Bloomberg Línea — A redução do consumo de bebidas alcoólicas em todo o mundo tem desafiado a indústria do setor em todo o mundo, e as ações das principais fabricantes de cerveja, vinho e destilados caíram mais de US$ 800 bilhões em quatro anos.
A reação do mercado muitas vezes tem oscilado entre o desespero e a aposta em abstinência, com um crescimento da produção de bebidas sem álcool para tentar atrair e manter consumidores.
Mas há ainda um caminho alternativo, da moderação sem radicalismo. Foi assim que a vinícola gaúcha Amitié entrou no segmento de vinhos com menor teor alcoólico com o BeLow, rótulo de 8% de álcool lançado no meio de 2025 e desenhado para um consumo mais casual - uma redução de cerca de 50% em relação ao teor alcoólico de vinhos tradicionais.
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A estratégia busca capturar uma mudança no mercado de bebidas, em que parte dos consumidores tem procurado opções mais leves, sem migrar necessariamente para produtos sem álcool.
“Sabemos que o consumidor mais jovem busca bebida com zero ou baixo álcool”, disse a sommelière Andreia Gentilini, sócia da Amitié ao lado da enóloga Juciane Casagrande, à Bloomberg Línea.
Para ela, o desafio está em fazer um produto de menor teor alcoólico, mas sem perder a qualidade do vinho tradicional. “Ainda não temos vinho sem álcool no nosso plano porque ainda não conseguimos fazer a sem álcool com a qualidade que a gente gostaria”, disse.
O BeLow foi a alternativa encontrada pela empresa para ocupar um espaço entre o vinho tradicional e o zero álcool. O rótulo é feito com intervenção mínima e com interrupção da fermentação. “Deixamos um residual de açúcar na fermentação, que tem influência sobre o sabor e a qualidade da bebida sem precisar adicionar nada”, diz.
A Amitié produziu 12.000 garrafas no primeiro lote do BeLow, numa escala que a empresa considera um teste de mercado. A executiva afirmou as vendas superaram as expectativas. “Nos surpreendeu o ritmo, porque agora é verão, é um produto que tem tudo a ver com o verão”, disse.
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A tração, por enquanto, ocorre em um estágio inicial de distribuição e cadastro em redes. Gentilini citou o potencial de escala, se o vinho entrar em mais supermercados e lojas de rede, dada a velocidade de giro do canal.
A próxima etapa é medir o desempenho para definir a produção da safra seguinte, prevista para chegar ao mercado entre maio e junho de 2026.
Na Amitié, o BeLow é uma aposta dentro de um negócio maior que cresceu com uma estratégia de portfólio premium, foco em espumantes e um modelo de produção com parceiros. O rótulo foi posicionado entre R$ 69 e R$ 79.
Para Gentilini, o BeLow sintetiza a lógica de acompanhar tendências sem abandonar o posicionamento premium. “Sim, eu vou fazer vinho, mas vinho que as pessoas queiram tomar”, disse. A executiva afirmou que a demanda por menor teor alcoólico não se restringiu ao público mais jovem.
Com o desempenho inicial do BeLow, a vinícola avalia, com cautela, se amplia a linha no futuro. “Estamos prevendo ter outros rótulos na linha, mas queremos entender como vai ser o desempenho”, disse Gentilini.
Desde a fundação, em 2018, a Amitié adotou um modelo de produção baseado em parcerias, sem vinhedos próprios. Em vez de investir na compra de terras e na estrutura completa de vinificação, a empresa buscou produtores com “estruturas ociosas” e tecnologia disponível. “É um modelo muito usual na Europa”, disse Gentilini.
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A estratégia permitiu iniciar a operação com investimento reduzido e foco em marca e mercado, evitando o ciclo longo de plantio e maturação de vinhedos. “Foi uma forma que encontramos de iniciar já com esse modelo de parceria”, afirmou.
A empresa começou com uma produção de 10.000 garrafas e hoje produz cerca de 500 mil por ano, com 34 rótulos no portfólio e presença nacional.
Segundo Gentilini, o crescimento foi sustentado por reinvestimento contínuo. O motor do faturamento da marca são os espumantes, que representam metade do faturamento. “O carro chefe, o produto mais vendido, é o espumante Amitié Brut”, afirmou. A produção anual desse espumante chega a cerca de 100.000 garrafas por ano.
A companhia também decidiu acelerar a construção de marca com investimento em enoturismo no Vale dos Vinhedos e uma operação em shopping em Porto Alegre. No Vale, o projeto envolveu cava de maturação, loja, bistrô e espaço para eventos.
“Já investimos cerca de R$ 10 milhões investidos nessa estrutura”, disse. A expectativa é que o enoturismo chegue a representar 10% da receita da vinícola.









