Bloomberg Línea — O espumante Salton Ouro Moscatel conquistou neste ano medalha de ouro no Decanter World Wine Awards, um dos concursos de vinhos mais prestigiados do mundo, que avaliou cerca de 17 mil rótulos de 58 países na última edição.
O resultado vai além da vinícola, uma das maiores do país, e representa a coroação de uma sequência de reconhecimentos do espumante produzido no Brasil, que deixou de ser pontual para se tornar rotina. A bebida borbulhante produzida localmente tem se consolidado como uma das principais referências da vitivinicultura brasileira no cenário internacional.
Em 2024, vinhos e espumantes brasileiros somaram 776 premiações em concursos realizados em 11 países, recorde histórico, segundo a Associação Brasileira de Enologia. Em 2025, foram outras 730 distinções, em competições realizadas em 12 países. Só a vinícola Salton reuniu mais de 40 medalhas em concursos estrangeiros em 2025, entre eles o Sommelier’s Choice Awards, nos Estados Unidos, e o Effervescents du Monde, na França, concurso dedicado exclusivamente à categoria.
O reconhecimento começou há pouco tempo, mas avançou rapidamente, segundo Maurício Salton, CEO da vinícola. “Num primeiro momento, o Brasil sequer era conhecido numa relação com o universo de vinhos espumantes. Isso é algo de 15 anos para cá”, disse em entrevista à Bloomberg Línea.
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Primeiro representante da quarta geração da família a comandar a empresa, desde 2018, Salton explicou que as premiações são uma importante vitrine de marketing, e se tornaram algo presente no planejamento da empresa, com peso direto na gestão.
“As notas que a gente extrai dessas premiações vão compor a base de remuneração variável da diretoria e de colaboradores”, revelou o executivo. Segundo ele, resultados abaixo do esperado em determinado ano levam a empresa a revisar processos internos de elaboração, e o desempenho consistente ao longo do tempo tem efeito comercial concreto.
Em sua visão, a explicação para o salto de qualidade e reconhecimento dos espumantes nacionais começa no terroir da Serra Gaúcha, região responsável pela maior parte da produção nacional da categoria. A expressão tradicional no mundo do vinho engloba solo, relevo, regime de chuvas e temperatura, que definem, segundo ele, praticamente toda a qualidade da uva antes mesmo de qualquer intervenção humana. “Ele basicamente define 90% da viticultura. É uma fração mínima que é a intervenção humana em cima do manejo”, afirmou.
A combinação de um solo mais pobre em nutrientes, o que força a videira a produzir frutos de melhor qualidade, com invernos frios e chuvas um pouco mais abundantes do que em outras regiões produtoras, favorece especialmente a acidez da uva.
Para vinhos tintos, um nível alto de acidez costuma ser um problema. Para espumantes, é uma vantagem. “Conseguimos preservar um bom nível de acidez, o que para vinhos, especialmente tintos, não é tão favorável. Mas para o espumante acaba sendo bem interessante”, disse Salton.
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Mas o bom terroir não basta para transformar o espumante brasileiro em um produto de reconhecimento internacional, e a explicação também é histórica, segundo ele.
Até o início dos anos 1990, contou o executivo, o Brasil era um país produtor de vinho branco. Cerca de 80% da produção nacional vinha dessas uvas, moldada por décadas de incentivo ao plantio dessas variedades na Serra Gaúcha. Em poucos anos, o cenário se inverteu. Estudos científicos publicados a partir de meados dos anos 1990 associaram o consumo de vinho tinto a benefícios à saúde, e a demanda migrou com rapidez.
Salton disse que ali houve “uma mudança de mercado súbita: em questões de três ou quatro anos, a realidade do Brasil, que era 80% vinho branco e 20% tinto, inverteu a lógica”. Começou então um movimento de readequação de portfólio, com produtores passando a trabalhar mais com uvas tintas.
