Ovo deixa de ser vilão da inflação nos EUA. Agora excesso de oferta aperta produtores

Um ano depois de crise que aumentou preços e deixou prateleiras vazias, a produção se expandiu rápido demais, as importações quadruplicaram e o valor no atacado despencou ao menor patamar desde 2017

A Cal-Maine Foods, maior produtora americana do setor, registrou queda de 28% nas vendas trimestrais. Com plantéis em expansão e gripe aviária ainda circulando, o mercado deve seguir pressionado por meses. Reequilibrar a oferta leva até 18 meses, dizem especialistas (Foto: Michael Nagle/Bloomberg)
Por Ilena Peng
22 de Fevereiro, 2026 | 07:24 AM

Bloomberg — Um ano atrás, prateleiras vazias de ovos nos supermercados eram o símbolo da inflação dos alimentos que se recusava a ceder. Os consumidores pagavam preços recordes, disputavam os limites por cliente e estocavam caixas sempre que apareciam.

Hoje, o cenário se inverteu. E embora isso seja uma boa notícia para o consumidor americano, os produtores de ovos estão sentindo o baque da virada.

PUBLICIDADE

Depois de ampliar a produção para atender à demanda frenética do ano passado e se proteger contra as perdas causadas pela gripe aviária, os produtores americanos agora enfrentam um excesso de oferta. Os preços ao consumidor caíram ao menor nível em dois anos, comprimindo as margens das granjas e empurrando alguns operadores para baixo do ponto de equilíbrio.

Leia mais: Mantiqueira, com JBS como sócia, acerta compra para entrar no mercado dos EUA

Em janeiro, os americanos pagaram em média US$ 2,58 pela dúzia de ovos grandes tipo A, queda de 59% em relação ao recorde de US$ 6,23 registrado em março do ano passado, quando surtos de influenza aviária dizimaram os plantéis e fizeram os preços dispararem.

PUBLICIDADE

A correção abrupta reflete o esforço acelerado para aumentar o número de galinhas poedeiras e diluir o risco da gripe aviária, numa aposta de que o mercado apertado viria para ficar. Em vez disso, a oferta superou a demanda.

“Tivemos agricultores que trabalharam muito para garantir que tivessem galinhas extras em mãos”, disse Emily Metz, presidente do American Egg Board.

“Por isso, temos agora uma oferta muito forte de ovos. É por isso que o mercado está onde está”.

PUBLICIDADE

Em 1º de janeiro, havia 309 milhões de galinhas poedeiras produzindo ovos para consumo, o maior número desde dezembro de 2024, segundo dados do Departamento de Agricultura dos EUA.

Preços em queda livre

Empresas do setor, surfando a onda dos preços elevados, investiram para ajudar os produtores a ampliar a produção, enquanto o governo Trump, pressionado a conter a inflação nos supermercados, impulsionou as importações para um estimado de 122,5 milhões de dúzias em 2025, mais de quatro vezes o nível do ano anterior.

O resultado foi uma queda livre nos preços. Os preços no atacado, que normalmente chegam ao varejo com alguma defasagem, atingiram em janeiro o menor nível desde 2017. O USDA projeta que os ovos fiquem na média de US$ 1,25 a dúzia neste ano, queda de 67% em relação ao ano anterior.

PUBLICIDADE

Leia mais: Raiar quer popularizar o ovo orgânico. 2 milhões de galinhas são só o começo, diz CEO

Metz disse que muitos produtores estão operando abaixo do ponto de equilíbrio e que os preços devem continuar pressionados diante de “muita oferta, com mais oferta ainda chegando.”

O aperto financeiro já se faz sentir na Cal-Maine Foods, maior produtora americana de ovos com casca. A empresa reportou em janeiro queda de 19% nas vendas líquidas trimestrais em relação ao ano anterior, puxada por uma retração de 28% nas vendas de ovos com casca. A companhia também registrou um salto no tamanho dos plantéis de matrizes e no número de pintos.

Surto persistente

O surto de influenza aviária que começou em 2022 ainda persiste, mas com impacto bem menor. Cerca de 7,8 milhões de galinhas poedeiras comerciais foram afetadas do início do ano até 19 de fevereiro, ante quase 27 milhões no mesmo período de 2025 e 42 milhões no total naquele ano, segundo o USDA.

Mesmo assim, a presença persistente da doença dificulta o planejamento dos produtores. Os agricultores definem o tamanho de seus plantéis com até 18 meses de antecedência, o que significa que a correção do atual excesso de oferta também levará tempo, segundo Jada Thompson, professora associada de economia agrícola da Universidade do Arkansas.

“Há uma linha muito tênue entre tentar prever da melhor forma possível o número de casos de IAAP e o que eles realmente acabam sendo”, disse Thompson. “E acho que desta vez o cálculo pode ter falhado”.

Veja mais em Bloomberg.com

Leia também

Granja Faria, do ‘rei do ovo’, compra americana Hillandale Farms por US$ 1,1 bilhão