Bloomberg Línea — Tonino Lamborghini, herdeiro de Ferruccio Lamborghini (1916-1993), levou o sobrenome da lenda da indústria automobilística italiana para outro território. O filho que trabalhou nos negócios do pai fundou em 1981 a própria marca de estilo de vida, com relógios, óculos, móveis, hotéis, espresso, blends e destilados e, agora, edifícios em mais de 40 países, hoje com 45 anos de história independente.
Aos 78 anos, o fundador e presidente do grupo que leva seu nome esteve no Brasil para a inauguração do primeiro edifício residencial completo assinado por ele. A torre de 53 andares em Balneário Camboriú (SC) foi erguida pela Embraed, incorporadora local desde 1984, foi entregue no último sábado (30).
De terno azul de risca de giz, Tonino percorreu o edifício com a Bloomberg Línea na véspera da entrega. Parou diante da decoração, fez perguntas a representantes da construtora sobre os materiais, e passou um tempo observando as próprias fotos antigas, emolduradas nas paredes.
Diante de uma fotografia de 1970, em que aparece jovem sobre uma moto, ele riu. Há anos ele vendeu aquela Norton, campeã e presente do pai. “Quando você cresce, se pergunta: por que a vendi? O que mudou na minha vida por causa dessa venda?”, disse.
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O episódio com a moto resume seu modo de fazer negócios atualmente. Para Tonino, o cliente se divide em dois: o que busca quatro paredes e um banheiro, e o que busca pertencimento. “Quem compra um imóvel aqui entra no meu mundo. E, se não aprecia, não me interessa vender”, afirmou ele durante o tour pela torre.
Não é uma fala de ocasião: desde 2018 ele repete, sobre os hotéis da marca, que quem entra nos empreendimentos entra no seu mundo.
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O prédio em Balneário Camboriú repete as características da marca: lobby de teto esculpido em ondas e escada curva de vidro, salão de jogos com mesa de sinuca de tampo de vidro assinada pela Tonino Lamborghini sob o brasão do touro, símbolo que Ferruccio, nascido sob o signo de Touro (28 de abril de 1916), adotou como expressão de força, não por afinidade com as touradas.
No elevador, a caminho de outro andar, perguntado qual o melhor mármore italiano, não hesitou: “O branco de Carrara é o mais italiano de todos”.
Para escolher um sócio, ele usa o mesmo critério. Começa pela empatia e termina na ambição. “Se a ambição é apenas vender e obter lucro, é melhor não fazer uma parceria comigo”, afirma. “É preciso ter lucro, obviamente, mas o lucro não pode estar em primeiro lugar.” Antes do lucro, diz, o grande objetivo é deixar uma memória no tempo.
Essas são regras que ele diz que valiam em sua própria casa, quando era jovem. Tonino diz ter aprendido duas coisas com seu pai Ferruccio: trabalhar muito e fazer só o que dá emoção.
A família Lamborghini vendeu a montadora nos anos 1970 e não tem mais participação na fabricante italiana de supercarros de alto desempenho. Hoje ela é controlada pela Audi, que faz parte do Grupo Volkswagen, da Alemanha.
Avanço de ‘branded residences’
O modelo que o edifício de Tonino Lamborghini em Balneário Camburiú representa tem avançado rapidamente no Brasil, com o crescimento do mercado imobiliário de luxo.
O país está na sexta posição de um ranking de países com maior número de projetos de branded residences no mundo, segundo um relatório da consultoria internacional Savills.
De acordo com o estudo, o mercado global de prédios residenciais assinados por grifes deve superar a marca de 1.000 projetos em 2026 e alcançar 1.747 empreendimentos até 2032, com um crescimento médio anual de 10,9%.
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Balneário Camboriú, famosa por ter alguns dos arranha-céus mais altos do país, e as vizinhas Itapema e Praia Brava (em Itajaí) concentram parte dos projetos de grife no país, ao lado de Armani e Versace, e disputam com São Paulo o mapa do luxo residencial.
