Indústria de açúcar da África do Sul luta para sobreviver em meio à inércia do governo

A usina de Melville, fechada em 1978, simboliza o declínio de um setor centenário que hoje enfrenta importações mais baratas de países como o Brasil, onde as usinas se beneficiam de uma indústria consolidada de etanol, além do fechamento de unidades e de anos de políticas industriais não implementadas

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Bloomberg — A Usina de Açúcar Melville, na província de KwaZulu-Natal, na África do Sul, é um símbolo do que já foi e do que o futuro pode reservar.

Árvores cresceram entre as duas chaminés de tijolos da usina, que fechou em 1978. Os caminhões de cana-de-açúcar agora passam por ela em uma estrada de cascalho, enquanto crianças em idade escolar apanham os talos que caem para chupar o suco doce. A consolidação do setor e as dificuldades financeiras das empresas levaram a uma onda de fechamento de usinas.

“Quando vejo este lugar, sempre fico com o coração partido”, disse Kiki Mzoneli, de 56 anos, produtora de cana-de-açúcar de quinta geração que assistiu à queda dos preços do açúcar e continuou plantando por medo de devolver os campos improdutivos à casa real zulu, proprietária de grande parte das terras na província do sudeste. “Plantamos mesmo quando temos prejuízo. Se não plantarmos na terra, a perdemos.”

Mzoneli é uma das mais de um milhão de sul-africanas que dependem do açúcar. Trata-se de uma indústria com mais de um século de história que agora luta para competir com as importações de gigantes globais como o Brasil e com os baixos custos de mão de obra na vizinha Essuatíni, além de ter que lidar com a política industrial mal conduzida de seu país, que não conseguiu criar uma demanda local após duas décadas de indecisão.

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Essas pressões estão agora chegando ao auge. A Tongaat Hulett, responsável por mais de 40% da produção de açúcar refinado da África do Sul e fundada há 134 anos, escapou por pouco da liquidação após receber, em junho, um auxílio financeiro do governo que garantirá seu financiamento até o final deste mês. Sua rival, a Illovo Sugar, de propriedade da Associated British Foods, está enfrentando dificuldades para obter lucro em suas operações na África do Sul.

A indústria açucareira tem importância econômica limitada para o país, gerando cerca de 24 bilhões de rands (US$ 1,5 bilhão) anualmente, mas sustenta mais de um milhão de pessoas e oferece 270 mil empregos diretos e indiretos em um país onde uma em cada três pessoas está desempregada.

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Embora acolham a intervenção, os produtores de cana que abastecem as usinas da Tongaat veem a medida como um remendo que não resolve os desafios enfrentados pelo setor.

“De que adianta gastar tanto dinheiro para manter as usinas abertas se não se resolve a questão das importações baratas?”, questiona Mzoneli, referindo-se à Corporação de Desenvolvimento Industrial, de propriedade do Estado, que concedeu 2,5 bilhões de rands (US$ 156 milhões) em empréstimos à Tongaat — valor que será convertido em participação acionária — o suficiente para manter a empresa em funcionamento até o final de setembro.

Mais ou menos na mesma época, o Vision Group comprou 11,7 bilhões de rands (US$ 729,5 milhões) da dívida da empresa em dificuldades, com o objetivo de negociar o controle posteriormente.

“Isso evitou a liquidação — preservou aproximadamente 250 mil meios de subsistência em toda a cadeia de valor do açúcar”, disse Rute Moyo, um empresário do Zimbábue que controla o Vision junto com o sul-africano Robert Gumede. “Proteger a Tongaat Hulett não é apenas um interesse comercial, é uma responsabilidade nacional.”

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Tanto a Illovo quanto a Tongaat — cuja situação se agravou devido a um escândalo contábil anterior, no qual executivos seniores inflaram lucros e preços de ativos, levando a prisões e processos criminais que ainda estão em andamento — fecharam usinas nos últimos seis anos, e outras podem ser fechadas.

Mas nem sempre foi assim.

A cana-de-açúcar foi plantada pela primeira vez na África do Sul em 1848. À medida que o setor crescia rapidamente, trabalhadores contratados foram trazidos da Índia a partir de 1861, fundando uma das maiores comunidades indianas do mundo fora do sul da Ásia, após não terem conseguido persuadir os zulus a trabalhar nas plantações.

Depois da Segunda Guerra Mundial, o setor se expandiu, atingindo um pico de produção de 2,76 milhões de toneladas em 2003.

Desde então, o setor — que se estende pelas províncias de KwaZulu-Natal e Mpumalanga — vem em declínio, mas ainda produz cerca de 2,2 milhões de toneladas.

As consequências dessa queda são visíveis em pequenas cidades como Darnall, onde a Tongaat fechou uma usina em 2020, resultando na perda de quase 400 empregos permanentes e dezenas de oportunidades de trabalho sazonal.

A estrada que leva ao Darnall Country Club, que dependia da Tongaat para financiamento e clientes, é ladeada por casas abandonadas, algumas das quais foram saqueadas. O número de sócios caiu drasticamente, deixando Roy Sukhu no comando de um negócio cujo esteio econômico já não existe mais.

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“Estamos tentando administrar o clube por conta própria no momento”, disse Sukhu, cujos ancestrais foram trabalhadores que chegaram da Índia no século XIX. “É uma luta.”

E, embora o setor tenha entrado em declínio, o Estado — apesar de uma série de planos não implementados para resgatá-lo — tem, em grande parte, ficado de braços cruzados.

