De Kayath a Mansueto: os cotados para a economia de Flávio Bolsonaro, segundo fontes

Melhora das perspectivas eleitorais do senador atraiu profissionais de destaque do mercado financeiro para as discussões sobre um eventual governo, enquanto investidores aguardam sinais sobre como a próxima equipe pretende enfrentar o déficit público e estabilizar a dívida

Por

Bloomberg — O ex-chefe do banco de investimento do Credit Suisse no Brasil. O economista-chefe do maior banco de investimento da América Latina. O ex-presidente do Banco Central. Um alto executivo do Bank of America Corp.

Marcelo Kayath, Mansueto Almeida, Roberto Campos Neto e Alexandre Bettamio despontaram como os nomes de maior destaque entre os cotados para comandar a economia caso o senador Flávio Bolsonaro vença o segundo turno das eleições presidenciais no fim deste mês.

A informação é de pessoas a par das discussões dentro da campanha e no mercado financeiro ouvidas pela Bloomberg News, que pediram para não ser identificadas ao tratar de conversas confidenciais.

A presença de nomes desse calibre representa uma mudança significativa em relação aos primeiros meses da campanha.

⟶ Assine as newsletters da Bloomberg Línea e receba as notícias do dia em primeira mão no e-mail.

Naquela época, as perspectivas de uma vitória pareciam remotas, em parte porque seu pai — Jair — havia sido condenado por tentar um golpe de Estado após perder a eleição de 2022.

Boa parte da elite empresarial e financeira do país se distanciou ainda mais de Flávio Bolsonaro depois que ele não conseguiu impressionar investidores e, mais tarde, foi associado a Daniel Vorcaro, no centro da maior fraude do sistema financeiro brasileiro.

Agora, a dinâmica se inverteu. Flávio surpreendeu ao terminar à frente do presidente Luiz Inácio Lula da Silva no primeiro turno da votação, em 4 de outubro, alimentando um rali dos ativos brasileiros. A virada deu a ele algo que faltou durante boa parte da campanha: uma ampla gama de nomes respeitados do mercado financeiro que poderiam, potencialmente, integrar sua equipe.

“Não é surpresa que Bolsonaro atraia figuras de maior destaque à medida que aumentam suas chances de chegar ao poder”, disse Adriana Dupita, economista para o Brasil da Bloomberg Economics. “Um nome de peso e com trânsito no mercado para o Ministério da Fazenda poderia ajudar bastante a alimentar a alta dos mercados caso Bolsonaro vença.”

Leia também: NTN-B tem rali ‘estelar’ com Flávio Bolsonaro, e mercado espera mais alívio

Mas, “mais do que um nome, o que mais falta a Bolsonaro é um conjunto viável e sensato de ideias para entregar o ajuste fiscal que os mercados esperam”, acrescentou Dupita. “Para isso, seria melhor ter alguém que, além de boas conexões com o mercado, também conheça o funcionamento do setor público e das políticas públicas, e saiba como o Congresso opera.”

Quem assumir o cargo terá pela frente um quadro fiscal difícil. O déficit do setor público está próximo de 10% do Produto Interno Bruto, e a persistente preocupação fiscal tem ajudado a manter elevados os custos de financiamento, mesmo enquanto o Banco Central reduz gradualmente sua taxa básica de juros.

Flávio prometeu conter gastos, reduzir a burocracia e cortar impostos, mas ainda não apresentou um plano detalhado mostrando como pretende estabilizar a dívida brasileira.

O súbito interesse de líderes empresariais pelo senador lembra a forma como executivos americanos trataram Donald Trump.

Nos dias e semanas após apoiadores de Trump invadirem o Capitólio dos Estados Unidos, em janeiro de 2021, na tentativa de reverter sua derrota eleitoral, o mundo corporativo americano repudiou amplamente o republicano e cortou laços financeiros com seus aliados. Mas, quando Trump conquistou um segundo mandato, em novembro de 2024, líderes empresariais, animados com a perspectiva de cortes de impostos e desregulamentação, voltaram a se aproximar dele.

Leia também: Eurasia eleva de 45% para 70% a chance de vitória de Flávio Bolsonaro no segundo turno

No Brasil, Flávio contou com a ajuda de sua principal assessora econômica nos primeiros dias de sua campanha: Daniella Marques. A ex-presidente da Caixa Econômica Federal se ofereceu para ajudar o senador quando sua candidatura ainda enfrentava dificuldades para ganhar credibilidade e se licenciou da gestora de recursos Legend. Rapidamente, tornou-se o rosto do programa econômico de Flávio e sua principal interlocutora junto ao mercado financeiro.

