De IA à geopolítica: os livros que gestores da América Latina recomendam para 2026

Executivos de grandes casas de investimento como BlackRock, Vanguard, UBS e JPMorgan indicam livros para navegar o novo ciclo econômico global

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04 de Janeiro, 2026 | 05:12 PM

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À medida que 2026 se inicia, os líderes das principais gestoras de investimentos da América Latina compartilharam com a Bloomberg Línea quais livros eles consideram essenciais para começar o ano com critérios estratégicos.

Suas recomendações variam de ensaios sobre inteligência artificial a romances políticos com lições úteis para interpretar a incerteza geopolítica.

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As sugestões apontam para um tema comum: entender as megatendências não como promessas imediatas de lucratividade, mas como processos que exigem visão de longo prazo, leitura crítica e clareza diante dos riscos globais.

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Em meio a um ambiente marcado por ciclos monetários assimétricos, tensões entre potências e rupturas tecnológicas aceleradas, os especialistas destacam trabalhos que permitem uma interpretação mais profunda tanto das oportunidades quanto dos riscos do novo ciclo.

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Algumas das propostas se concentram na transformação que está sendo gerada pela inteligência artificial.

Outras se concentram nas tensões estruturais que afetam a ordem econômica global e a distribuição do poder político.

“Acho importante que os investidores e o público em geral procurem literatura que nos ajude a compreender as nuances e os riscos bidirecionais das megatendências globais, que vão desde a arena financeira até a sociopolítica”, diz Francisco Campos, economista-chefe do Deutsche Bank para a América Latina.

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“Isso ajudaria nossa atitude - e nossos portfólios - a evitar a exuberância ou o niilismo diante de tais megatendências.

Estas são as leituras recomendadas para começar o ano com uma visão estratégica mais clara e bem informada.

Megatendências, IA e narrativas econômicas

Daniel Derzavich, diretor de desenvolvimento de negócios para a América Central e do Sul da Vanguard, recomenda Coming Into View: How AI e Other Megatrends Will Shape Your Investments, de Joe Davis.

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Para Derzavich, o livro oferece uma estrutura realista para aqueles que enfrentam mercados dominados por narrativas tecnológicas.

“O valor do livro não está em prever vencedores pontuais, mas em ajudar o investidor a separar a narrativa dos fundamentos”, explicou.

Em sua opinião, o autor coloca em perspectiva que “as grandes mudanças tecnológicas de fato transformam a economia, mas também que esse processo costuma ser mais gradual, com vencedores e perdedores, e com retornos que nem sempre se materializam imediatamente nos preços de mercado”.

Benjamin Souza, diretor administrativo e estrategista de investimentos da BlackRock para a América Latina, sugere dois títulos importantes: Prediction Machines e Power and Prediction, ambos de Ajay Agrawal, Joshua Gans e Avi Goldfarb. Souza explicou que a inteligência artificial não está apenas alterando a estrutura de custos das empresas, mas também remodelando o crescimento macroeconômico em economias como a dos EUA.

Em sua análise, “a IA está ajudando com mais do que apenas mão de obra mais barata; ela está melhorando as margens por meio de melhores preços, estoque e logística”. Souza enfatizou que o foco deve estar em “infraestrutura, dados e sistemas”.

Na mesma linha, Francisco Campos, economista-chefe do Deutsche Bank para a América Latina, recomendou Nexus, de Yuval Noah Harari, por sua exploração histórica das redes de informação até a era da inteligência artificial.

A proposta é complementada por Power and Progress, de Daron Acemoglu e Simon Johnson, uma obra que problematiza a suposição de que todo progresso tecnológico se traduz automaticamente em bem-estar social.

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Nas palavras de Campos, “a discussão relacionada aos precedentes históricos em que os avanços tecnológicos e de produtividade não produzem necessariamente melhores condições de vida para a sociedade em geral me pareceu extremamente útil diante do otimismo excessivo com que a IA é frequentemente vista“.

Geopolítica, política econômica e poder

Alguns analistas também apontaram livros que permitem uma melhor interpretação dos cenários de tensão geopolítica, a ascensão de potências como a China e a transformação das estratégias econômicas na América Latina.

Nur Cristiani, do JPMorgan Private Bank, escolheu Checkpoints: American Power in the Age of Economic Warfare, de Edward Fishman.

O livro examina o uso de ferramentas econômicas como instrumentos de influência global.

De acordo com Cristiani, o texto “oferece uma visão oportuna de como as ferramentas econômicas e financeiras estão moldando a influência global” e observa que ele “explica como os Estados Unidos usam o comércio e outras alavancas não militares para promover seus interesses”.

Além disso, o autor argumenta a necessidade de usar essas estratégias com cuidado para não corroer a credibilidade do país, “o que é especialmente relevante dada a atual dinâmica do mercado”, disse ela.

Em termos de implicações para a região, Cristiani enfatizou que um dos temas centrais do livro é “o aumento da fragmentação e da re-regionalização na economia global”, uma tendência que já é evidente na mudança de alianças e estratégias comerciais.

“Checkpoints’ destaca como a atual política dos EUA em relação à América Latina está se tornando mais transacional, ecoando elementos da Doutrina Monroe”, disse Cristiani, alertando que os investidores devem considerar essa dinâmica ao planejar sua alocação de ativos.

