A balada acabou? Como o celular está transformando as pistas de dança pelo mundo

Cultura dos clubes de música eletrônica está enfrentando um momento existencial à medida que locais maiores, preços de ingressos mais altos e mídias sociais transformam as pistas de dança em eventos para espectadores

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Bloomberg — Em 2021, no auge da pandemia de Covid-19, o produtor britânico Fred Again e a DJ Blessed Madonna se encontraram pelo Zoom para falar sobre o peso emocional do isolamento.

“Perdemos a dança”, ela disse. “Perdemos os abraços com amigos, as pessoas que amávamos, tudo o que tomávamos como garantido”.

Suas palavras expressavam com sinceridade a perda da comunidade, da vida noturna e do contato físico que a pandemia impôs. Mas ela terminou com otimismo: “Se consigo sobreviver a isso, o que vem depois será maravilhoso”.

Fazendo o que sabe de melhor, Fred Again transformou essa vulnerabilidade numa faixa de sucesso. Usando em loop a frase “Perdemos a dança” sobre flauta sintetizada e bumbo, construiu um hino dançante sobre sair do isolamento social.

Cinco anos depois, o futuro provavelmente não é o que nenhum dos dois DJs imaginava. Embora a pandemia tenha recuado e as pessoas tenham viajado e gasto como forma de compensar o tempo perdido, a vida noturna voltou em formato diferente.

As baladas se parecem cada vez mais com shows: plateia de frente para o palco, telas iluminadas e um estranhamento estático que paira no ar. As implicações para o entretenimento são profundas e já estão redesenhando a economia de sair à noite.

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Os jovens têm sido apontados como culpados, acusados de não saber curtir. Uma geração que bebe menos, faz menos sexo e está sempre ciente de que qualquer momento pode ser gravado e postado. Uma geração criada no TikTok, onde as danças seguem coreografias fixas otimizadas para a câmera, achatadas como se o corpo não tivesse tridimensionalidade.

Uma cena que irritou muitos fãs de música eletrônica aconteceu em Ibiza em 2024: o grupo alemão de Afro house Keinemusik tocou a faixa “Move” para uma plateia que praticamente não se moveu. O espaço era um mar de celulares imóveis e iluminados. “Don’t move”, brincou um comentarista.

A transformação das baladas é alimentada tanto pela comercialização quanto pelas redes sociais. À medida que o público se comporta mais como espectador e videógrafo do que como participante, os espaços apostaram no espetáculo: palcos maiores, produção mais elaborada e lineups centrados em headliners. Custos maiores significam ingressos mais caros, o que eleva as expectativas do público, e o ciclo se retroalimenta.

Segundo dados do International Music Summit (IMS), o volume de ingressos de música eletrônica caiu em 2024, mas o preço mais alto manteve a receita do setor em alta.

Para a música eletrônica, um setor de US$ 12,9 bilhões em 2024 segundo o IMS, essas mudanças são especialmente desestabilizadoras. Ao contrário do rock ou do hip-hop, que funcionam bem em formatos de show centrados em estrelas, o gênero sempre dependeu de ambientes mais íntimos e da resposta do dançarino na pista.

“É isso que fez a música dance ser o que é, além da qualidade das músicas em si”, diz Gavin Stephenson, DJ e produtor de eventos eletrônicos em Nova York que organiza festas desde os anos 1990.

Em vez de seguir um setlist fixo, um DJ deveria estar “tecendo uma história que vai em todas as direções com base no que a pista precisa, reagindo e surpreendendo.”

Na cultura club, a noite em geral importa mais do que o artista. As pessoas vão pela pista de dança, não por um nome específico. Shows, por sua vez, são organizados em torno de um ponto focal: um artista para ser assistido e consumido. Drogas como MDMA e ecstasy também desempenharam um papel único nessa cultura, amplificando a euforia e a sensação de conexão entre a multidão.

Quase sem dançar

A mais de 340 metros acima da skyline do lado oeste de Nova York, uma das festas de música eletrônica mais comentadas do último verão representou a inversão perfeita das raízes underground do gênero. O grupo Tao Group Hospitality transformou o mirante Edge, em Manhattan, de ponto turístico em clube nas alturas, com nomes como Benny Benassi, Diplo e Adriatique.

