Corte dos EUA decidirá em 2026 se o presidente Donald Trump pode destituir uma governadora do Federal Reserve.

Enquanto isso, Lisa Cook permanece no cargo, o que lhe permitirá votar no Comitê Federal de Mercado Aberto. A disputa reflete as tensões sem precedentes entre a Casa Branca e o Fed.

A controvérsia tem implicações para a percepção de independência institucional do banco central. Qualquer sinal de politização do Fed poderia gerar instabilidade nos mercados de taxas e títulos.

2. Negociações orçamentárias nos EUA.

A partir de fevereiro, o Congresso dos Estados Unidos deverá negociar um novo pacote fiscal para evitar uma paralisação parcial do governo. Em um ambiente de alta polarização política, analistas antecipam que as negociações serão complexas e com possíveis impactos na classificação da dívida soberana.

A discussão sobre o orçamento surge num momento em que a dívida pública atingiu níveis sem precedentes.

“Os investidores terão de ponderar a concentração de capital e os riscos de avaliação, o aumento da dívida pública, as fricções geopolíticas estruturais e a inflação persistente resultante da relocalização e da transição energética”, afirmaram na Amundi.

3. Eleições presidenciais na América Latina

Brasil, Colômbia e Peru realizarão eleições importantes em 2026. O resultado terá consequências fiscais e de governabilidade.

No Brasil, a disputa entre Luiz Inácio Lula da Silva e os candidatos da oposição é vista como decisiva para a política econômica futura.

“O resultado da eleição presidencial é visto como altamente binário para os mercados e a direção da política”, afirmaram os analistas da Goldman Sachs. As decisões sobre gastos, consolidação fiscal e reformas estruturais dependerão diretamente do novo mapa político.

A Colômbia realizará eleições legislativas em março e presidenciais em maio, com um provável segundo turno em junho. O Congresso permanecerá dividido, e ainda não há um favorito claro entre os candidatos. “Na corrida presidencial, ainda não surgiu um favorito claro entre um amplo conjunto de candidatos potenciais”, observa a Goldman Sachs.

No Peru, após a destituição de Dina Boluarte em outubro de 2025, o novo presidente interino, José Jerí, prometeu um governo de transição até julho de 2026. As eleições gerais de abril serão marcadas por um panorama fragmentado, com alto descontentamento cidadão e uma oferta política dispersa.

“A corrida presidencial continua muito disputada, em parte porque as regras eleitorais permitem que os candidatos presidenciais obtenham uma cadeira no Congresso se atingirem um determinado limite de votos, o que reduz o incentivo para que os candidatos desistam”, alerta a Goldman Sachs.

4. Eleições nos Estados Unidos

As eleições legislativas de novembro podem redefinir a composição do Congresso e, com isso, alterar a margem de manobra do presidente em matéria fiscal, comercial e regulatória. A reação dos mercados dependerá da magnitude da mudança.

A combinação dessas eleições com as tensões entre o Executivo e o Fed mantém os investidores institucionais em suspense.

“A independência da política monetária não pode mais ser dada como certa em um mundo em que os políticos, mesmo em grandes países desenvolvidos como os Estados Unidos, se sentem mais livres para defender políticas pouco ortodoxas”, segundo os analistas da Amundi.

Os Estados Unidos renovarão toda a Câmara dos Representantes e um terço do Senado. Além disso, serão definidos governos estaduais importantes, assembleias estaduais e uma ampla gama de cargos locais.

5. Revisão do T-MEC

Em julho, começa a revisão formal do T-MEC entre o México, os Estados Unidos e o Canadá.

O tratado, assinado em 2020, prevê uma avaliação a cada seis anos. O ambiente político nos três países pode levar a uma reformulação de algumas cláusulas de acesso ao mercado, regras de origem e mecanismos de resolução de controvérsias.

O resultado final terá efeitos diretos sobre as estratégias de relocalização e os fluxos de investimento na indústria regional.

6. Conclusão do mandato de Jerome Powell

O mandato de Jerome Powell como presidente da Reserva Federal termina em 2026. Seu sucessor deverá ser confirmado pelo Senado em meio a um cenário de alta sensibilidade política. A decisão será fundamental para a continuidade da abordagem da política monetária.

Trump já está avaliando uma lista de candidatos que poderiam liderar a política monetária em um momento de alta sensibilidade financeira e política. O candidato mais forte parece ser Kevin Hassett, diretor do Conselho Econômico Nacional da Casa Branca. “Continuamos esperando uma maior desvalorização do dólar em 2026 devido aos novos cortes do Fed e à especulação sobre uma postura mais moderada do Fed se Kevin Hassett for nomeado o próximo presidente”, afirmaram os analistas do ING.

7. Tensões geopolíticas: Venezuela, Ucrânia e Oriente Médio

A evolução dos conflitos na Ucrânia, Venezuela e Oriente Médio continua sendo uma variável crítica para os mercados energéticos e financeiros em 2026. Após a captura do presidente venezuelano Nicolás Maduro e as ações dos Estados Unidos para controlar partes do setor petrolífero do país, os preços do petróleo bruto têm apresentado volatilidade e os analistas apontam que a incerteza política e de abastecimento impacta diretamente as expectativas dos mercados energéticos.

Além disso, o preço do petróleo Brent apresentou aumentos consecutivos impulsionados por preocupações como protestos e apagões no Irã, que aumentam a percepção de risco global.

A prolongação do conflito na Ucrânia mantém uma pressão constante sobre a percepção de risco nos mercados internacionais.

No Oriente Médio, embora não se observe um conflito generalizado, as relações diplomáticas e as estratégias de produção dos membros da OPEP+ continuam sendo um fator importante para os mercados petrolíferos.

8. Fim da trégua tarifária entre a China e os Estados Unidos

O término do acordo de não escalada tarifária entre a China e os Estados Unidos, previsto para novembro de 2026, representa um ponto de inflexão fundamental para o comércio internacional. A possibilidade de não renovar esse entendimento poderia abrir as portas para um novo ciclo de medidas unilaterais, afetando negativamente os fluxos de bens estratégicos entre as duas maiores economias do mundo.

“Medidas setoriais adicionais podem continuar a interromper as cadeias de abastecimento”, consideraram os analistas da Allianz, alertando que uma ruptura na trégua elevaria os custos operacionais, desaceleraria o comércio de insumos críticos e afetaria as margens das empresas multinacionais.

9. O futuro tarifário

Um elemento crítico que os investidores devem monitorar em 2026 é a decisão iminente da Suprema Corte dos Estados Unidos sobre a legalidade das tarifas impostas pelo governo Trump sob a Lei de Poderes Econômicos de Emergência Internacional (IEEPA).

Em 2025, tribunais inferiores determinaram que essa lei de 1977 não autoriza o presidente a impor tarifas amplas sem a aprovação do Congresso, e essas decisões estão agora perante o tribunal superior. A Suprema Corte deve emitir seu veredicto sobre o caso em janeiro de 2026, após audiências orais realizadas em novembro de 2025.

10. Entrada em vigor do Regulamento europeu contra o desmatamento

A regulamentação EUDR da União Europeia, que proíbe a importação de produtos associados ao desmatamento, entrará em vigor em dezembro de 2026, após duas prorrogações. A América Latina será uma das regiões mais afetadas.

Os setores mais expostos serão café, cacau, soja, carne bovina e madeira.