Mercado de açúcar fica ‘nas mãos da Petrobras’ e busca recuperação após queda nos preços

Mercado monitora decisões da Petrobras sobre gasolina e possíveis impactos do El Niño na Índia em busca de suporte para os preços do açúcar, segundo analistas que falaram à Bloomberg News

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Bloomberg — Diante de um mercado fraco, a indústria do açúcar concentrou atenções durante a Semana do Açúcar de Nova York em possíveis fatores capazes de resgatar os preços, hoje próximos das mínimas em quase cinco anos.

O encontro anual de analistas, produtores e traders ocorre em um momento em que os preços globais do açúcar bruto enfrentaram forte pressão ao longo do último ano devido à ampla oferta mundial e ao crescimento lento da demanda.

Entre os principais fatores para uma eventual recuperação dos preços estavam os impactos dos preços da gasolina no Brasil e de um possível padrão climático de El Niño sobre a produção de açúcar.

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As grandes safras de cana do Brasil, maior produtor global, pressionaram o mercado tanto no ano passado quanto neste ano — mas o setor agora espera que uma parcela maior da produção seja destinada ao combustível, e não ao açúcar.

Ainda assim, as perspectivas para essa divisão, que também pode mudar rapidamente dependendo dos preços dos dois produtos, seguem mistas.

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As estimativas para o chamado mix açucareiro variaram entre 45% e 48,5%, abaixo do recorde de 50,4% registrado no ano passado, segundo Mike McDougall, analista da McDougall Global View. As projeções do espectro mais baixo dessa faixa, se confirmadas, levariam o mix ao menor nível em pelo menos quatro anos.

Os preços tanto do adoçante quanto do combustível permaneceram baixos, com os preços domésticos do etanol recentemente menos rentáveis do que o açúcar.

O contrato mais negociado de açúcar bruto recuperou cerca de 10% no último mês, após se aproximar da mínima de 2020, mas ainda opera em um intervalo considerado baixo.

Os contratos futuros em Nova York caíram até 1,8% nesta sexta-feira, para 14,72 centavos de dólar por libra-peso, enquanto o açúcar branco recuou 1,4%.

“Às vezes o preço do açúcar fica melhor do que o preço do etanol, e os usineiros no Brasil decidem toda semana para onde direcionar o mix de produção”, disse João Otávio Figueiredo, chefe de pesquisa da Datagro, em entrevista à Bloomberg News na segunda-feira.

Ele acrescentou que a Petrobras também influencia o mercado. “O preço do açúcar está sob pressão porque agora estamos nas mãos da Petrobras.”

A Petrobras manteve os preços domésticos da gasolina estáveis mesmo com a disparada internacional dos preços provocada pelo conflito no Irã, o que contribuiu para um resultado trimestral abaixo das expectativas.

O governo brasileiro afirmou nesta semana que subsidiará a gasolina, medida que pode reduzir a demanda pelo etanol hidratado no país.

A Petrobras elevou recentemente os preços do diesel e afirmou que também aumentará os da gasolina, mas ainda não divulgou detalhes.

Outro fator altista observado pelo mercado era o impacto potencial do El Niño sobre a produção da Índia, segundo maior produtor mundial depois do Brasil. O fenômeno climático, previsto para se intensificar no fim deste ano, costuma provocar clima mais seco na região, afetando a produtividade da cana.

Na ponta mais pessimista das estimativas, a Datagro projeta queda de 4,6% na produção indiana em relação ao ano anterior, para 27 milhões de toneladas — o que contribuiria para um déficit global maior, de 3,17 milhões de toneladas.

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Já a consultoria StoneX Group, que projeta um déficit muito menor, de 550 mil toneladas, estima que a produção indiana ficará praticamente estável na comparação anual. A projeção considera uma “intensidade moderada e impacto moderado sobre a safra indiana”, afirmou Rodrigo Martini, consultor sênior de açúcar e etanol, em apresentação na terça-feira.

Qualquer perda adicional na safra da Índia preocupa o mercado porque aumenta as chances de que o país, que já vinha restringindo exportações para proteger a oferta doméstica, permaneça fora do comércio global de açúcar.

O país proibiu na quinta-feira as exportações pelo restante da temporada atual, até setembro.

A medida já era amplamente esperada pelo mercado diante da queda da safra deste ano e da expectativa de ocorrência do El Niño, mas também ampliou as discussões sobre possíveis restrições adicionais em 2026-27, disse Claudiu Covrig, principal analista da Covrig Analytics.

Ele manteve sua projeção de superávit global em 2026-27, mas afirmou que o cenário mudaria caso o El Niño “atinja fortemente” a Índia.

Ravi Gupta, integrante do conselho executivo da Shree Renuka Sugars, em Nova Délhi, afirmou durante o evento da Datagro que não espera que a produção “fique abaixo dos níveis deste ano”, diante do aumento da área plantada com cana.

Ainda assim, ressaltou que a safra “depende totalmente de como o clima se comportará com o El Niño, especialmente da distribuição das chuvas”.

--Com a ajuda de Dayanne Sousa.

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