Bloomberg — O início cauteloso do ciclo de cortes de juros no Brasil pode dar suporte aos ativos locais, sustentando a moeda e aliviando a pressão sobre os rendimentos de curto prazo, segundo gestores que falaram à Bloomberg News.
Ao optarem por uma redução mais modesta — em linha com estimativas mais conservadoras de economistas — os dirigentes de política monetária devem oferecer algum alívio a mercados pressionados pela alta do petróleo e pelas tensões geopolíticas.
Sob a liderança de Gabriel Galípolo, o Banco Central realizou o primeiro corte na taxa Selic desde 2024, reduzindo-a em 0,25 ponto percentual, para 14,75%.
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A decisão veio poucas horas depois de o Federal Reserve manter os juros inalterados e lançar dúvidas sobre uma flexibilização futura, diante de preocupações persistentes com a inflação.
“O corte foi importante, embora menor do que o inicialmente esperado”, disse Daniela Da Costa-Bulthuis, gestora da Robeco Institutional Asset Management. “A comunicação também foi cautelosa, mas, se os riscos externos diminuírem, há espaço para recuperação dos mercados.”
As tensões em torno da guerra no Irã e a alta do petróleo levaram investidores a rever expectativas para juros e crescimento global. Esse movimento tem pressionado os títulos de mercados emergentes, uma das principais apostas de Wall Street para 2026.
A volatilidade recente levou o Tesouro brasileiro a realizar uma intervenção de recompra em vários dias, em volume recorde.
No câmbio, a alta do petróleo tem favorecido operações de carry trade — estratégia que explora o diferencial de juros entre países. Mesmo após o corte, os juros ainda elevados no Brasil podem sustentar o real e manter seu atrativo, segundo os estrategistas.
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Veja a seguir as avaliações de economistas e gestores sobre a decisão:
Pedro Dreux, gestor da Occam Brasil Gestão, no Rio de Janeiro
“O Banco Central tomou a decisão apropriada, diante do elevado nível de incerteza.” A medida, combinada ao sinal de continuidade do ciclo, tende a aliviar a pressão na ponta curta da curva, reduzindo o risco de manutenção dos juros em 15% após o choque recente do petróleo.
André Muller, economista-chefe da AZ Quest
“Os dirigentes de política demonstraram maior confiança de que os juros elevados estão desacelerando a economia, o que sugere mais conforto para cortes adicionais, dependendo do cenário.” Ele projeta queda marginal nas taxas de curtíssimo prazo, com a curva precificando reduções de cerca de 25 pontos-base nas próximas reuniões.
Cristiano Oliveira, economista-chefe do Banco Pine
O início do ciclo de flexibilização em meio à turbulência global “se destaca”, indicando uma economia mais resiliente e um Banco Central com credibilidade.Com a decisão em linha com as expectativas, não são esperados movimentos relevantes no curto prazo.
Brendan McKenna, estrategista da Wells Fargo
“O Banco Central deve seguir atuando com cautela, e o cenário-base de cortes graduais de 25 pontos-base permanece intacto.”
O real não é “totalmente imune” ao ambiente global de risco, mas pode se mostrar mais resiliente que outras moedas emergentes, já que um corte mais agressivo de 50 pontos-base foi evitado.
Daniel Tenengauzer, estrategista da InTouch Capital Markets projeta uma apreciação do real e queda mais acentuada dos rendimentos de longo prazo em relação aos de curto prazo após a decisão.
Dan Pan, economista do Standard Chartered em Nova York
O corte de 25 pontos-base representa um “meio-termo prudente”, sinalizando riscos inflacionários que podem influenciar o ritmo e o timing das próximas reduções, ao mesmo tempo em que mantém a trajetória de flexibilização.
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