Copom: guerra no Irã ‘racha’ apostas para o primeiro corte do BC em quase dois anos

Se antes a expectativa era de um corte de 0,5 ponto da Selic na reunião do Copom na semana que vem, agentes do mercado estão mais divididos diante da alta do petróleo e da pressão sobre a inflação

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Bloomberg — Os agentes do mercado financeiro estão divididos sobre o tamanho do primeiro corte de juros do Banco Central em quase dois anos.

Diante dos impactos da guerra no Irã nos preços do petróleo, as apostas em um ritmo inicial menor de cortes — de 0,25 ponto percentual — têm ganhado adeptos tanto no mercado de opções como entre analistas, enquanto a dose maior de 0,5 ponto percentual se mantém na mesa.

A elevação de quase 40% do preço do petróleo Brent desde o começo do conflito, em 28 de fevereiro, para cerca de US$ 100 o barril fez com que a curva de juros mostrasse uma chance menor de um corte de 0,50 ponto percentual na reunião da semana que vem.

O DI reduziu a precificação de redução de 48,3 pontos-base pré-guerra para 20 pontos, segundo dados extraídos da curva dos contratos futuros de depósitos interfinanceiros.

“Se tem alguma coisa que faria o BC sair da rota pré-programada de cortar 0,50 ponto percentual, seria o risco global sintetizado pelo preço do petróleo”, disse Ivo Chermont, economista-chefe da Quantitas.

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No mercado de opções de Copom na B3, o preço da opção de um corte de 0,50 ponto percentual caiu de 77,5 para 39 em 11 de março, ao passo que a de corte de 0,25 ponto percentual avançou de 20 para 51 no mesmo período.

De acordo com o sistema de expectativas de mercado do Banco Central, a mediana dos economistas ainda é de um corte de 0,5 ponto percentual.

Pesquisa da Bloomberg com dez estimativas mostra que cinco delas apoiam um corte de 0,5 ponto percentual e outras cinco preveem flexibilização de 0,25 ponto percentual.

Os operadores também passaram a prever um ciclo de cortes mais curto pelo Copom. De acordo com a curva do DI, a Selic deve encerrar o ciclo de cortes em cerca de 12,75% em junho de 2027. Antes da guerra, a expectativa embutida nos juros futuros era de uma taxa terminal perto de 12%.

Passos ‘cuidadosamente analisados’

O diretor de política monetária do Banco Central, Nilton David, disse na semana passada que a calibragem dos juros para a próxima reunião “segue válida”, acrescentando que os próximos passos serão “cuidadosamente analisados”.

David pontuou que a política monetária deve ser conduzida com serenidade, o que “não significa inação”, mas sim, “deixar a emoção de fora dos dados”. Ele ressaltou que a calibragem de juros visa deixar a Selic ainda contracionista.

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A avaliação de analistas que defendem a opção de 0,25 ponto percentual é a de os riscos aumentaram, considerando que o salto do petróleo deve alterar as expectativas de inflação, que ainda operam acima da meta perseguida pelo Banco Central no horizonte relevante.

“Sob uma projeção de inflação mais elevada no curto prazo e diante do aumento significativo da incerteza no cenário global em comparação com a reunião anterior, acreditamos que o Copom está mais propenso a reduzir a taxa Selic em 0,25 ponto percentual, para 14,75%”, disse o Citi, em relatório assinado por analistas incluindo os economistas Leonardo Porto e Thais Ortega.

Para o banco, a autoridade monetária deve comunicar cautela adicional devido ao aumento da imprevisibilidade e dizer que seguirá “vigilante”.

Os defensores de 0,50 ponto percentual — opção que estava consolidada nos preços até o conflito no Oriente Médio — sustentam que os juros estão bastante contracionistas e que, assim, o Copom tem espaço de sobra para iniciar o ciclo de redução previsto.

Eles adicionam que a situação no Oriente Médio pode ser revertida rapidamente e voltar a aliviar os preços do petróleo.

“Com 15% de Selic, o BC possui um grande espaço de corte para ir para o patamar neutro”, disse Gustavo Okuyama, gestor de renda fixa da Porto Seguro Asset.

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Após falas de Nilton David na semana passada e com a performance positiva do real, “o BC tem conforto em iniciar o ciclo de cortes com 0,50 ponto percentual de queda, indicando corte de 0,50 ponto percentual para a próxima reunião, isso considerando que o petróleo continue operando perto do nível atual”.