Os ingressos comuns custavam até US$ 200 e chegaram a US$ 700 na revenda. Os participantes subiram 100 andares de elevador até a plataforma envidraçada e foram recebidos por um cenário deslumbrante no sentido literal: luzes da cidade lá embaixo, vento audível sobre a música e celulares erguidos para registrar o show. Os corpos, quando muito, balançavam levemente.

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O afluxo de novos ouvintes talvez tenha tornado essa mudança inevitável. Em 2024, a música eletrônica ganhou 566 milhões de fãs no Spotify, Instagram, TikTok, YouTube e Facebook, segundo o IMS, enquanto a hashtag #electronicmusic acumulou 13,4 bilhões de visualizações, alta de 45% em relação ao ano anterior.

Com estilos que vão do tech house ao Afro house e ao dubstep, a música eletrônica chegou a atrair fundos de private equity. Em 2024, a KKR comprou a Superstruct Entertainment por US$ 1,4 bilhão. A empresa opera 80 festivais de música, incluindo eventos de techno como Sonar e Awakenings, além de ser dona do Boiler Room, popular plataforma online de sets de DJs.

Embora hoje seja mais forte na Europa do que nos Estados Unidos, onde perdeu espaço para o hip-hop, o gênero tem raízes americanas. O disco abriu caminho nos anos 1980 para os estilos eletrônicos pioneiros, como o house nos clubes underground de Chicago e o techno em Detroit, ambos nascidos nas comunidades LGBTQ+, negras e latinas marginalizadas. Depois veio o boom das raves nos anos 1990, que se fragmentou em subgêneros como trance, acid house, big beat e drum and bass.

Nos anos 2000 e 2010, o eletrônico entrou de vez no mainstream, impulsionado por DJs-produtores superastros. Nomes como Avicii e Calvin Harris cimentaram o gênero como pilar do pop, alimentando o crescimento de megafestivais como o Tomorrowland. Hoje a música eletrônica é mais popular na Alemanha, seguida pelos EUA, Austrália, Reino Unido e México.

Mas à medida que a cena cresceu, mais profissionais e fãs argumentam que ela perdeu a essência, usando a sigla “EDM” de forma pejorativa para se referir aos sons mais comerciais. As faixas ficaram mais curtas e tendem a ter drops e quebras dramáticas que funcionam melhor para seguidores nas redes. Uma pesquisa divulgada em abril do ano passado com 15 mil DJs pela Pete Tong DJ Academy revelou que 61% acreditam que o número de seguidores nas redes sociais hoje importa mais do que a habilidade musical.

Uma nova noite fora

Num post amplamente compartilhado no Instagram, o DJ Arnii, baseado em Tbilisi, na Geórgia, reclamou que a demanda por momentos compartilháveis nas redes, em detrimento de experiências dançantes, pressionou o ecossistema a criar sets curtos e fixos, corroendo a criatividade e os cachês dos artistas.

“Uma casa noturna que antes contratava um headliner por quatro horas por US$ 2.000 agora contrata cinco DJs por 60 minutos cada a US$ 400 por cabeça”, ele escreveu.

“Mais conteúdo para as redes, mais apelo para diferentes fanbases, mais valor percebido para clientes que acham que estão levando cinco vezes mais”.

Para donos de casas noturnas e produtores, esse tipo de lineup é um negócio mais seguro. Diversificar garante que, se um artista não engajar, os outros sustentam a noite. Mas há um custo criativo.

“Em sets de 60 minutos, você tem talvez 15 ou 20 faixas, e cada escolha precisa funcionar imediatamente. Construir tensão se torna impossível. Criar arcos narrativos se torna impossível”, escreveu Arnii.

Como a música eletrônica geralmente se concentra em um ou dois DJs atrás da cabine, ela não oferece o dinamismo visual natural de gêneros com vários músicos tocando instrumentos diferentes. Para compensar, alguns artistas recorrem a lasers, telões, pirotecnia ou outros recursos de espetáculo para se diferenciar.

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