As importações nos primeiros seis meses deste ano totalizaram 124.594 toneladas, em comparação com apenas 1.619 toneladas no mesmo período de 2022, de acordo com o Congresso dos Sindicatos da África do Sul. Grande parte desse açúcar foi importada do Brasil, da Índia e da Tailândia. Os produtores de açúcar desses países se beneficiam de indústrias de etanol consolidadas e de subsídios estatais.

“A indústria açucareira está em crise”, afirmou o Cosatu em comunicado, pedindo custos de eletricidade mais baixos, melhor serviço ferroviário e medidas rigorosas contra as importações.

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A RCL Foods, uma produtora de menor porte, afirmou em 31 de agosto que as importações a forçaram a vender açúcar nos mercados internacionais por menos da metade do que poderia ter obtido no mercado local.

“Os volumes de importação continuam excepcionalmente altos, o mercado interno se contraiu e os produtores continuam enfrentando pressão sobre os volumes e as margens”, disse Gavin Dalgleish, CEO da Tongaat. A Illovo não respondeu aos pedidos de comentário.

O governo, após anos de pressão, ofereceu agora algum alívio aos produtores. Em agosto, elevou o preço de referência baseado no dólar, usado para calcular os impostos de importação de açúcar, de US$ 680 para US$ 785 por tonelada — o primeiro aumento desde 2018.

Embora bem abaixo dos US$ 905 solicitados pelos produtores, esse valor está acima do preço do açúcar negociado em Londres, de cerca de US$ 520, e representa uma tentativa de equilibrar os interesses dos produtores com os dos consumidores de açúcar.

O governo está “comprometido em defender a indústria açucareira nacional contra a concorrência desleal”, afirmou o Ministério do Comércio e Indústria em resposta a perguntas. “Os produtores sul-africanos competem com países onde a produção de açúcar pode se beneficiar de várias formas de apoio governamental, diferentes estruturas de custos, economias de escala e condições favoráveis de produção.”

A medida pode tornar as importações menos atraentes, mas pouco contribui para resolver os problemas estruturais do setor.

Outros países agiram rapidamente para incorporar bioetanol proveniente do açúcar e de outras culturas ao combustível automotivo; o Brasil faz isso desde 1931 e o Zimbábue desde 1980, com uma unidade da Tongaat naquele país produzindo o combustível.

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A África do Sul adotou uma estratégia industrial para biocombustíveis em 2007 e anunciou metas de mistura, mas nunca as implementou. Um novo plano foi assinado pela indústria e pelo governo em abril, prevendo a produção de biocombustíveis, informou o departamento de comércio.

“O etanol combustível a partir da cana-de-açúcar não é uma ideia especulativa neste país”, disse Moyo. “É uma política que foi aprovada, anunciada e depois deixada de lado.”

Sua empresa agora quer que o governo cumpra seus compromissos com o etanol e abra caminho para a geração de eletricidade a partir de resíduos da cana-de-açúcar, que poderia ser vendida pela rede nacional. A associação nacional do setor sucroalcooleiro estima que a indústria possa contribuir com cerca de 700 megawatts de energia para a rede por meio de projetos de cogeração.

A indústria açucareira é apenas um dos setores sul-africanos em que a indecisão e a inércia do Estado em relação à política industrial levaram ao fechamento de fábricas e obrigaram o governo a se apressar para implementar planos de resgate quando o dano já estava feito.

A unidade local da ArcelorMittal fechou, no ano passado, duas usinas de aço para construção, alegando importações excessivas e auxílio estatal a concorrentes menores que fabricam produtos de qualidade inferior. Atualmente, o país está oferecendo preços mais baixos de energia elétrica aos produtores de ferrocromo, depois que mais de uma década de aumento vertiginoso nas tarifas levou a maioria deles à falência.

“A gente ouve toda essa conversa sobre como vamos fazer algo e, no fim das contas, nada acontece”, disse Jee-A van der Linde, economista sênior para a África da Oxford Economics. “Quando já é tarde demais, é que surge uma reação.”

Por enquanto, com poucas outras opções, as comunidades rurais que abastecem as usinas restantes com cana estão fazendo o possível para manter o setor à tona.

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Siyabonga Madlala está liderando as tentativas de revitalizar o cultivo de cana em eSnamfu, onde a produção caiu para 2 mil toneladas por ano em 2009, na década após a Illovo ter fechado a usina de Glendale, o que levou ao colapso dos programas de irrigação. Alguns deles já foram restaurados e as plantações foram parcialmente recuperadas.

Ainda assim, as usinas para as quais ele vendia sua cana passaram, em alguns momentos, por um processo de recuperação judicial — um procedimento legal sul-africano que concede às empresas em dificuldades financeiras proteção temporária contra credores.

“Passei por dois ou três anos realmente devastadores”, disse ele.

Mas Madlala vê a seca, as enchentes, a escassez de mão de obra e as importações como riscos que podem ser gerenciados, desde que os agricultores continuem cultivando a cana.

“Se você acabar com a produção primária de cana-de-açúcar, pode imaginar quantos meios de subsistência você estará afetando”, disse ele em uma manhã abafada de sábado, enquanto adeptos da religião local Shembe realizavam um culto ao ar livre em suas terras e galinhas passeavam pelo local.

A tarifa mais alta imposta pelo governo pode ganhar algum tempo.

O resgate da Tongaat pode, por enquanto, preservar a capacidade crucial de moagem. Mas, para os agricultores sul-africanos negros, em sua maioria pobres, que dependem dela, a situação econômica da cultura permanece inalterada.

“Meus ancestrais lutaram para serem reconhecidos como seres humanos; depois, lutaram para serem reconhecidos como empresários por direito próprio na indústria açucareira”, disse Mzoneli. “Agora é a nossa vez” de lutar para sobreviver, acrescenta ela.

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