US Economy Ahead Of Personal Consumption Expenditures Price Index Figures Release

Sergio Guerrien, diretor e diretor-gerente para a América do Sul da Franklin Templeton, recomendou O Mágico do Kremlin, de Giuliano da Empoli, um romance que funciona como um ensaio político sobre a lógica do poder na Rússia.

“O livro é muito útil para entender como são construídas as narrativas, muitas vezes fictícias, que sustentam o poder e como a incerteza pode ser usada como uma ferramenta estratégica para governar”, disse Guerrien.

O livro “oferece uma perspectiva valiosa sobre a lógica do poder em regimes autoritários e seu impacto na tomada de decisões econômicas”.

Em um contexto global marcado por conflitos, tensões entre poderes e a crescente politização da economia, o executivo considerou que o texto “ajuda a entender por que a incerteza não é mais um risco específico, mas uma ferramenta de poder”.

Marcus Vinicius, Diretor de US Offshore da Franklin Templeton, recomendou o livro The Hundred-Year Marathon, de Michael Pillsbury, por sua análise da abordagem estratégica da China em relação aos Estados Unidos.

De acordo com Vinicius, o autor argumenta que “a China compete com os Estados Unidos por meio de uma estratégia de longo prazo baseada em paciência e planejamento estratégico, com uma visão histórica diferente do poder“.

Ele também valorizou a trilogia de Morgan Housel (The Psychology of Money, Same as Ever e The Art of Spending Money) como um guia para lidar com a incerteza com disciplina.

Em suas palavras, “o sucesso financeiro depende mais da disciplina, do gerenciamento de riscos, da paciência e da compreensão das tendências humanas do que da sofisticação técnica”.

Luciano Telo, CIO Brasil do UBS Global Wealth Management, sugeriu três títulos que nos permitem analisar o novo ciclo econômico a partir de uma perspectiva histórica, tecnológica e estratégica.

Em sua opinião, essas obras oferecem ferramentas para entender os fatores estruturais que estão remodelando o poder global, a competição entre as potências e o papel da inovação como motor da transformação econômica.

O primeiro é Chip War, de Chris Miller. O livro traça a evolução do setor de microprocessadores como um eixo de poder geopolítico.

Telo explicou que “o livro ajuda a entender por que o mundo está caminhando para uma divisão em dois blocos, com lideranças mais claramente definidas, e quais são as vantagens relativas de cada potência nesse cenário de competição tecnológica”.

Ele também recomendou o livro de Ray Dalio, Principles for Dealing with the Changing World Order: Why Nations Succeed and Fail (Princípios para lidar com a ordem mundial em transformação: por que as nações têm sucesso e fracassam), por seu foco nos ciclos históricos de expansão e recessão das grandes potências.

De acordo com Telo, o autor “mostra como esses padrões podem ser aplicados ao mundo atual, abordando questões como déficits fiscais, desigualdade, divisões políticas internas e sistemas monetários”.

Por fim, ele mencionou o livro The Coming Wave, de Mustafa Suleyman, como leitura fundamental para entender o impacto de tecnologias emergentes, como inteligência artificial e biologia sintética.

Em sua análise, “Suleyman também alerta para os riscos inerentes ao seu rápido avanço e adoção irrestrita”, uma preocupação que, segundo Telo, será fundamental para governos, empresas e investidores nos próximos anos.

Leitura adicional e podcasts recomendados

Além de livros, alguns dos especialistas consultados compartilharam podcasts ou leituras adicionais para ampliar a perspectiva dos investidores sobre o novo ciclo.

Cristiani sugeriu dois títulos. Por um lado, The Americas Quarterly Podcast, como um recurso para acompanhar as tendências regionais e as políticas públicas na América Latina. Por outro lado, In Good Company, um podcast que explora questões de liderança corporativa e decisões estratégicas.

Vinicius concordou em recomendar um episódio específico deste último, com foco em David Vélez, CEO do Nubank, gravado em outubro de 2025. Nessa entrevista, Vélez analisa a transformação do sistema bancário na América Latina por meio da digitalização.

“Velez conta como identificou as profundas ineficiências do sistema bancário tradicional na região e como essa experiência deu origem ao Nubank”, explicou Vinicius.

Ele observou que o testemunho de Velez mostra “que, ao entender completamente o ambiente local e combiná-lo com tecnologia e uma estratégia disciplinada, é possível criar negócios que alcancem alcance global”.

Shoppers in Bangkok Ahead of Thailand's CPI Figures

Ele também recomendou um episódio recente do Huberman Lab, publicado em novembro de 2025, no qual Andrew Huberman entrevista o especialista em falar em público Matt Abrahams.

“A conversa se concentra nos fundamentos científicos e práticos da fala em público eficaz, desmascarando um dos mitos mais comuns: os melhores comunicadores não são necessariamente aqueles que falam mais, mas aqueles que ouvem melhor“, explicou Vinicius.

Campos recomendou The Chile Project, de Sebastián Edwards, para entender melhor os dilemas da política econômica no Cone Sul.

Em sua opinião, o livro permite observar com mais clareza “quais elementos na condução da política econômica contribuíram para o sucesso econômico do Chile de acordo com os padrões regionais, mas, ao mesmo tempo, entender os riscos de buscar uma extrapolação simplista para as mudanças que provavelmente virão, dada a história política do país“.

As recomendações de leitura coletadas pela Bloomberg Linea refletem um consenso entre os líderes de investimento da América Latina: enfrentar o novo ciclo econômico exige uma compreensão profunda das megatendências tecnológicas, das mudanças geopolíticas e das transformações estruturais do sistema global.