Naquele momento, ele enfrentava dúvidas sobre quem conseguiria recrutar para comandar a política econômica, e ela parecia a principal candidata ao cargo. Marques, de 46 anos, ainda pode se tornar ministra da Fazenda, mas, com novos nomes na disputa, agora também é considerada para outros cargos de relevância na equipe, segundo pessoas a par do assunto.

Leia também: Euforia nos mercados depende de plano ainda incerto de Flávio Bolsonaro

A seguir, um breve perfil dos principais nomes cotados para comandar o Ministério da Fazenda em um eventual governo Flávio Bolsonaro:

Marcelo Kayath

Kayath, de 62 anos, ex-chefe do Credit Suisse no Brasil e atualmente sócio da gestora QMS, é o nome preferido de alguns líderes empresariais para o cargo.

Executivos têm conversado com ele na tentativa de entender os contornos de um eventual governo de Flávio, segundo pessoas a par do assunto ouvidas pela Bloomberg Línea. Ele levaria ao cargo décadas de experiência no mercado financeiro. Kayath tem defendido que o próximo governo brasileiro precisa conter os gastos obrigatórios e estabilizar a dívida pública.

Um complicador para sua eventual indicação é o fato de ele ter apoiado publicamente Lula na eleição presidencial de 2022 e, em 2023, ter sido considerado para uma vaga na diretoria do Banco Central dada a sua relação próxima com o então ministro da Fazenda, Fernando Haddad. Não está claro como isso pode afetar sua imagem entre os assessores de Flávio. Fora do mercado financeiro, Kayath é um violonista clássico reconhecido internacionalmente. Kayath não respondeu a um pedido de comentário.

Mansueto Almeida

Almeida, de 59 anos, ex-secretário do Tesouro Nacional, é amplamente considerado um dos principais especialistas do Brasil em política fiscal e finanças públicas.

Ele integrou o governo de Jair Bolsonaro e ajudou a levar adiante esforços para conter os gastos públicos e reformar o sistema previdenciário antes de deixar o serviço público em 2020.

Atualmente, é economista-chefe do BTG Pactual. O BTG e Mansueto não comentaram.

Roberto Campos Neto

Campos Neto, de 57 anos, presidiu o Banco Central de 2019 até o fim de 2024, após ser indicado por Jair Bolsonaro. Antes disso, passou cerca de duas décadas no Banco Santander Brasil. Atualmente vice-presidente do conselho e chefe global de políticas públicas do Nubank, sua experiência está concentrada em política monetária, sistema bancário e mercados financeiros, mais do que em política fiscal.

Sua gestão no Banco Central foi marcada por esforços para ampliar a concorrência no setor bancário, além de iniciativas como o sistema de pagamentos instantâneos Pix, que ajudou a ampliar o papel das fintechs no Brasil. Campos Neto não respondeu a um pedido de comentário.

Alexandre Bettamio

Bettamio, copresidente global de banco corporativo e de investimento do Bank of America, tem fortes vínculos com o meio empresarial e financeiro brasileiro e foi recentemente considerado para o principal cargo na B3.

Ele construiu grande parte de sua carreira assessorando empresas em grandes transações e operações no mercado de capitais e tem defendido políticas econômicas orientadas para o mercado. Nunca ocupou um cargo no governo. O Bank of America não quis comentar.

Nenhuma decisão

O martelo ainda não foi batido e outros nomes podem surgir nos próximos dias e semanas. A campanha não respondeu a um pedido de comentário. O coordenador da campanha, senador Rogério Marinho, indicou que anúncios importantes de nomes para a equipe econômica num eventual governo são improváveis neste momento.

Flávio é agora considerado amplo favorito para vencer a Presidência. Embora Lula seja conhecido por reviravoltas políticas improváveis, nenhum candidato que terminou em segundo lugar no primeiro turno conseguiu vencer o segundo turno desde a redemocratização.

O petista agora tenta ampliar seu apoio e avalia indicar o vice-presidente Geraldo Alckmin — um político de centro que foi bem recebido pelos mercados quando concorreu à Presidência em 2018 — para o Ministério da Fazenda caso seja reeleito, disse a Reuters nesta semana.

Por ora, banqueiros em São Paulo e gestores de fundos de hedge no Rio de Janeiro estão concentrados em quem Flávio poderá escolher para a equipe e qual será o plano dessa pessoa para colocar as finanças do país em ordem.

“Eventual presidente estará muito mais preocupado com a questão política do que com essa questão de fazer ajuste econômico mais severo”, disse Nelson Marconi, professor de economia da Fundação Getulio Vargas. “Vai ter pressão muito forte do mercado, mas até eles concordarem e terem uma clareza, vai levar um certo tempo.”

Veja mais em bloomberg.com