De millennials a Geração Z: por que os mais jovens se renderam aos cruzeiros

Além da promessa de viagens a preços acessíveis, os navios deixaram de ser resorts simples com tudo incluído e hoje abrigam verdadeiros parques de diversões

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Bloomberg — Dois dias depois de se casarem, em abril de 2025, Hannah Hanks e o marido fizeram as malas para a lua de mel. O destino contrariava as recomendações de uma consultora de viagens e de várias pessoas próximas de Hanks.

O casal, de Jacksonville, na Flórida, viajou cerca de duas horas para o sul até Port Canaveral, onde embarcou no Adventure of the Seas, da Royal Caribbean, para um cruzeiro com paradas em Porto Rico, St. Thomas e St. Croix. A lua de mel custou US$ 1.763. A família do marido pagou parte da viagem.

“As pessoas me diziam para não fazer isso, mas nós gostamos muito”, conta Hanks, maquiadora de noivas e criadora de conteúdo de 22 anos. Sete meses depois, o casal fez seu segundo cruzeiro. “Se você quer conhecer lugares diferentes, está com o orçamento apertado, quer ter tudo incluído e procura coisas divertidas para fazer, então faça um cruzeiro.”

Cada vez mais jovens estão se abrindo às férias em cruzeiros, depois de anos em que muitos consideravam esse tipo de viagem ultrapassado e voltado a passageiros mais velhos.

Nos últimos tempos, a promessa de conforto a preços acessíveis feita pelo setor tornou-se um argumento fácil para conquistar jovens americanos como Hanks. Muitos enfrentam o peso da crise de endividamento em curso e de moradias cada vez menos acessíveis, mas cedem à pressão das redes sociais para viajar, mesmo que isso signifique contrair dívidas.

A mudança também chegou à Virgin Voyages, companhia exclusiva para adultos: em seu primeiro ano completo de operação, de 2021 a 2022, 32% dos passageiros tinham menos de 45 anos. Agora, eles representam cerca de 45%, segundo a empresa.

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A Royal Caribbean, que opera os maiores navios de cruzeiro do mundo sob sua marca homônima, também atraiu uma nova geração. No início de 2025, o diretor financeiro Naftali Holtz disse a investidores que o número total de passageiros havia crescido 45% desde 2019 e que quase dobrou a quantidade de millennials e pessoas mais jovens.

No segundo trimestre de 2026, millennials e integrantes da Geração Z representavam cerca de metade dos passageiros. A Royal Caribbean não quis comentar os dados demográficos exatos dos passageiros de anos anteriores.

Para quem faz cruzeiros com frequência, como Jill Mone-Corallo, de 33 anos, uma viagem de navio oferece uma pausa acessível da vida em terra. Ela e o marido moram a 15 minutos de carro do Porto de Miami, uma facilidade que lhe permitiu fazer cerca de 25 viagens pela Norwegian, MSC e outras companhias.

Durante o tempo que passa nesses resorts flutuantes, ela acumulou status no programa de recompensas do cassino da Royal Caribbean. Nele, quem aposta com frequência nos cruzeiros pode conseguir tarifas muito baixas, entre outras vantagens.

“Às vezes, conseguimos esses cruzeiros por quase nada: US$ 200 de taxas portuárias”, diz ela. Para Mone-Corallo, é um ótimo negócio, já que pode conhecer destinos como seu favorito, St. Maarten. A esse preço, fazer um cruzeiro pode sair mais barato do que sair para comer em Miami, onde, segundo ela, um jantar para duas pessoas pode facilmente custar mais de US$ 100.

Além da economia, Mone-Corallo gosta da liberdade que a vida em alto-mar oferece. O marido fica ativo o dia todo, enquanto ela relaxa e lê. Na opinião dela, o formato funciona bem para despedidas de solteiros que vê nos cruzeiros: a variedade de atividades e comodidades permite que os grupos se divirtam sem precisar ficar juntos o tempo todo.

Segundo dados da organização AAA, as tarifas de companhias de cruzeiro voltadas ao grande público, como Royal Caribbean e Carnival, chegam a uma média de apenas US$ 75 por pessoa, por noite. O valor inclui comida, comodidades a bordo, hospedagem e a oportunidade de conhecer vários destinos.

Alguns cruzeiros de 2026 custam menos que um jantar com carne. Uma viagem de uma semana no Norwegian Epic, de Port Canaveral até a Jamaica, o México, uma ilha particular nas Bahamas e de volta, ou uma viagem de 13 noites no Norwegian Pearl, da Itália à Filadélfia, com paradas em Malta e na Espanha, estava disponível em novembro por apenas US$ 31 por dia, segundo o Cruise Sheet, agregador de cruzeiros econômicos.

Para comparar, os preços dos hotéis nos Estados Unidos tiveram média de cerca de US$ 174 por noite em 2025, de acordo com a plataforma de reservas Hotels.com. Já o ingresso de um dia para o Walt Disney World, na Flórida, começa em US$ 119 por pessoa.

Para muitos viajantes, o navio oferece muito mais do que uma cama. “Não são 12 horas de voo, com jet lag, seguidas da necessidade de um dia para se recuperar antes de as férias começarem”, diz Hanks. “Assim que você entra no navio, antes mesmo de chegar ao destino, as férias já começaram.”

