Bloomberg — O Brasil aprofundou as disputas diplomáticas com dois de seus principais parceiros nas Américas por causa do que classificou como tentativas dos governos conservadores dos EUA e da Argentina de interferir na eleição presidencial de outubro.
O governo do presidente Luiz Inácio Lula da Silva acusou, na terça-feira (4), o governo do presidente dos EUA, Donald Trump, de interferir indevidamente nos assuntos brasileiros, depois que um alto funcionário do Departamento de Estado afirmou que os EUA revogaram o visto da embaixadora do Brasil em Washington.
O governo também rebaixou as relações com a Argentina ao decidir manter, por tempo indeterminado, o embaixador brasileiro sem retornar a Buenos Aires, em resposta aos repetidos ataques do presidente Javier Milei a Lula, segundo uma autoridade com conhecimento do assunto. O jornal argentino La Nación noticiou primeiro a decisão.
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As duas disputas ocorrem em meio à acirrada corrida eleitoral entre Lula, de 80 anos, e Flávio Bolsonaro. O senador de direita buscou apoio de Trump e Milei, dois líderes interessados em ver a recente onda de fortalecimento conservador na América Latina derrotar Lula na eleição brasileira.
“Essa decisão não é um episódio isolado”, afirmou o governo Lula em comunicado sobre a revogação do visto pelos EUA. “Ela faz parte de uma escalada deliberada de medidas hostis contra o Brasil, motivadas por razões ideológicas incompatíveis com uma parceria bilateral que sempre se fundamentou no respeito mútuo.”
O governo Trump revogou nesta terça-feira o visto da embaixadora do Brasil nos EUA, Maria Luiza Ribeiro Viotti, após acusar o governo Lula de retardar a aprovação diplomática do indicado de Washington para a embaixada em Brasília.
Os EUA não estão expulsando Viotti e restabelecerão seu visto assim que o Brasil aprovar Daniel Perez como embaixador, afirmou um alto funcionário do Departamento de Estado a jornalistas.
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O governo brasileiro disse que o processo de concessão do agrément a Perez, que ainda precisa ser confirmado pelo Senado dos EUA, está em andamento. Também afirmou que a Convenção de Viena sobre Relações Diplomáticas não estabelece prazo para a concessão dessa aprovação.
A disputa em torno do visto é o capítulo mais recente de um conflito mais amplo, intensificado no mês passado, quando os EUA impuseram tarifas de 25% sobre diversos produtos brasileiros, alegando práticas comerciais desleais.
Lula considerou as tarifas mais um ataque à soberania brasileira por parte de Trump, que no ano passado impôs tarifas ao país em uma tentativa malsucedida de ajudar o pai de Flávio, o ex-presidente Jair Bolsonaro, a evitar uma condenação por acusações de planejar um golpe de Estado após perder a eleição de 2022.
No fim de julho, o Brasil também bloqueou os vistos de dois altos funcionários do Departamento de Estado, alegando preocupação de que pretendiam lançar dúvidas sobre a integridade do sistema eleitoral brasileiro durante uma visita planejada. O Departamento de Estado negou que esse fosse o objetivo da viagem.
A rivalidade de longa data entre Lula e Milei — um dos aliados mais próximos de Trump na América Latina — também se intensificou nesse período, depois que o líder libertário chamou Lula de “ladrão” durante um evento de lançamento da campanha de Flávio em São Paulo.
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Milei também acusou Lula de interferir na eleição argentina de 2023, citando o trabalho de marqueteiros brasileiros para seu adversário.
Inicialmente, o Brasil chamou de volta seu embaixador em Buenos Aires para consultas e convocou o embaixador argentino em Brasília para prestar esclarecimentos.
A convocação de um embaixador para consultas é considerada uma forte reprimenda diplomática. Foi uma medida sem precedentes entre Brasil e Argentina, países vizinhos cujas relações resistiram a períodos de intensas divergências políticas.
Mesmo assim, Milei repetiu os ataques em entrevista a uma rádio no domingo, citando a condenação anterior de Lula por corrupção, posteriormente anulada, e afirmando, sem apresentar provas, que o líder brasileiro também deu apoio financeiro ao adversário dele na eleição argentina.
“Eu não ataquei o povo brasileiro”, afirmou Milei na entrevista. “Eu falei do Lula, o corrupto.”
A decisão do Brasil deixará a embaixada em Buenos Aires sob o comando de um encarregado de negócios, e não de um embaixador, por prazo indeterminado, até que Milei interrompa os ataques, disse a autoridade brasileira, que pediu anonimato.
Os brasileiros irão às urnas em 4 de outubro para o primeiro turno da eleição presidencial, com um possível segundo turno três semanas depois.
As disputas tendem a lançar uma sombra sobre a corrida eleitoral enquanto Lula busca se apresentar como defensor da soberania brasileira. Sua taxa de aprovação subiu durante o primeiro embate comercial com Trump no ano passado.
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