Economistas veem risco moderado da guerra no Irã para o IPCA, indica pesquisa

Sondagem com 14 economistas realizada pela Bloomberg News, aponta impacto para a inflação brasileira por meio da alta do petróleo e do dólar

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Bloomberg — A guerra no Irã pode pressionar a inflação brasileira por meio da alta do petróleo e do dólar, com potencial de adicionar até 0,9 ponto percentual ao IPCA dependendo do tamanho do impacto, segundo economistas consultados em pesquisa realizada pela Bloomberg News.

Dos 14 entrevistados no levantamento, oito afirmaram que o conflito deve trazer mudanças pouco relevantes para a inflação de 2026, com variações esperadas entre -0,2 a 0,2 ponto percentual. Já outros seis avaliam que o impacto deve ser moderadamente mais alto, com estimativas de um choque de entre 0,3 e 0,9 pp nas suas projeções em relação às previsões anteriores.

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O BTG Pactual, em relatório divulgado em 2 de março, disse que em um cenário em que o preço do barril do petróleo do tipo Brent se mantém em US$ 80 ao longo do horizonte, a estimativa é de um impacto de 0,6 pp no Índice Nacional de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA) de 2026, o que levaria a taxa esperada de 4,1% para 4,7%, nos cálculos dos analistas Iana Ferrão, Fabio Serrano e Ederson Schumanski.

As principais via de transmissão da inflação são pelos preços de energia, especialmente da gasolina, caso houver repasse pela Petrobras, e o câmbio, com a valorização do dólar.

Desde o começo da guerra, o petróleo acumula alta de quase 17%. O movimento tende a pressionar os combustíveis e os custos de transporte, com efeitos secundários sobre outros itens do índice como alimentação, principal contribuinte do índice de preços.

Sobre a reunião do Copom deste mês, apenas dois economistas reduziram sua aposta de corte de 0,50pp para 0,25pp. Os demais mantiveram a projeção em 0,50pp — exceto um participante que já previa um corte menor antes do início da guerra.

Para o PIB, doze dos entrevistados não enxergam mudança relevante nas estimativas de crescimento, enquanto um deles projeta impacto levemente negativo. A avaliação predominante é que, até o momento, trata-se mais de um choque de preços do que de atividade, com efeitos limitados sobre a dinâmica do produto se a duração da guerra ficar restrita a poucas semanas.

“Os preços mais altos do petróleo e a fraqueza do real, se persistirem, podem elevar os riscos para a inflação e limitar o espaço para o afrouxamento pelo BC”, disse Dan Pan, economista para Américas do Standard Chartered.

“Dito isso, não está claro por quanto tempo isso vai durar e eu não esperaria que o BC se desviasse do seu plano de flexibilização no curto prazo apenas com base nisso.”

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A economista acrescentou que o Copom pode destacar a atual incerteza presente no cenário junto com a entrega da redução inicial do ciclo. Ela pontuou ainda que o PIB brasileiro do quarto trimestre, divulgado na terça-feira, apontou que a demanda doméstica está em esfriamento.

“Com a postura monetária extremamente contracionista, ainda há espaço para cortes de juros”, disse ela, que projeta uma flexibilização de 0,50pp em março e Selic em 12,5% ao fim de 2026.

Embora haja ajustes pontuais, a maioria vê que é cedo para fazer mudanças mais abrangentes nas estimativas. Economistas destacam que o cenário ainda depende da duração e da intensidade do conflito e que o avanço recente do petróleo pode se mostrar temporário.

Caso as hostilidades se prolonguem ou se agravem, mantendo os preços de energia elevados por mais tempo, as projeções tendem a ser reavaliadas.

O BC publicou nesta sexta-feira o Questionário Pré-Copom, incluindo uma nova pergunta específica sobre o impacto dos conflitos no Oriente Médio na inflação brasileira, via commodities e ativos financeiros, sinalizando preocupação da autoridade monetária com o tema.

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