Bloomberg Línea — A Argentina de Javier Milei virou uma das referências da disputa entre o presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) e o senador Flávio Bolsonaro (PL) na reta final do segundo turno.
No debate da TV Globo, na noite de sexta-feira (23), a dois dias da votação de domingo (25), o país vizinho voltou ao centro da discussão, desta vez como argumento sobre o rumo da economia brasileira.
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Lula foi o primeiro a mencionar Milei ao debate. Na rodada de perguntas sobre a região Sul, o presidente perguntou se o adversário pretendia reajustar o salário mínimo e as aposentadorias acima da inflação.
Disse que Flávio “tem tentado mostrar que vai fazer um tesouraço” e lembrou que, no debate da Band, havia perguntado se o senador tinha tomado emprestada a “motosserra” de Milei, símbolo dos cortes de gastos do presidente argentino.
“Na Argentina, a pobreza chegou a 40%, o povo está comendo carne de burro, e você disse que quer um modelo igual ao do Milei”, disse Lula.
Na terça-feira (20), Milei, aliado de Flávio, chamou Lula de “ladrão”, e o governo brasileiro acusou interferência estrangeira.
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Flávio defendeu o presidente argentino e atribuiu a situação do país aos governos anteriores. Segundo ele, Milei assumiu com inflação de 211%, e os juros no país chegaram a 100%.
“Lá na Argentina, a esquerda governou por 20 anos. Vocês destruíram a Argentina”, disse o senador. Ele afirmou que terá “o mesmo trabalho aqui” e acusou Lula de deixar o Brasil “quebrado”.
Na mesma resposta, porém, prometeu reajustar o salário mínimo e as aposentadorias acima da inflação e disse que não vai privatizar Banco do Brasil, Caixa e Petrobras.
A Argentina voltou ao debate no bloco seguinte, quando Flávio escolheu o tema da dívida pública. Lula questionou por que o grupo político do adversário aprovou a autonomia do Banco Central. Flávio respondeu que a medida impede que um presidente reduza os juros “na canetada” e citou o kirchnerismo.
“Você ia transformar o Brasil no que a Cristina Kirchner e o Alberto Fernández transformaram lá na Argentina. Ia explodir a taxa de juros, ia explodir a inflação”, disse.
Nas duas ocasiões, o país vizinho serviu para enquadrar o debate fiscal. Lula associou o adversário a cortes de gastos com custo social e voltou ao tema ao questioná-lo sobre o SUS, quando perguntou se a melhora da saúde viria “com o tesouraço”.
Flávio respondeu que o “tesouraço” seria na corrupção, na burocracia e nos impostos. O senador associou o governo a um modelo de gasto público que, segundo ele, levaria o Brasil ao cenário de juros e inflação da Argentina antes de Milei.
Trump e política externa fora do debate
A política externa ficou de fora do debate. No segundo e no terceiro blocos, os candidatos escolheram seis de dez temas apresentados no telão: políticas sociais, dívida pública, SUS, endividamento dos brasileiros, ensino integral e retomada de territórios.
“Relações com Estados Unidos e China”, um dos temas presentes, ficou sem escolha, assim como meio ambiente, reformas e inteligência artificial.
Os Estados Unidos apareceram sobretudo em duas falas de Lula, ambas voltadas ao adversário. A primeira foi sobre o tarifaço do governo Donald Trump contra produtos brasileiros.
“Quando o meu adversário ficou lambendo o Trump para taxar o Brasil, eu não fiquei preocupado”, disse Lula, que citou a abertura de 700 novos mercados para as exportações. “Se o Trump não quer comprar do Brasil, eu vou vender em outros lugares.”
Na segunda, ao tratar de segurança pública, o presidente afirmou que Flávio, ao falar em combate ao narcotráfico, quer “entregar pro Trump cuidar daqui”. Flávio não mencionou Trump, e sua única referência aos Estados Unidos foi a um estudo do FBI sobre maus-tratos a animais.
A China, maior parceira comercial do Brasil, não foi citada por nenhum dos candidatos.
Flávio falou do Brasil como garantidor da segurança alimentar de outros países e da atração de data centers para a Zona Franca de Manaus, sem citar países.
A política regional também não entrou na pauta. Não houve menções ao Mercosul nem a outros vizinhos além da Argentina. O tema mais próximo foi o das fronteiras. Flávio afirmou que o governo “liberou geral nas fronteiras”, o que, segundo ele, manteve ativas as rotas de tráfico de armas e drogas.
Ele prometeu um pacto com governadores contra o crime organizado e o uso da Marinha na fiscalização do porto de Paranaguá. Lula, ao tratar de segurança, propôs criar um ministério para a área após a aprovação da PEC da Segurança.
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