Bloomberg — O abastecimento de fertilizantes para potências agrícolas do Hemisfério Sul, como o Brasil e a Argentina, está em risco, à medida que o frágil cessar-fogo entre os EUA e o Irã se desintegra justamente quando a época de plantio se aproxima.
O fluxo de navios de fertilizantes que entram no Golfo Pérsico — região responsável por cerca de um terço das exportações globais de ureia — diminuiu drasticamente desde o final de junho, à medida que as tensões começaram a aumentar novamente com uma série de ataques iranianos a embarcações que transitavam pelo Estreito de Ormuz.
Apenas quatro navios vazios, programados para carregar cargas de fertilizantes, transitaram pela via navegável até o Golfo desde 30 de junho, segundo dados de rastreamento de navios compilados pela Kpler e pela Bloomberg. Dois desses navios carregaram sua carga recentemente, mas ainda não partiram.
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Antes do conflito, entre 20 e 40 navios costumavam carregar fertilizantes da região do Golfo em geral todas as semanas. Esse número caiu agora para cerca de cinco navios, de acordo com Serena Piazzo, analista do mercado de transporte de granéis sólidos da corretora marítima Ifchor Galbraiths.
“Se este for realmente o fim do cessar-fogo entre os EUA e o Irã, isso significa que o maior problema do mercado de fertilizantes será a confiança dos armadores”, afirmou ela.
“Se os armadores decidirem que atravessar o Estreito de Ormuz para carregar cargas de fertilizantes é muito arriscado, essas cargas não chegarão aos seus clientes internacionais.”
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O momento é especialmente delicado, com previsões de um fenômeno El Niño excepcionalmente forte aumentando os riscos climáticos para os agricultores, que já são afetados pelas interrupções no fornecimento de fertilizantes e pelos altos custos de energia decorrentes da guerra com o Irã.
O Brasil e a Argentina são dois dos maiores exportadores de produtos agrícolas do mundo, e os danos ao setor agrícola desses países têm um efeito cascata sobre os preços dos alimentos em todo o mundo.
As importações de ureia do Brasil caíram 32% no primeiro semestre de 2026, pois “os agricultores adiaram as compras e passaram a utilizar outros produtos nitrogenados menos onerosos durante o auge do conflito”, afirmou Alexis Maxwell, analista sênior de agricultura da Bloomberg Intelligence.
“Com o cessar-fogo em terreno instável, na melhor das hipóteses, o acesso ao abastecimento da produção crítica de ureia no Oriente Médio parece cada vez mais distante, agravando a aposta do Brasil no adiamento da demanda.”
À medida que a época de plantio para os produtores do Hemisfério Norte chegava ao fim e a guerra no Irã parecia estar próxima de uma resolução, os preços da ureia haviam eliminado o prêmio de guerra em meados de junho.
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Agora, com a demanda brasileira e argentina ganhando ritmo, os preços em Nova Orleans estão subindo gradualmente. Em 3 de julho, eles estavam mais de 3% mais altos, encerrando uma sequência de cinco semanas de perdas.
O tráfego de granéis secos pelo Estreito de Ormuz permaneceu bem abaixo dos níveis anteriores ao conflito, apesar de uma enxurrada de navios que saíram nos primeiros dias após o cessar-fogo.
O tráfego reduzido sugere que há uma frota menor de navios disponíveis para transportar cargas de fertilizantes.
Isso representa uma reversão em relação aos primeiros dias do conflito, quando dezenas de navios ficaram retidos no Golfo. Eles atuavam efetivamente como armazenamento flutuante, permitindo que os produtores continuassem operando.
Agora, com os EUA e o Irã novamente trocando ataques aéreos, os armadores, já cautelosos, provavelmente ficarão ainda mais relutantes em transitar pelo Estreito de Ormuz para carregar novas cargas.
“As restrições continuam sendo de natureza logística e de transporte, frete e seguro marítimo, e não de produção”, afirmou Maria Antip, analista de preços de fertilizantes da Bloomberg Green Markets.
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