Balneário Camboriú tem o metro quadrado mais caro do Brasil há quatro anos, cerca de R$ 15 mil de média, à frente de São Paulo e do Rio, segundo o índice FipeZAP. Nas torres de grife como esta, o valor passa de R$ 20 mil e vai bem além.
Uma obra do município que alargou a faixa de areia de 25 para 75 metros atraiu estrangeiros para a cidade e empurrou os preços.
Lembrado de que muitos chamam Balneário Camboriú de “Dubai brasileira” por causa dos arranha-céus, Tonino Lamborghini discordou da comparação.
“Prefiro dizer que é a Monte Carlo brasileira”, afirma, porque Dubai está arquitetonicamente mais avançada, enquanto Monte Carlo guarda a escassez que sustenta o valor.
Para ele, a escassez de Monte Carlo não é só geográfica, é também fiscal e cultural: o mar, a colina, os benefícios tributários, a proximidade com a França e com a Itália. Balneário, diz, tem o mesmo potencial.
Escassez de terrenos
Tatiana Cequinel, presidente do conselho de administração da construtora, também presente no tour pelo edifício, explica que a área territorial oficial da cidade soma 46 quilômetros quadrados. É o segundo menor município em extensão territorial do estado de Santa Catarina, ficando atrás apenas de Bombinhas, também no litoral.
A escassez se traduz em uma extensão de apenas cerca de seis quilômetros de orla, e um projeto público de revitalização da Praia Central, com infraestrutura de lazer e paisagismo, valoriza cada metro desse trecho, tornando os endereços dessa área nobre ainda mais cobiçados.
Na torre de Tonino Lamborghini, as unidades foram vendidas antes da chave. “Vendemos em torno de 30% no primeiro mês, e há um ano e meio não temos mais unidades à venda”, diz Cequinel.
O edifício tem cerca de 170 metros e fica a 50 metros do mar, com 67 residências de 194 a 430 metros quadrados (dois apartamentos por andar nos andares 8 ao 31) e cerca de 2.500 metros quadrados de lazer, segundo a Embraed, que opera verticalizada e corta o próprio mármore.
A Embraed também aposta em Itapema, onde entrega o edifício Latelier, de 61 andares, uma resposta à expansão do luxo para além dos limites de Balneário.
Marca nacional também é aposta
Com o avanço do mercado de branded residences, marcas nacionais também buscam ocupar esse lugar. Na Praia Brava, a Construtora CK aposta na assinatura do mobiliário de alto padrão da Artefacto para empreendimentos residenciais, como o Artefacto Towers, lançado em 2021 com previsão de entrega em dezembro com duas torres de quase 110 metros de altura, 195 apartamentos e quatro salas comerciais.
O empreendimento, que está 95% comercializado, tem ticket médio de R$ 3,2 milhões e VGV estimado em R$ 300 milhões, acumulando uma valorização de 105,86% desde o seu lançamento, com crescimento médio anual de cerca de 20%, segundo informou a construtora em nota.
Esse cenário reflete a tendência de parcerias imobiliárias com grandes marcas. O potencial bilionário desse modelo ficou claro quando a grife nacional Daslu foi arrematada por R$ 10 milhões para uso exclusivo em incorporações.
Cifras dessa magnitude ilustram o forte retorno financeiro gerado por assinaturas globais em contratos de licenciamento que costumam guardar sigilo sobre os royalties, conforme apontaram analistas do Bradesco BBI.
O edifício com a assinatura da grife italiana em Balneário é o primeiro entregue, não o único em carteira. Tonino cita projetos em São Paulo, Goiânia, Chapecó, nos Emirados Árabes, no Egito, na Geórgia e quatro na Índia.
Em todo o tour, nos espaços coletivos, o que se vê é o sobrenome Lamborghini e seu brasão de touro no chão, nos móveis e nas paredes, que ele explica como uma expressão da experiência de estilo de vida da marca.
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