Bloomberg Línea — Salas cheias, degustações concorridas e conversas animadas dominadas por sommeliers, enólogos e profissionais de bebidas e comidas do país ao longo de uma semana, normalmente no mês de novembro, têm ajudado a expor um dilema recorrente no mercado brasileiro.
A Sherry Week, semana internacional dedicada ao jerez realizada há mais de uma década, mobiliza especialistas do ramo, mas tem gerado até o momento impacto limitado no mercado nacional.
Enquanto eventos dedicados ao vinho fortificado espanhol costumam empolgar o setor e quem já tem repertório para entender a bebida, o entusiasmo não se reflete nas vendas. E o jerez segue restrito a um nicho no Brasil, apesar de ocupar posição central no imaginário de quem entende do assunto.
A contradição aparece com clareza nos números da González Byass, uma das maiores produtoras do mundo, responsável por marcas conhecidas, como a Tio Pepe.
Segundo o diretor regional de vendas da companhia, Antônio Palacios, o jerez responde apenas por cerca de 1% de tudo o que o grupo vende no Brasil. No mercado global, a realidade é bem diferente. “Nas vendas totais da companhia, o jerez responde por cerca de 30% do nosso faturamento”, disse Palacios em entrevista à Bloomberg Línea.
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O contraste entre prestígio e consumo é um dos principais desafios da categoria no país. “Existe uma disparidade entre o envolvimento gerado por eventos como a Sherry Week, sem que haja um acompanhamento real desse nível de expectativa com a venda”, disse o executivo.
Para ele, o entusiasmo costuma vir de um público que já está familiarizado com a cultura do vinho, mas dificilmente chega ao consumidor médio.

Entre sommeliers, o jerez ocupa um lugar quase simbólico. A bebida é tratada como um rito de passagem profissional, um território de complexidade que separa iniciados de curiosos.
Para Gabriela Frizon, sommelière profissional, COO da importadora Belle Cave e educadora ligada à bebida espanhola, o fascínio está justamente no que afasta o grande público.
“Um dos motivos de ele ser o vinho favorito dos sommeliers é porque a nossa profissão tem um perfil de sempre querer procurar coisas diferentes e novas, e o jerez oferece algo muito diferente do vinho que se conhece tradicionalmente”, disse Frizon, que se apresenta nas redes sociais como a “louca do jerez”.
Essa bebida diferente, no entanto, costuma causar estranhamento fora do círculo especializado, o que dificulta as vendas.
“É uma bebida que causa estranhamento para quem está começando no mundo do vinho, mas que dá muito prazer para quem já é iniciado e quer conhecer coisas novas”, disse.
Segundo ela, sommeliers acabam se interessando justamente pelo que é mais difícil de entender. “O sommelier gosta da dificuldade, do desafio, que o jerez representa”, disse.
A complexidade também aparece na multiplicidade de estilos, do fino ao oloroso, passando por amontillado e palo cortado. São variedades muito diferentes, de um com sabor quase salino a outros que parecem mel de tão doce, o que pode confundir os consumidores não iniciados.

Barreiras
Além da barreira cultural, há entraves econômicos que dificultam a adoção do jerez no cotidiano brasileiro.
Palacios aponta a tributação como um dos principais freios ao crescimento da categoria no Brasil. “O vinho de jerez é mais prejudicado do que outras categorias”, disse, ao citar impostos mais elevados por se tratar de um vinho fortificado.
A logística também pesa, assim como o tempo de produção. “O vinho mais jovem que a gente produz tem quatro anos de envelhecimento”, disse. “É um vinho muito trabalhado à mão pelo enólogo”, explicou.
Este trabalho se traduz em preços mais elevados do que o consumidor médio brasileiro está disposto a pagar. Enquanto os vinhos mais vendidos no país não costumam passar de R$ 50, é difícil encontrar uma garrafa de jerez à venda no país por menos de R$ 120.
Outro fator é a concorrência indireta com o vinho do Porto, outro fortificado que encontrou no Brasil um terreno culturalmente mais fértil.
“Brasil tem muito apego com vinho do Porto”, disse Palacios. “A herança portuguesa ajudou a consolidar um fortificado no hábito do consumidor, enquanto o jerez permaneceu associado a ocasiões específicas ou ao consumo por taça”.
Esse ponto afeta diretamente o volume. “Raramente as pessoas pedem num restaurante uma garrafa de vinho de Jerez”, disse Palacios. Na maior parte das vezes, o consumo ocorre como aperitivo, em uma única taça, ou como ingrediente de coquetéis, o que limita a recorrência e o ticket médio.
Sem entraves
Para destravar o mercado, produtores e importadores apostam em frentes que vão além da prateleira.
A gastronomia aparece como aliada central. “A gastronomia é um dos grandes aliados da categoria de jerez”, disse Palacios, ao citar chefs estrelados que passaram a incorporar a bebida em menus degustação.
A mixologia também ganhou espaço, especialmente em um contexto de busca por bebidas com menor teor alcoólico. “O futuro de jerez tem muito a ver com gastronomia e com o mundo da mixologia”, disse.
Para Frizon, a mesma diversidade de estilo que pode ser vista como barreira amplia o potencial gastronômico da bebida. “Essa variedade de estilos permite que haja sempre um que combine bem na hora da refeição, de uma forma que os vinhos ditos tradicionais não conseguem”, disse.
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Ainda assim, o consumo segue limitado por uma percepção de que o jerez ocupa um espaço à parte no ritual do vinho. “As pessoas acham que ele entra em um espaço diferente do vinho dito tradicional”, disse. “Qualquer momento, qualquer dia, é apropriado para um jerez.”
Outra aposta é a educação associada à experiência. A González Byass transformou o enoturismo em uma unidade de negócio própria, com visitas à vinícola, hospedagem e eventos culturais.
“O enoturismo para nós já é uma unidade de negócio própria”, disse Palacios. A estratégia é formar consumidores pelo contato direto com a origem e com o método de produção, algo que ainda é restrito a poucos brasileiros.
Apesar das dificuldades, há sinais de demanda real, ainda que concentrada. Na Belle Cave, Frizon afirma que o jerez já ocupa espaço relevante no portfólio. “Pelo menos um Jerez está entre os 5 skus mais vendidos da importadora”, disse, se referindo à sigla usada para se referir a um tipo de item do estoque.
Para ela, o problema não está no produto, mas na distância entre conhecimento técnico e hábito de consumo. “Apesar da complexidade do jerez de forma geral, acredito que a população tem o potencial de conhecer e se apaixonar por ele”, disse.









