Bloomberg Línea — A gigante americana Ingredion (INGR), que atua no desenvolvimento de soluções para a indústria de alimentos e cuidados pessoais, pretende dobrar a capacidade de produção do polióis a partir de sua planta em Mogi Guaçu (SP).
A expansão, antecipada com exclusividade à Bloomberg Línea, faz parte de um plano da empresa para se antecipar a uma demanda crescente por produtos com menor teor calórico e índice glicêmico, segundo o presidente da Ingredion no Brasil, Luis Miguel Garzon.
A aposta da empresa passa pelo uso de volumes vez maiores do milho como base para a produção de polióis, carboidratos usados como adoçantes de baixa caloria e menor impacto glicêmico.
“Estamos ampliando a capacidade para atender e antecipar um incremento de demanda dos consumidores que buscam produtos mais saudáveis, com redução de açúcar e menor aporte calórico”, disse Garzon à Bloomberg Línea.
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Isso ocorre em um momento em que, de um lado, o consumidor está mais exigente ao buscar nos rótulos a lista de ingredientes e suas quantidades, com maior atenção a produtos com menos açúcar.
Do outro, a indústria se movimenta para atender essa demanda, buscando alternativas que permitam reformular produtos sem comprometer textura e, principalmente, o sabor.
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A iniciativa da Ingredion também reposiciona a operação brasileira como plataforma exportadora para a América Latina, em um contexto em que a empresa busca avançar em soluções de maior valor agregado, segundo o executivo.
Na planta, o sorbitol passa a representar 67% da produção de polióis, enquanto o maltitol líquido responde pelos 33% restantes.
A empresa não divulgou o valor investido, mas informou que a expansão deverá ampliar em 100% a capacidade da linha na unidade paulista, com foco nesses dois ingredientes — hoje usados em categorias que vão de confeitaria e panificação a cuidados pessoais.
Segundo a companhia, trata-se do maior aporte no país nos últimos 14 anos, feito com recursos próprios.
Brasil no centro
A estratégia no Brasil passa pelo acesso facilitado à matéria-prima, o que se traduz em custos menores para a operação, explica o executivo.
O milho, principal base dos polióis, é fornecido sobretudo por estados como Mato Grosso e Paraná, que concentram a produção nacional.
“O Brasil tem escala, qualidade de matéria-prima e capacidade de atender a demanda crescente. Por isso nossos investimentos são pensados no longo prazo aqui”, disse Garzon.
“Com o fornecimento local, a gente reduz riscos e ganha capacidade de garantir disponibilidade, eficiência nas entregas e qualidade em todos os processos”, acrescentou.
Com a expansão, o país se torna a única base produtiva de polióis da empresa na América Latina e pode contribuir para reduzir a dependência de importações da região, hoje concentradas principalmente na Ásia.
A partir do Brasil, a companhia pretende atender mercados como México, a região andina (Colômbia, Peru e Equador) e o Cone Sul (Argentina, Chile e Uruguai), aproveitando sua rede industrial já estabelecida.
Hoje, a operação brasileira responde por cerca de US$ 550 milhões em receita, dentro de um total de US$ 2,5 bilhões na América Latina.
Performance global
Em 2025, a Ingredion registrou receita líquida de US$ 7,2 bilhões, queda de 3% na comparação anual, enquanto o lucro operacional ajustado subiu para US$ 1,028 bilhão, ante US$ 1,016 bilhão. A margem avançou de 24,1% para 25,3% no período, segundo o último balanço financeiro divulgado pela companhia.
Cerca de 70% da receita global da empresa vem da indústria de alimentos e bebidas, enquanto 10% está ligada à nutrição animal, incluindo pet food e pet care, e os 20% restantes a outras indústrias, explica o executivo.
Segundo Garzon, a empresa organiza suas operações em quatro grandes regiões: Estados Unidos e Canadá, América Latina, EMEA — que inclui Europa, Oriente Médio e África — e Ásia-Pacífico. Das 43 fábricas da companhia, nove estão na América Latina.
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O reposicionamento tem permitido expandir margens mesmo em um ambiente de volumes pressionados. No ano passado, houve queda de volumes em diferentes regiões, incluindo a América Latina, impactada por menor demanda em segmentos como confeitaria e papel.
Ainda assim, a operação latino-americana manteve rentabilidade elevada. O segmento de ingredientes alimentares e industriais na região registrou margem operacional recorde de 21,1%, sustentada por ganhos de eficiência, reorganização industrial e contratos de longo prazo com clientes.
A expansão em Mogi Guaçu ocorre pouco mais de um ano após o fechamento da unidade de Alcântara, no Rio de Janeiro, que produzia manitol em pó, usado em aplicações farmacêuticas e de confeitaria.
“A companhia reavaliou o negócio do ponto de vista de competitividade de custos e posicionamento logístico, buscando maior eficiência e proximidade com clientes”, afirmou o executivo sobre o fechamento da planta.
No Brasil, a empresa ainda tem ao todo três fábricas, uma em Mogi Guaçu, em São Paulo, em Cabo de Santo Agostinho, em Pernambuco, e outra em Balsa Nova, no Paraná.
Matéria-prima
O acesso facilitado à matéria-prima, sobretudo o milho, do qual o Brasil é o terceiro maior produtor global, também sustenta essa estratégia.
A empresa utiliza o grão na produção de polióis, carboidratos conhecidos como “álcoois de açúcar”, aplicados em produtos de baixo ou nenhum teor de açúcar.
Arroz, batata, açúcar de cana e açúcar de beterraba são outras fontes que podem ser usadas na produção desses ingredientes.
Os polióis, como sorbitol e maltitol, são usados pela indústria não apenas para reduzir açúcar, mas também para manter características essenciais dos produtos, como textura, estabilidade e vida útil.
Eles aparecem em uma ampla gama de aplicações, de chocolates e balas sem açúcar a produtos de panificação e itens de saúde bucal.
“A transformação do mercado está ligada à busca por alternativas mais saudáveis, sem perder sabor e funcionalidade”, disse Garzon.
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