Bloomberg Línea — A decisão do Comitê de Política Monetária (Copom) do Banco Central de cortar a Selic em 0,25 ponto percentual, para 14,75% ao ano, foi vista por economistas das principais instituições financeiras como o início de um ciclo gradual de afrouxamento monetário - com porta aberta para aceleração, mas sem compromisso explícito com o ritmo de cortes.
O tom do comunicado foi lido como mais brando (dovish) do que o esperado por algumas casas, incluindo Citi, Goldman Sachs e XP, o que reforçou a percepção de que novos cortes de juros estão no horizonte, ainda que condicionados à evolução do cenário geopolítico.
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Um ponto que chamou a atenção dos analistas foi a modesta revisão nas projeções de inflação do Copom. Mesmo diante de um choque relevante nos preços do petróleo, a projeção para o horizonte relevante (terceiro trimestre de 2027) subiu apenas de 3,2% para 3,3%.
Para casas como Goldman Sachs e XP, esse resultado foi interpretado como sinal de que o Banco Central mantém confiança na convergência gradual da inflação à meta de 3%, mesmo em um ambiente externo mais adverso.
Outro elemento que pesou na leitura dovish foi a ausência de forward guidance explícita no comunicado. Ao não sinalizar uma pausa, o Copom deixou o caminho aberto para novos cortes.
A frase de que futuras etapas de calibração poderão incorporar novas informações sobre a profundidade e a duração dos conflitos geopolíticos foi interpretada por Citi e Itaú como uma sinalização implícita de que um corte de 50 pontos-base em abril é o cenário mais provável, desde que o ambiente externo não se deteriore mais.
Goldman Sachs apontou quatro elementos que, em conjunto, tornam o comunicado mais brando do que o esperado: a revisão inflacionária menor do que o previsto, um balanço de riscos que praticamente não se alterou, a falta de reconhecimento de que a atividade deve se reacelerar no primeiro trimestre de 2026 e a abertura explícita para ajuste no ritmo dos cortes.
A casa americana trabalha com um corte de 50bps em abril, ainda que com baixa convicção em razão do cenário externo.
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XP também leu o comunicado como dovish, destacando que o Copom atribuiu peso limitado ao choque recente do petróleo e permaneceu confiante na trajetória desinflacionária.
A casa segue projetando cortes de 0,50 ponto percentual nas próximas reuniões, até que a Selic alcance 12,75%, seguidos de uma pausa para avaliação do período eleitoral e do cenário fiscal.
Bradesco e ASA fazem projeção semelhante sobre novos cortes, desde que haja um arrefecimento das tensões no Oriente Médio.
Cortes de 0,25 ponto
Nem todas as casas, porém, compartilham do mesmo otimismo. PicPay e Pine adotaram postura mais conservadora, destacando que a ausência de compromisso com o ritmo do ciclo é justamente o que limita apostas mais agressivas.
Para essas instituições, o ciclo deve seguir com cortes de 0,25 ponto percentual por reunião, embora uma aceleração não seja descartada desde que haja uma melhora clara do ambiente externo e uma reancoragem das expectativas de inflação.
Segundo a pesquisa Focus, do Banco Central, divulgada nesta semana, houve uma revisão para cima nas projeções para o IPCA em 2026. Em média, economistas agora preveem uma alta de 4,1% no ano, ante 3,91% na semana anterior.
O mercado de trabalho resiliente também foi citado por PicPay e Pine como fator que ainda sustenta pressões inflacionárias nos serviços e limita o espaço para movimentos mais agressivos.
Para os economistas, a trajetória dos preços do petróleo, o comportamento do câmbio e a evolução das expectativas de inflação serão os termômetros que vão definir se o Copom tem condições de acelerar o ritmo de cortes em abril ou se precisará manter a cautela.
O que disseram os economistas sobre a decisão do Copom
Leonardo Costa – ASA
“Apostamos em corte de 50bps na reunião de maio, com risco de novo corte de 25bps, caso não haja arrefecimento no conflito no Oriente Médio e recuo dos preços no mercado internacional.”
Fernando Honorato Barbosa – Bradesco
“A aceleração ou não para cortes de 0,50 ponto percentual por reunião dependerá da evolução do cenário no Oriente Médio e seus impactos sobre o Brasil.”
Citi - Leonardo Porto
“Até o momento, mantemos nosso cenário-base de que o Copom tem maior probabilidade de acelerar o corte de juros para 50bps na reunião de 29 de abril, condicionado a alguma redução nos preços do petróleo e na incerteza global.”
Alberto Ramos – Goldman Sachs
“Neste estágio, esperamos que o Copom corte 50bps na próxima reunião; porém com baixa convicção, uma vez que vemos um risco significativo de que o ambiente inflacionário possa se tornar ainda mais desafiador.”
Mario Mesquita – Itaú
“Avaliamos que o comitê provavelmente se sentirá confortável para reduzir a taxa Selic em 50 p.b.”
Ariane Benedito – PicPay
“Avaliamos que o ciclo de cortes seguirá de forma gradual, condicionado à evolução das expectativas de inflação, do ambiente externo e da dinâmica doméstica de atividade e preços, sem sinalização, neste momento, de aceleração no ritmo de flexibilização.”
Cristiano Oliveira – Pine
“Nossa avaliação preliminar é de que o ciclo de flexibilização deve prosseguir de forma gradual, com cortes de 0,25 p.p. nas próximas reuniões, refletindo o elevado grau de incerteza.”
Caio Megale – XP
“A ‘barra’ parece alta para que o Comitê deixe de cortar a taxa Selic novamente em abril.”
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