Diretor que votou por corte de 0,50 ponto diz que BC ainda mira o centro da meta

Paulo Pichetti, à frente de Assuntos Internacionais e um dos indicados por Lula, afirmou à Bloomberg News que ata do Copom foi a oportunidade ‘para deixar claro’ que decisão foi técnica

Paulo Picchetti
Por Maria Eloisa Capurro
14 de Maio, 2024 | 02:44 PM

Bloomberg — O Banco Central está “100% comprometido” em trazer a inflação para o centro da meta, disse o diretor de Assuntos Internacionais da instituição, Paulo Picchetti, enquanto busca tranquilizar investidores cujas expectativas de longo prazo permanecem meio ponto percentual acima da meta de 3%.

Uma decisão dividida na reunião do Copom da semana passada para desacelerar o ritmo de cortes da taxa de juros fez com que os ativos brasileiros despencassem, enquanto os investidores avaliavam as discordâncias entre os membros alinhados com o presidente do BC, Roberto Campos Neto, e aqueles nomeados pelo presidente Luiz Inácio Lula da Silva.

A discordância gerou preocupações sobre a abordagem do BC em relação à inflação uma vez que os indicados por Lula terão maioria no colegiado depois de o presidente escolher mais dois diretores e substituir Campos Neto no final do ano.

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Picchetti, um dos quatro indicados por Lula na diretoria do BC, surpreendeu os investidores ao expressar mais preocupação com o crescimento do que com a inflação durante um evento privado em Washington antes da decisão.

“As divergências são saudáveis”, disse Picchetti sobre a votação durante uma entrevista à Bloomberg News por telefone nesta terça-feira (14), limitada a perguntas sobre a ata da última decisão do BC. “Permanecemos 100% comprometidos em reduzir a inflação para nossa meta de 3%.”

Após cortar o Selic em 0,25 ponto para 10,50% ao ano, o BC disse na ata que vê unanimemente taxas de juros mais restritivas no futuro. Os quatro indicados por Lula haviam defendido uma sétima queda consecutiva de meio ponto percentual.

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Mudança de guidance

Os diretores do BC haviam sinalizado em sua decisão anterior que manteriam seu ritmo de cortes em maio. Mas Campos Neto alertou os investidores no mês passado para a possibilidade de o BC desacelerar a redução de juros durante um evento em Washington.

O Copom deve “priorizar mecanismos oficiais de comunicação” que são “resultado de conversas entre os membros do conselho”, em vez de expor cada discussão ou argumento interno à escrutínio público, disse Pichetti, acrescentando que as observações de Campos Neto não foram completamente discutidas entre os membros do conselho.

“A comunicação do presidente aconteceu em um evento e honestamente não sei se ele tinha o objetivo e a intenção de transformar isso em uma orientação, mas acabou sendo o caso”, disse ele.

Picchetti descartou a ideia de que a decisão dividida expôs diferenças políticas entre os membros do conselho.

“Houve um grande exagero no sentido de atribuir visões muito simplistas às decisões de um lado e do outro”, disse ele. “A ata foi a oportunidade que tivemos para deixar claro que foi um argumento técnico.”

Os analistas do Brasil elevaram suas previsões de taxa de juros para o final de 2024 nesta segunda-feira. Enquanto isso, os investidores aumentaram nas últimas semanas as apostas de que a inflação permanecerá acima da meta do banco até 2027, sugerindo que estão mais céticos em relação às afirmações dos diretores do BC de que estão focados em conter o aumento de preços.

Mas Picchetti reforçou a mensagem geral da ata, dizendo que o conselho como um todo — incluindo os membros indicados por Lula — está focado em reduzir a inflação para a meta.

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“A menos que haja evidências de que isso seria ineficaz no horizonte que podemos ver, não há motivo para não nos comprometermos com o centro da meta”, disse ele. “Claramente ainda teríamos uma taxa restritiva, mesmo com um corte de meio ponto, ainda teríamos uma taxa restritiva.”

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