Da Faria Lima aos Alpes: simuladores de esqui preparam brasileiros ricos para a neve

Com o aumento da procura de brasileiros por destinos de neve, academia em São Paulo aberta no ano passado aposta em máquinas especializadas de treino de esqui e snowboard; segunda unidade já está prevista para este ano, com um investimento de R$ 10 milhões

médica cirurgiã Elisa Aranzana treina esqui na Born to Ski
06 de Março, 2026 | 06:00 AM

Bloomberg Línea — A médica cirurgiã Elisa Aranzana nunca havia esquiado quando comprou uma passagem para os Alpes franceses. A viagem era para janeiro deste ano. O tempo de férias, curto.

Em vez de chegar sem preparo — e gastar entre 750 e 800 euros por dia com um instrutor particular na Europa — ela encontrou uma saída a duas quadras da Avenida Faria Lima, em São Paulo: uma academia especializada que oferece aulas de esqui em um simulador.

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Em La Rosière, a brasileira foi direto para a aula em grupo e dispensou o instrutor particular. De volta ao Brasil, decidiu manter os treinos duas vezes por mês, que pretende continuar fazendo até a próxima temporada.

“Depois de certa idade, você quer fazer algo novo, um esporte novo. Eu queria tanto aprender a esquiar. Agora vai”, disse ela, que começou a treinar na academia de esqui em outubro.

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A médica não está sozinha nesse movimento. A prática de esportes de neve tem atraído mais brasileiros entre os que podem pagar os custos de uma viagem internacional, incluindo a hospedagem, aulas práticas e acesso às pistas.

Em 2025, cerca de 600 mil turistas do país viajaram para destinos de neve, segundo disse o presidente da CBDN (Confederação Brasileira de Desportos na Neve), Anders Pettersson, à Bloomberg Línea. Esse número representa um crescimento de 20% em relação à projeção mais recente divulgada em 2020 (500 mil).

Em Courchevel, um dos destinos mais procurados dos Alpes franceses, o Brasil é hoje o quarto maior mercado de turistas internacionais atrás de Reino Unido, EUA e Emirados Árabes, segundo dados do Courchevel Tourisme apresentados no Snow Tour de 2025, e o país disputa posição semelhante em Aspen, no Colorado, EUA.

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É nesse contexto que o Brasil conquistou a primeira medalha do país em uma Olimpíada de Inverno, com o ouro do esquiador Lucas Pinheiro Braathen, em Milão-Cortina 2026, no slalom.

“O impacto da medalha de esqui alpino sobre o interesse dos brasileiros pelo esporte de inverno será bastante significativo”, avalia Pettersson, da CBDN.

Ele lembra que a temporada de Copa do Mundo de esqui ainda terá três etapas, em Kranjska Gora (Eslovênia), Courchevel (França) e Lillehammer (Noruega). “Há expectativa de o interesse continuar crescendo na temporada 2026-2027”, disse o presidente da confederação.

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‘Esquiar’ sem sair de São Paulo

Apesar do interesse crescente, em um país sem neve como o Brasil, são poucas as alternativas para manter a prática do esporte a não ser buscar algum destino de neve mais próximo na América do Sul ou em outras regiões durante temporadas de inverno.

Os simuladores de esqui agora oferecem outra opção sem precisar sair de São Paulo. “A demanda, desde a inauguração, foi 100% todos os dias”, diz Marco Parisotto, fundador da escola Born to Ski, aberta em setembro de 2025. “Não sei quantas pessoas não conseguiram vir.”

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A Born to Ski funciona num galpão de cerca de 500 m² no bairro da Vila Olímpia. O coração do espaço são dois simuladores da fabricante holandesa Ski Machines: esteiras inclinadas com velocidade e angulação variáveis, barra lateral de apoio e controle remoto na mão do instrutor.

Cada equipamento atende um aluno por vez, com aulas que custam de R$ 330 a R$ 350 cada, dependendo do pacote. A capacidade é de 80 aulas por dia, 40 de esqui e 40 de snowboard. A equipe tem 15 instrutores.

O perfil dos alunos acompanha a localização. A maioria é de moradores de bairros nobres da capital paulista. Mas cerca de 20% chegam de fora da cidade: incluindo Alphaville e Santo André, na Grande São Paulo, além de Goiânia, Curitiba, Florianópolis e Vitória.