Para viajantes como Lexi Bell, designer de interiores e professora de dança de 22 anos de Maryland, os cruzeiros são uma forma acessível e econômica de conhecer um destino desconhecido antes de decidir se querem voltar. Ela estima que a tarifa inicial de um cruzeiro costuma custar cerca de US$ 125 por dia, sem incluir extras como bebidas e excursões.

Ela conta que fez 16 cruzeiros com familiares, amigos e também sozinha desde sua primeira viagem, em 2014. A maioria durou de três a quatro noites. Bell não se importa em viajar de avião, mas seus voos recentes foram para lugares que conheceu primeiro de navio, como Aruba e St. Maarten. “Talvez eu não tivesse escolhido St. Maarten se não tivesse ido para lá em um cruzeiro”, diz.

Transformação do modelo de negócio

Em décadas passadas, os navios de cruzeiro funcionavam mais como resorts simples e flutuantes com tudo incluído. Hoje, parecem parques de diversões equipados com pistas de kart, fliperamas de realidade virtual, tirolesas e até montanhas-russas — atrações chamativas que atraem a atenção e, depois, o dinheiro de jovens que podem se tornar viajantes e que encontram esses lugares nas redes sociais.

No TikTok, jovens agora publicam com orgulho suas férias em alto-mar, com passeios pelas cabines, retrospectivas de looks e vídeos do tipo “tudo o que comi”.

Mone-Corallo gosta da comida da Virgin Voyages, exclusiva para adultos, e do charme nostálgico da Disney Cruise Line. Mas sua favorita é a Royal Caribbean, conhecida por sua frota de navios gigantes com parques aquáticos e pistas de patinação no gelo. Ela gosta especialmente do Icon of the Seas, com capacidade para 7.600 passageiros, onde aproveita o deck da piscina exclusivo para adultos, os espetáculos de comédia à noite e os drinques da moda com chá e café do bar Rye and Bean.

Os corredores do navio, cercados de bares, parecem feitos para passeios de bar em bar depois do jantar, e, segundo os passageiros, as festas temáticas que avançam pela madrugada lembram eventos universitários.

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E, quando o sol nasce, os navios da Royal Caribbean continuam cheios de atrações para os passageiros mais jovens, segundo Allie Thompson, consultora de viagens e especialista em cruzeiros da Kingdom and Cruise Travel. Entre elas estão os seis toboáguas — parte do maior parque aquático em alto-mar — e a experiência de “caminhar sobre a prancha” na atração radical Crown’s Edge.

“São coisas que fazem você se sentir criança de novo”, diz Thompson. “A geração millennial busca muita adrenalina. Ela não quer apenas férias. Quer uma experiência.”

Thompson observa que mais de 70% das reservas de cruzeiros que faz são para a Royal Caribbean. Ela estima que cerca de metade delas vem de millennials ou de pessoas ainda mais jovens. Nos últimos 18 meses, notou um aumento considerável de clientes desse perfil, principalmente entre os que querem celebrar reuniões familiares com várias gerações ou datas marcantes em alto-mar.

Mone-Corallo e Thompson concordam que a Virgin é a companhia de cruzeiros dos millennials. Em 2027, os preços vão de US$ 327 por pessoa, em uma viagem de três noites pela Califórnia e pelo México, a US$ 4.610 por pessoa, em um roteiro de 11 noites pela Espanha, Portugal e Marrocos, de acordo com os preços consultados em 2 de novembro.

Os quatro navios da companhia, que não aceitam crianças, oferecem restaurantes de churrasco coreano, aulas de ginástica sem custo adicional e estúdios de tatuagem. Há shows de drag com piadas picantes e festas com tema vermelho que tomam o navio inteiro, nas quais lingerie vermelha é considerada apropriada. Também é comum ver ímãs de abacaxi de cabeça para baixo nas portas das cabines — um código que significa: “Somos adeptos da troca de casais”.

Até a Disney Cruise Line, cuja identidade de marca é praticamente o oposto da Virgin, disputa o dinheiro de millennials e integrantes da Geração Z. Thompson tem vários clientes adultos sem filhos que adoram os cruzeiros da Disney. Os navios mais novos oferecem extensos cardápios de drinques e bares exclusivos para adultos inspirados na saga Star Wars e na atração Haunted Mansion dos parques temáticos.

As tarifas podem ser mais altas: em 2027, esses resorts flutuantes da Disney custam de US$ 884 para duas pessoas, em uma viagem de três noites saindo de Singapura, a US$ 66.034 para duas pessoas, no primeiro cruzeiro de cinco noites do Disney Believe pelo Mediterrâneo, de acordo com os preços consultados em 2 de novembro.

Para atrair a nostalgia de quem nasceu nos anos 1990, alguns navios também vendem produtos exclusivos de cruzeiro e apresentam espetáculos inspirados em sucessos daquela década. O Disney Destiny, por exemplo, tem uma adaptação no estilo da Broadway do filme Hércules, de 1997.

Essa geração mais jovem de passageiros é fundamental para a sustentabilidade do setor a longo prazo. Se ainda não tem filhos para transmitir a tradição dos cruzeiros em família, muitos logo terão.

Hanks e o marido cresceram em famílias que costumavam fazer cruzeiros. Mas a lua de mel foi a primeira viagem dos dois juntos e surgiu da busca por algo mais acessível. “Eu me vejo fazendo cruzeiros pelo resto da vida”, diz Hanks. “Estamos muito animados com a ideia de fazer cruzeiros em família e viver essa experiência também com nossos filhos.”

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