Brasil se prepara para boom de baterias e atrai interesse de Tesla e chinesas

País deve deve realizar seu primeiro leilão de energia para baterias em escala de rede em abril, o que tem atraído interesse principalmente de chinesas, como a Huawei; Tesla, Petrobras e Axia também estão entre as que enviaram comentários durante a consulta pública

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Bloomberg — O Brasil deve realizar em abril seu primeiro leilão de energia elétrica para baterias em escala de rede, e é esperado que empresas chinesas — que já investiram pesadamente no setor elétrico do país — sejam as principais concorrentes, possivelmente disputando com companhias como a Tesla e a Petrobras.

É mais uma oportunidade para as empresas chinesas expandirem sua presença no Brasil. Entre 2007 e 2024, projetos do setor elétrico representaram 45% dos investimentos da China na maior economia da América Latina, totalizando US$ 35 bilhões, de acordo com o Conselho Empresarial Brasil-China, uma entidade sem fins lucrativos.

O leilão ocorre após outros países da América Latina começarem a contratar ou construir projetos de baterias em escala de concessionárias, segundo a empresa de pesquisa BloombergNEF.

O Chile foi um dos primeiros a adotar a tecnologia e planeja uma expansão significativa de baterias nos próximos cinco anos. A Argentina contratou 667 megawatts em seu primeiro leilão de armazenamento de energia, realizado em setembro passado, com a capacidade prevista para entrar em operação até 2027. A estatal de energia do México anunciou pelo menos 2,2 gigawatts de armazenamento em seu plano de expansão de cinco anos.

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O boom global da geração de energia solar e eólica levou ao problema crônico do corte de geração, conhecido com curtailment: as usinas de energia renovável são forçadas a desligar quando não há demanda suficiente por eletricidade. As baterias podem ajudar a absorver essa energia barata e devolvê-la na rede quando houver mais demanda.

Em 2025, o Brasil perdeu, em média, cerca de 26% de sua geração solar e 19% de sua geração eólica devido aos cortes de energia, segundo Vinicius Nunes, associado da BNEF em São Paulo. Isso representaria uma perda de R$ 7 bilhões, de acordo com uma estimativa.

O governo brasileiro disse esperar que o leilão garanta 2 gigawatts de capacidade. A BNEF estima que as adições anuais de armazenamento de energia em baterias no Brasil poderá alcançar cerca de 1,3 gigawatts até 2030.

As empresas chinesas trazem algumas vantagens comparativas, afirma Larissa Wachholz, sócia da Vallya, consultoria focada na China. Elas lideram a produção global de baterias e, como os maiores investidores mundiais em energia renovável, já enfrentaram os desafios da integração de baterias às redes elétricas.

“Já há no Brasil um grande número de empresas [chinesas] que conhecem o setor elétrico e se sentem confortáveis em entrar também como operadores de sistema de armazenamento”, disse.

No entanto, elas não terão o campo livre. Entre as empresas que enviaram comentários durante a consulta pública que antecedeu o leilão estavam a Tesla, a Petrobras e a Axia Energia.

As empresas que desejam atuar como integradoras de sistemas — combinando hardware, software e controles em um sistema de baterias — apresentarão seus próprios lances no leilão.

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Aquelas que desejam fornecer equipamentos formarão parcerias com outras empresas. Espera-se que os fabricantes chineses dominem o fornecimento de equipamentos, independentemente de quem ganhe os contratos.

“A China controla desde a fabricação das células de bateria até a fabricação dos insumos necessários para fazer essas células”, disse Markus Vlasits, presidente da associação de armazenamento de energia do Brasil, conhecida como Absae.

Entre as dezenas de afiliadas da Absae está a gigante chinesa de tecnologia Huawei Technologies, que opera no Brasil há quase três décadas e planeja participar do leilão como fornecedora de equipamentos.

“Nossa estratégia é encontrar parceiros para trabalharmos juntos e vencermos o leilão”, disse Roberto Valer, diretor de tecnologia da Huawei Digital Power Brasil. “Não se trata simplesmente de comprar uma bateria na China e esperar que ela chegue ao local designado pensando que tudo vai dar certo.”

Mais conhecida por seus equipamentos de telecomunicações, nos últimos anos, a Huawei avança no setor global de energia e na América Latina. A empresa chinesa tem fornecido inversores para fazendas solares na Argentina, armazenamento de energia para hospitais no Peru e construiu infraestrutura de carregamento para caminhões elétricos pesados ​​no México.

No mês passado, a consultoria Wood Mackenzie classificou a Huawei como a principal fabricante mundial de inversores, necessários para parques solares. As vendas da divisão de energia da Huawei contribuíram com quase 10% de sua receita total em 2024.

A Huawei também atua como fabricante e integradora de sistemas de armazenamento de energia em baterias para redes elétricas. Embora não produza células de bateria — que são fornecidas por parceiros globais —, a empresa projeta e fabrica a arquitetura do sistema, incluindo pacotes de baterias, sistemas de conversão de energia e software de gestão.

Em abril passado, a empresa recebeu o ministro de Minas e Energia, Alexandre Silveira, na China para apresentar seus sistemas de baterias. Também tem trabalhado proativamente na formulação de regulamentações, com a realização de workshops com a agência reguladora de energia do Brasil, a Aneel, e a Empresa de Pesquisa Energética (EPE).

Outras empresas chinesas com presença crescente no Brasil também demonstraram interesse em participar da licitação. Entre elas, estão a State Power Investment, proprietária de parques solares e eólicos no país; a China Energy Engineering, que recentemente adquiriu três usinas solares; e a China Three Gorges, que tem forte atuação na geração de energia hidrelétrica e eólica.

Silveira tem se empenhado pessoalmente em atrair empresas chinesas. Ele passou esta semana na China, onde o leilão foi um tema central nas reuniões com a Huawei, a Contemporary Amperex Technology (CATL), Envision Energy e Sany Heavy Industry, entre outras.

“Tenho plena clareza da importância dessa forte relação entre o Ministério de Minas e Energia e os representantes dos setores de energia e mineração da China”, disse em comunicado à imprensa na quarta-feira (21). O ministério não respondeu aos pedidos de comentários.

Muitos países ocidentais consideram os equipamentos críticos fabricados na China ou por empresas chinesas como um risco à segurança nacional. Mas “é improvável que o Brasil veja empresas chinesas com esse tipo de receio”, disse Nunes, da BNEF. E, quaisquer que sejam os resultados do leilão, acrescentou, “muitos dos equipamentos para baterias certamente serão fornecidos por empresas chinesas”.

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