O problema, explicou, é que boa parte dos vinhedos brancos já estava plantada havia anos, com produtores parceiros que haviam investido nessas variedades a pedido das próprias vinícolas. Arrancar tudo e recomeçar com uvas tintas não era uma opção rápida nem barata.
“Tínhamos uma escala tão grande de parceiros que incentivamos no plantio de variedades brancas, que não poderíamos simplesmente fazer com que eles revertessem o vinhedo”, contou Salton.
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Foi nesse contexto, entre o fim dos anos 1990 e a virada do milênio, que o espumante deixou de ser um produto secundário para se tornar a resposta estratégica da empresa e do setor para aproveitar uma base de uvas brancas que já existia.
Da vitrine ao mercado global
A Salton elabora espumantes desde 1933, mas o destaque internacional da categoria só começou a se consolidar nos anos 2000, o que indica que a virada exigiu decisões deliberadas de investimento. Segundo o herdeiro, o processo de especialização da empresa nessa categoria não veio de forma simples ou natural.
Um dos marcos desse processo de profissionalização aconteceu em 2016, quando a Salton passou a rastrear com rigor científico a matéria-prima recebida de produtores parceiros. Em vez de avaliar a uva apenas pela aparência física, a empresa passou a fazer análises físico-químicas de acidez volátil, acidez total e nitrogênio de cada lote, dado que orienta decisões sobre manejo, poda e cortes finais dos produtos.
O movimento acompanhou uma mudança mais ampla no setor, que passou a se apoiar em parcerias com universidades para embasar cientificamente a viticultura. “Toda base científica da viticultura brasileira até dois ou três anos atrás era exclusiva da Serra Gaúcha. E o Brasil hoje tem mais de 17 estados produtores”, disse Salton, ao descrever a expansão geográfica e técnica que o setor viveu na última década.
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O reconhecimento internacional acompanhou o avanço do desempenho técnico da produção no país e levou à expansão do mercado pelo mundo.
A Salton exporta hoje para mais de 30 países e manteve operações comerciais em 16 mercados só em 2025, com presença nos cinco continentes. Desde 2025, o Salton Évidence Cuvée Brut é o único rótulo brasileiro no menu do restaurante Maido, em Lima, eleito o melhor do mundo pelo ranking The World’s 50 Best Restaurants.
Fundada em 1910 por sete irmãos de uma família de imigrantes na Serra Gaúcha, a empresa emprega hoje mais de 500 pessoas e trabalha com cerca de 300 famílias de viticultores parceiras, várias delas ligadas ao negócio há mais de uma geração.
O consumo per capita de espumantes no Brasil ainda é pequeno diante do potencial do mercado. Segundo Salton, a média nacional gira entre 125 e 140 ml por pessoa ao ano, o equivalente a uma taça, número muito inferior ao consumo per capita de vinho, hoje entre 2,7 e 2,8 litros. “É a média, e é muito pequena”, disse o executivo.
Ainda assim, o hábito de consumo tem mudado. O espumante deixou de ser associado apenas a datas festivas e passou a ganhar espaço ao longo de todo o ano, inclusive em épocas mais frias, tradicionalmente favoráveis ao vinho tinto. As mulheres são as maiores consumidoras da categoria, segundo Salton, e o público consumidor mais fiel costuma se formar a partir dos 35 e 40 anos de idade.
O desempenho recente da própria Salton reflete esse movimento. A empresa registrou crescimento de 20% em vendas ao consumidor final no último ano, e o início do exercício atual mantém ritmo consistente, mesmo em um inverno mais rigoroso no Sul do país.
Estudos de mercado citados pelo executivo projetam crescimento global da categoria acima de 5% ao ano até 2030. No Brasil, a expectativa é que esse avanço seja ainda mais expressivo, à medida que a base de consumidores de espumante se aproxima, com o tempo, da escala já consolidada pelo consumo de vinho.
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