Yanmar vê demanda desacelerar no mercado de máquinas no país e aposta em automação

Companhia japonesa ajusta previsão de crescimento para o ano em 5%, em linha com 2025, mas vê oportunidade na evolução digital do agro; ‘o cenário exige cautela’, disse Gilberto Saito, presidente da Yanmar South America, à Bloomberg Línea

Trator Yanmar Solis 26
05 de Fevereiro, 2026 | 11:54 AM

Bloomberg Línea — O agronegócio segue como um dos principais motores de crescimento da operação da Yanmar no Brasil.

Esse é um movimento significativo para uma empresa japonesa que, em 2001, deixou de comercializar escavadeiras e modelos voltados ao setor agrícola no país. De lá para cá, porém, o agro mudou e cresceu. E a companhia acompanhou.

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A mudança começou a ganhar forma com a parceria firmada com a empresa Solis, da Índia, em 2017, que levou a Yanmar a desenvolver uma linha mais moderna de tratores.

A aposta que se mostraria certeira nos anos seguintes foi o foco em máquinas compactas e médias, direcionadas ao pequeno e ao médio produtor rural.

Leia também: No Brasil, japonesa Yanmar dribla incertezas e cresce com foco no pequeno produtor

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Segundo executivos da companhia ouvidos pela Bloomberg Línea, o agro responde por até 70% do faturamento da Yanmar no Brasil, enquanto a indústria de construção soma entre 15% e 20%; e o restante vem de motores, setor marítimo e venda de peças.

A maior aposta no agro rendeu seus frutos nos últimos anos. Entre 2019 e 2025, o faturamento da companhia cresceu seis vezes no país.

Ainda assim, o desempenho mais recente ficou aquém do ritmo observado anteriormente.

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Segundo a companhia, o avanço de 2025 ficou abaixo do crescimento de 15% registrado no período anterior: na comparação entre 2025 e 2024, a receita de vendas subiu cerca de 4%, enquanto o lucro operacional avançou 11%.

Para 2026, a expectativa é a de um crescimento mais moderado e em linha com o ano passado, de cerca de 5%, em um ambiente ainda marcado por juros elevados e maior seletividade do crédito, especialmente no segmento de máquinas agrícolas.

“O cenário exige cautela”, disse Gilberto Saito, presidente da Yanmar South America, sobre as perspectivas da empresa para o ano.

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Segundo ele, juros elevados e alto nível de endividamento tornam o crédito mais caro e escasso, o que tende a limitar investimentos, especialmente em máquinas agrícolas.

Ao mesmo tempo, tensões geopolíticas, incertezas sobre políticas comerciais globais e as eleições no país tendem a aumentar a volatilidade e levar empresas a uma postura mais conservadora.

Por outro lado, a transformação digital do agro pode se tornar um dos principais impulsionadores da empresa, disse Saito à Bloomberg Línea.

Nesse contexto, projetos de inovação da Yanmar, que incluem novos implementos, tecnologias embarcadas e sistemas de automação para tratores e colheitadeiras, ganham destaque. A expectativa é que essas ações comecem a apresentar resultados neste ano, explicou o executivo.

“O crescimento de resultados deve continuar majoritariamente, possivelmente algo em torno de dois terços, vindo de ações estratégicas focadas no agronegócio”, disse o executivo.

Outra aposta da empresa é aumentar a sua presença física: a rede de concessionárias agrícolas passou de 62 unidades em 2022 para 85 atualmente, e a meta é alcançar 110 até 2030.

Em market share, a empresa soma cerca de 11% em máquinas agrícolas e 26% no segmento de mini escavadeiras.

Foco no pequeno produtor

Máquinas compactas, de até 100 cavalos, seguem no centro da estratégia da Yanmar no agronegócio brasileiro. A ideia é avançar justamente onde a companhia já é reconhecida: entre pequenos e médios produtores, que vão do hortifruti e do café à pecuária e à agricultura familiar.

Esse foco ajuda a explicar por que a empresa tende a sentir menos os ciclos de retração observados com grandes produtores de soja, milho e algodão, segmentos mais expostos ao custo do crédito e à volatilidade de preços.

“O pequeno continua comprando”, disse Wagner Santaniello, gerente de Inovação e Marketing da Yanmar, à Bloomberg Línea, ao destacar que esses produtores seguem investindo mesmo em momentos de maior aperto financeiro.

Pós-venda e digitalização

Além da expansão física, a Yanmar aposta na pós-venda e no avanço da tecnologia.

A empresa tem buscado ampliar o uso de sistemas como o Yanmar Protection e o SA-R (Smart-Assist Remote), que permitem monitoramento remoto das máquinas e manutenção preditiva, o que pode ajudar a reduzir justamente o tempo de parada e aumentar a vida útil dos equipamentos.

Outra frente relevante é o financiamento.

Em um momento de crédito mais seletivo e mais caro, a empresa reforçou o Consórcio Nacional Yanmar e busca parcerias com cooperativas e instituições financeiras para facilitar o acesso dos produtores ao crédito, para destravar negócios mesmo em um ambiente macroeconômico mais duro.

No curto prazo, a empresa também busca nacionalizar a produção de tratores cabinados, até então majoritariamente importados.

No ano passado, a Yanmar avançou nessa estratégia ao anunciar uma fábrica própria de tratores em Indaiatuba, no interior paulista. A nova unidade deve ampliar a capacidade produtiva, hoje limitada pela planta arrendada.

Enquanto o Japão aposta em tecnologias como hidrogênio e eletrificação, a avaliação interna da Yanmar é que essas soluções ainda estão distantes da realidade brasileira no agro.

Segundo os executivos da companhia, o país enfrenta limitações estruturais de energia, conectividade e escala, além de se situar em um estágio regulatório menos avançado em emissões.

Nesse contexto, a Yanmar vê mais espaço, no curto e médio prazo, para ganhos via digitalização, automação parcial e sistemas de GPS integrados aos modelos que já fabrica, e menos para uma transição rápida rumo a tratores elétricos ou totalmente autônomos.

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