Ata do Copom: BC vê inflação pressionada e indica política monetária ainda restritiva

Dirigentes do BC citam impacto da guerra e da demanda interna na inflação e destacam desancoragem das expectativas, reforçando perspectiva de política restritiva

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Bloomberg — O Banco Central indicou em ata do Copom divulgada nesta terça-feira (5) que a política monetária brasileira precisa permanecer restritiva, já que tanto a guerra no Oriente Médio quanto a demanda doméstica pressionam a inflação.

Os dirigentes de política monetária liderados por Gabriel Galípolo disseram que uma maior desancoragem das expectativas de inflação ficou mais evidente em horizontes mais longos, especialmente para 2028, segundo a ata da decisão de juros de 29 de abril, quando reduziram a taxa Selic em 0,25 ponto percentual, para 14,5%.

Os diretores afirmaram que estão comprometidos em combater efeitos de segunda ordem decorrentes do choque global nos preços do petróleo.

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Ainda assim, a moderação da atividade econômica após um longo período de política monetária restritiva ajudou a abrir espaço para um novo corte de juros, escreveram.

“Ajustes no ritmo e na extensão dessa calibragem, à luz de novas informações, podem ser feitos de modo a assegurar a convergência para a meta de inflação”, disseram os diretores no documento publicado na terça-feira.

O Banco Central começa a desmontar com cautela sua política monetária extremamente restritiva, mesmo com a guerra no Oriente Médio pressionando os preços de energia.

Ao mesmo tempo, segmentos da economia resistem a custos de crédito em dois dígitos, em parte devido ao aumento dos gastos fiscais. Nesse contexto, a tarefa dos formuladores de política de levar a inflação à meta de 3% se torna mais desafiadora.

Indicadores iniciais mostram uma recuperação no primeiro trimestre de 2026 em relação a 2025, embora a economia apresente sinais mistos, escreveram os dirigentes na ata do Copom.

“Os mercados mais sensíveis às condições financeiras mostram maior desaceleração, enquanto os mais sensíveis à renda mostram maior resiliência”, segundo a ata.

O governo do presidente Luiz Inácio Lula da Silva tem impulsionado a demanda com medidas de estímulo ao consumo, enquanto busca a reeleição em outubro. Nas últimas semanas, a administração lançou um programa que pretende reduzir dívidas das famílias em até 90%, além de cortes de impostos e subsídios sobre combustíveis.

“A interpretação permanece de que a inflação tem sido impulsionada pela demanda e exige uma política monetária contracionista”, escreveram os formuladores de política na ata.

Leia também: Bancos veem cortes de 0,25 ponto da Selic à frente e ciclo mais curto após Copom

Investidores se preparam para ainda mais gastos à frente, enquanto o presidente disputa voto a voto com o senador de direita Flávio Bolsonaro, segundo pesquisas recentes que também mostram aumento na desaprovação de Lula.

Sinais de resiliência econômica não faltam. A produção industrial brasileira e o indicador mensal de atividade do Banco Central superaram as expectativas em fevereiro, enquanto a criação de empregos formais em março veio bem acima do previsto.

Os preços ao consumidor subiram 4,37% nos 12 meses até meados de abril, enquanto as expectativas de inflação seguem em alta, diante de preocupações com a deterioração das contas fiscais e os efeitos das tensões contínuas no Irã.

Economistas elevaram a projeção de inflação para o fim de 2026 para 4,89%, segundo pesquisa semanal do Banco Central divulgada na segunda-feira.

Enquanto isso, o Banco Central projeta que a inflação acelere para 4,6% no fim deste ano antes de desacelerar para 3,5% no quarto trimestre de 2027, horizonte que passou a ser o mais relevante para a política monetária.

--Com a ajuda de Robert Jameson e Giovanna Serafim.

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