Um cliente do Espírito Santo chegou a passar uma semana em São Paulo só para treinar, segundo o fundador. “Todos os estados do Brasil já tiveram ao menos um aluno representante. Até o Acre.”

Botas na Born to Ski: o equipamento vem da Europa e está incluso nos R$ 350 da aula avulsa

A faixa etária mais ativa vai dos 30 aos 55 anos, com divisão de 60% homens e 40% mulheres.

Uma surpresa operacional foi a distribuição dos horários. Parisotto esperava uma concentração de alunos à noite e de manhã. A demanda se espalhou ao longo do dia, inclusive no horário do almoço, reflexo de uma rotina de trabalho mais flexível, principalmente daqueles que trabalham em escritórios próximos, no centro financeiro de São Paulo.

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Em agosto de 2026, a Born to Ski planeja abrir a sua segunda unidade, no bairro de Pinheiros, com ponto mais próximo dos Jardins. O endereço ainda não foi divulgado, mas o modelo se repete: dois simuladores, mesmo formato, em um novo investimento de R$ 10 milhões.

O capital é da própria família Parisotto, que controlava a construtora Inpar, vendida em 2009. “Localização, localização, localização”, resumiu Parisotto sobre a escolha do bairro.

O que ainda é incógnita é a baixa estação. A demanda dos primeiros cinco meses está diretamente ligada ao calendário de neve no Hemisfério Norte: as pessoas treinam antes de viajar no fim do ano, em janeiro e no carnaval. O que acontece entre abril e agosto, a escola ainda não sabe.

“Pode ser que em abril fique vazio. Estou sendo sincero”, disse Parisotto. A aposta é que parte dos alunos continue treinando fora de temporada.

Beyond Club e os outros players

A Born to Ski não está sozinha no segmento. O Beyond The Club, clube privado na Marginal Pinheiros, inclui simuladores de esqui e snowboard entre suas atrações.

O empreendimento já opera parcialmente para associados desde o fim de 2025, com abertura total prevista para este semestre.

O carro-chefe é uma lagoa de surfe com Wavegarden de 62 módulos, um sistema de geração de ondas artificiais da empresa espanhola de mesmo nome, líder mundial no segmento, e 500 metros de praia de areia.

Parisotto, da Born to Ski, não vê concorrência direta: o Beyond The Club exige associação; a Born to Ski funciona por aula avulsa ou pacote. O raciocínio é de complementaridade.

Na Vila Nova Conceição, a clínica de fisioterapia Movitta opera um simulador de esqui e snowboard com proposta diferente: as sessões de uma hora combinam exercícios específicos e tempo no simulador, e atendem desde iniciantes até a reabilitação pós-lesão.

O crescimento do interesse pelo esqui se estende à moda. Em 2021, a advogada Bárbara Baer voltou de Courchevel com uma percepção: montar um look adequado para esquiar era caro e trabalhoso.

Decidiu abrir a Linda Neve com cinco peças do próprio guarda-roupa. Hoje tem mais de 1.500 itens de marcas internacionais para aluguel, faturamento 350% acima de 2022 e um espaço de 155 metros quadrados inaugurado em 2026 na Rua Pamplona, em São Paulo. “Não é sobre alugar roupas. É sobre viver a experiência antes mesmo de decolar”, disse.

Curva longa

No dia em que Lucas Braathen ganhou o ouro em Milão-Cortina, Parisotto, da Born to Ski, acordou às 6 da manhã para assistir à prova. Mais tarde, as reservas da escola continuaram no mesmo ritmo.

O efeito esperado pelo empreendedor é de médio prazo. A comparação que ele faz é com Rayssa Leal, que ganhou medalha de prata no skate em Tóquio e de bronze, em Paris: o aumento da demanda é proporcional ao custo do esporte. Praticar esqui é caro, e a curva é mais longa. “A medalha gera visibilidade. O que vem depois, a gente ainda vai descobrir”, disse.

A médica Elisa Aranzana diz que não precisou do ouro de Braathen para se convencer a praticar o esporte. Já havia se decidido. E, em janeiro de 2027, pretende voltar aos Alpes.

Na próxima temporada, ela quer avançar da pista azul, voltada para iniciantes, para a vermelha, de dificuldade intermediária. O objetivo é melhorar o paralelo, a técnica em que os dois esquis se movem juntos e na mesma direção.

“Não quero a pista preta [nível avançado]. Quero apenas esquiar com segurança e curtir cada dia da viagem”, diz.

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