Goldman eleva projeção da Selic para 13,25% em 2026 diante do choque do petróleo

Banco de Wall Street avalia que a deterioração das expectativas de inflação e incerteza global tendem a levar a uma postura de maior cautela do Banco Central; Copom se reúne nesta semana

Por

Bloomberg Línea — O Goldman Sachs elevou sua projeção para a taxa Selic ao final de 2026 para 13,25% ao ano, segundo relatório divulgado na segunda-feira (27).

A revisão — a segunda em poucos dias, após o banco de Wall Street já ter elevado a estimativa a 13,00% em 21 de abril — reflete um cenário de maior cautela do Banco Central diante da combinação de deterioração das expectativas de inflação e incerteza global elevada provocada pelo choque do petróleo decorrente do conflito no Oriente Médio.

A projeção contrasta com as apostas que prevaleciam no mercado antes do início da guerra no Irã, quando havia perspectiva de um ciclo de cortes mais amplo ao longo do ano. Com a Selic atualmente em 14,75% ao ano, o banco americano passa a trabalhar com um ritmo de afrouxamento mais gradual e limitado.

“A deterioração das expectativas de inflação, as políticas fiscais e quase-fiscais ativas, o balanço de riscos assimétrico para cima e a elevada incerteza global demandam uma calibração cautelosa da política monetária”, afirma o documento, assinado pelos economistas Alberto Ramos, Sergio Armella, Santiago Tellez e Jorge Moscoso.

O relatório projeta a Selic em 14,25% ao final do segundo trimestre, 13,50% no terceiro trimestre e 13,25% no encerramento de 2026, chegando a 10,75% apenas ao fim de 2027.

Leia também: Citi vê oportunidades para a América Latina em meio ao choque do Oriente Médio

O Comitê de Política Monetária (Copom), do Banco Central, se reúne nesta semana para definir a taxa básica de juros, em decisão que deve ser publicada na quarta-feira (29). A maior parte dos economistas do mercado financeiro espera que o BC realize um corte de 0,25 ponto percentual, para 14,50% ao ano, e reforce a postura de cautela.

Inflação mais alta por mais tempo

A projeção de inflação para o Brasil em 2026 foi revisada de 4,8% para 5,0%, bem acima do centro da meta (3%). Para 2027, o banco projeta recuo para 4,0%. O Goldman cita como fatores complicadores um hiato do produto positivo, mercado de trabalho apertado e a dificuldade de convergência da inflação à meta nesse ambiente.

Nos combustíveis, o banco observa que os preços da gasolina subiram 7% desde a semana de 23 de fevereiro, pouco antes do conflito no Oriente Médio — abaixo do registrado em outros países da região —, reflexo de uma combinação de subsídios diretos, isenções fiscais, política de preços da Petrobras e legislação antiabuso mais rígida. No caso do diesel, produto do qual o Brasil é importador líquido, a alta foi de 23%.

O documento estima que o gap entre o preço praticado ao consumidor e o preço livre está em cerca de 20% — ou próximo de 40% desconsiderando os subsídios. Parte dos custos fiscais dessas medidas deve ser coberta por uma alíquota mais alta sobre exportações de petróleo cru e outras receitas extraordinárias ligadas ao setor.

Leia também: Durigan diz que guerra pode forçar BCs a agir: ‘os riscos vão muito além do Brasil’

Apesar de classificar o Brasil como exportador líquido de petróleo — o que o coloca em posição relativamente favorável frente a um choque de preços —, o Goldman ressalta que o país não está imune aos efeitos do conflito.

O banco manteve a projeção de crescimento do PIB em 1,9% para 2026, sem revisão em relação à estimativa anterior, e em 1,8% para 2027.

A manutenção da projeção de crescimento, mesmo diante de um ambiente de juros mais altos e inflação mais elevada, é explicada pelo banco pelo estímulo de medidas fiscais, quase-fiscais e de crédito que o governo deve implementar às vésperas das eleições presidenciais do quarto trimestre de 2026.

O banco vê esse conjunto de fatores sustentando a atividade no curto prazo, mas ao mesmo tempo tornando o trabalho do Banco Central mais difícil.

No campo fiscal, o Goldman projeta déficit nominal de 8,6% do PIB em 2026, com a dívida bruta do governo geral chegando a 82,9% do PIB no ano. A conta corrente deve registrar déficit de 2,2% do PIB em 2026, estreitando levemente frente aos 2,9% de 2025.

Cenários de risco

O Goldman revisou o cenário-base para o Brent para US$ 105 por barril em maio, com recuo gradual para US$ 90 ao final de 2026 e US$ 80 ao final de 2027. As médias anuais foram projetadas em US$ 90 e US$ 85, respectivamente, acima dos US$ 83 e US$ 80 estimados anteriormente.

Em um cenário adverso, com recuperação mais lenta do Estreito de Ormuz e perda de produção de 0,5 milhão de barris por dia no Oriente Médio, o Brent poderia atingir US$ 125 em maio e ficar acima de US$ 100 no quarto trimestre de 2026.

Já em um cenário severamente adverso, com perda de 2,5 milhões de barris por dia, o petróleo poderia chegar a US$ 145 em maio e permanecer próximo de US$ 120 até o fim do ano.

Nesse cenário mais grave, o banco alerta que o dilema de política monetária na América Latina poderia se tornar mais complexo, com o foco potencialmente se deslocando da inflação para o crescimento — aproximando a região de um quadro de estagflação.

Leia também

Inflação de alimentos volta a assombrar consumidor e pressiona Lula antes das eleições

Gastos de brasileiros com viagens internacionais crescem quase 28% em março, aponta BC