Desaprovação a Lula e novo Congresso favorecem Flávio, diz sócio da Real Time Big Data

Cientista político Bruno Soller, da Real Time Big Data, diz que Lula precisaria de 65% dos votos dos demais candidatos para virar a disputa; para ele, falta Flávio mostrar quanto vai encarar do ajuste fiscal

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Bloomberg Línea — A eleição presidencial de 2026 chega ao segundo turno como uma escolha entre continuidade ou mudança, em um ambiente de reprovação ao governo e com um eleitorado que deu ao PL um terço do Senado e a maior bancada na Câmara, com 121 deputados.

Para Bruno Soller, cientista político e sócio do instituto de pesquisas Real Time Big Data, essa combinação coloca o senador Flávio Bolsonaro (PL) como favorito para vencer o presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) e daria a um eventual novo governo condições favoráveis de aprovar reformas.

Flávio terminou o primeiro turno, no domingo (4), com 47% dos votos, à frente de Lula, com 45%. Para virar a disputa, o presidente precisaria de cerca de 65% dos votos dados aos demais candidatos no primeiro turno, segundo os cálculos de Soller, uma hipótese que ele considera improvável, dado o perfil dos candidatos e de seus eleitores.

“O que a gente viu no domingo não é uma vitória ainda, mas a gente pode dizer que virtualmente o Flávio Bolsonaro é presidente da República”, disse Soller em entrevista ao podcast Radar Eleitoral, da Bloomberg Línea.

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Soller se baseia na desaprovação ao governo, que, segundo ele, é a premissa mais importante de qualquer eleição.

De acordo como ele, as pesquisas apontavam desde o início da campanha que a maioria da população desaprovava o governo Lula. Nas últimas semanas antes do primeiro turno, a fatia que avaliava o governo como regular diminuiu. A avaliação positiva também subiu, mas a parcela que considerava o governo ruim ou péssimo cresceu em ritmo mais acelerado.

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O cientista político atribui esse quadro a uma década sem melhora nas condições de vida da população, que atravessou o fim do governo Dilma Rousseff, o governo Michel Temer e a pandemia sob Jair Bolsonaro.

O clima de mudança, no entanto, não se converteu de imediato em votos para Flávio. Segundo Soller, o senador era visto como representante do pai, também reprovado nas urnas em 2022. Ao longo da campanha, o eleitor de oposição buscou alternativas em Ronaldo Caiado, Romeu Zema, Renan Santos e Augusto Cury, que chegou a marcar entre 7% e 11% nas pesquisas após o debate da Band.

A crise envolvendo o Supremo Tribunal Federal (STF) nas semanas finais da campanha levou esse eleitorado para Flávio, na avaliação de Soller. “Você vê um eleitor falando: ‘Olha, quer saber, quem tem de oposição? É o Flávio Bolsonaro. Gostando ou não gostando do Flávio, é quem pode derrotar o Lula’”, disse.

Com isso, a votação dos demais candidatos caiu de cerca de 14% nas pesquisas ao longo da campanha para 8% nas urnas, e boa parte dessa diferença migrou para Flávio ainda no primeiro turno. Para Soller, o restante desse eleitorado também tende a escolher o senador no segundo turno, sobretudo os eleitores de Caiado e de Renan Santos.

Ele também vê pouco espaço para uma mudança pró-Lula pela abstenção, que chegou a 21% no primeiro turno, ou 33 milhões de eleitores. Em seu discurso após o primeiro turno, Lula fez um apelo para que esses eleitores votem no segundo turno. Para Soller, mesmo que parte deles vá às urnas, os votos tendem a se dividir entre os dois candidatos.

Congresso

O resultado das eleições legislativas reforça esse cenário, na avaliação de Soller. O PL elegeu 19 senadores e passará a ter 28 cadeiras no Senado, um terço da Casa, além de quase um quarto da Câmara dos Deputados. “Do ponto de vista institucional, o PL foi o grande vencedor dessas eleições, não tem dúvida nenhuma em relação a isso”, disse.

Com Flávio eleito, segundo ele, “você vai ter um presidente com grande apoio no Congresso Nacional”. Perguntado se essa composição favorece a aprovação de reformas econômicas e de medidas de ajuste fiscal, Soller respondeu: “Ajuda demais, favorece demais.”

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O cientista político fez uma ressalva. “Há que se entender qual é o projeto de país que o Flávio tem, porque não foi apresentado”, disse. Ele lembrou que não houve debate entre os candidatos no primeiro turno.

A nova composição também pode mudar a relação entre o Legislativo e o Supremo Tribunal Federal (STF). Soller citou o ex-presidente da Câmara Arthur Lira (PP-AL) como potencial candidato à presidência do Senado. Lira é ligado ao candidato a vice na chapa de Flávio, Alfredo Gaspar.

Ajuste fiscal

Para Soller, o mercado financeiro buscou ao longo da campanha uma candidatura de oposição capaz de vencer Lula, e não necessariamente Flávio. “Nem era o Flávio talvez o preferido também do mercado, mas queria alguém que derrotasse o Lula”, disse. O motivo é “o tema mais caro hoje para o mercado, chamado ajuste fiscal”.

A dúvida, segundo ele, é o compromisso de Flávio com essa agenda. “O que tem que se ver é o quanto que o Flávio vai encarar de um ajuste fiscal, de verdade”, afirmou.

Soller lembrou que a pandemia limitou as condições econômicas do governo de Jair Bolsonaro, mas disse que o ex-presidente não deu indicações de que faria os ajustes necessários. “Foram muito tímidas as medidas”, afirmou. Segundo ele, isso deixou o mercado desanimado no fim daquele governo.

O cientista político apontou o senador Rogério Marinho (PL-RN), coordenador da campanha de Flávio, como uma figura que deve ser central em um eventual governo. No governo de Jair Bolsonaro, Marinho teve atuação na área econômica e às vezes fazia contraponto ao então ministro da Economia, Paulo Guedes.

“Há uma expectativa de que o Flávio anuncie uma equipe econômica agora na corrida para o segundo turno, até para já dar um indicativo para o mercado e acalmar completamente esse mercado”, disse.

Para Soller, o segundo turno é a oportunidade de Flávio apresentar propostas ao eleitorado. “Talvez seja o momento do Flávio se apresentar mais para o eleitorado. E não ser só um voto de protesto anti-Lula, e ser um voto até favorável ao Flávio”, disse.

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