Para Gustavo Pessoa, sócio-fundador da Legacy Capital que defende uma redução de 0,50 ponto percentual, o Copom não deveria mudar a postura e, em vez de observar o “preço de tela” da commodity, deveria “olhar o preço do petróleo no horizonte relevante de política monetária”.

Caso se confirme, esta será a primeira queda da taxa básica de juros desde 8 de maio de 2024.

As expectativas de 9 analistas e economistas para o Copom de março:

Gustavo Pessoa, sócio-fundador da Legacy Capital

  • “A disrupção que está acontecendo no petróleo devido ao fechamento do estreito de Ormuz é temporária e deve ser revertida muito em breve”
  • “Apesar das incertezas no curtíssimo prazo, o Copom irá cortar 0,5 ponto percentual nesta reunião e ganhará tempo para avaliar em como proceder o restante do ciclo”

Citi, em relatório

  • Copom deve comunicar, nos próximos passos, que a incerteza muito maior no cenário global recomenda cautela adicional na condução da política monetária
  • Deve pontuar ainda que comitê permanecerá vigilante, “com os próximos passos da política monetária dependendo dos dados que vierem a ser divulgados e das perspectivas global e doméstica”

Goldman Sachs, em relatório

  • Banco passou a projetar corte de 0,25 ponto percentual da Selic na reunião do Copom da próxima semana, diante da forte alta nos preços do petróleo com o conflito no Oriente Médio
  • Prevê taxa Selic de 12,5% ao fim de 2026
  • Banco também elevou a projeção de inflação no Brasil em 0,3 ponto percentual para 4,4%

Benjamin Souza, estrategista para América Latina da BlackRock

  • Projeta que o BC irá reduzir a Selic em 0,5 ponto percentual e que recente volatilidade provavelmente se refletirá na comunicação do BC, “que deverá adicionar um tom de cautela”

Denis Ferrari, gestor de renda fixa da Kinea Investimentos

  • Kinea mudou perspectiva de corte de 0,5 ponto percentual para 0,25 ponto percentual, “não pelo efeito da guerra e do petróleo”, mas pela atividade, que seguiu forte nos últimos dados, e a inflação bastante desconfortável, tanto do IPCA-15 quanto do IPCA
  • “Principal termômetro para medir risco externo ainda é o câmbio, então pelo câmbio é bem tranquilo cortar”

Marianna Costa, economista-chefe da Mirae Asset Brasil

  • Conflito não adia início do ciclo de afrouxamento monetário, mas “pode fazer com que a autoridade tenha uma atitude um pouco mais cautelosa e inicie esse ciclo num ritmo um pouco menor do que era o projetado”
  • Guerra tem “impacto mais relevante no tamanho do ciclo total do que, na verdade, no ritmo em que ele começa os cortes”
  • “Entendo que 0,50 ponto percentual continua a ser o caminho ou a magnitude em que ele deveria adotar, mas não consigo descartar o corte de 0,25 ponto percentual”

Ian Lima, gestor de renda fixa da Inter Asset

  • Previa corte de 0,50 ponto percentual, mas passou a projetar 0,25 ponto percentual após o conflito no Oriente Médio, visto que “o próprio diretor Nilton David disse na semana passada que não considerar a guerra no cenário não parece apropriado”
  • “Quando esta composição do BC tem duas opções, sempre opta pelo conservadorismo justamente para não comprometer a credibilidade” que foi adquirida com decisões passadas

Ivo Chermont, economista-chefe da Quantitas

  • Se petróleo daqui até o Copom estiver abaixo dos US$ 80-US$ 85 e o câmbio se mantiver bem comportado ao redor de R$ 5,20-R$ 5,30, BC corta 0,50 ponto percentual
  • Caso cenário volte para um petróleo romper patamar de US$ 100-US$ 120 e o câmbio se aproximar de R$ 5,40 de novo, “acho que o BC dá uma postergada no plano de começar o ciclo de corte e dá manutenção”

Natalia Gurushina, economista para mercados emergentes da consultoria de investimentos Van Eck Associates

  • Prevê corte de 0,25 ponto percentual do Banco Central
  • “Acho que faria sentido o BC começar os cortes de maneira mais cautelosa, ou seja, com menos cortes entre agora e junho”

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