Bloomberg Línea — A Frigol, quarto maior frigorífico do país, projeta superar R$ 7,5 bilhões em receita a partir de 2027, apoiada em uma estratégia que combina expansão das exportações e diversificação dos mercados compradores da carne bovina brasileira diante das restrições impostas pela China, principal destino das vendas externas da companhia.
No consolidado do ano passado, a empresa atingiu R$ 4,5 bilhões em receita bruta.
Em entrevista à Bloomberg Línea, o CEO da companhia, Luciano Pascon, disse que a Frigol revisou seu planejamento estratégico depois de firmar parcerias em Rondônia e de recalibrar o cenário para a China.
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“Terminamos agora em abril um novo orçamento aprovado pelo conselho de administração, justamente contemplando esses novos cenários”, disse Pascon. Segundo ele, a companhia trabalha com a meta de atingir a receita de R$ 6,5 bilhões neste ano e espera ficar “acima de R$ 7,5 bilhões” no ano que vem.
Em balanço financeiro divulgado nesta terça-feira (12), a empresa somou R$ 999,2 milhões em receita líquida no primeiro trimestre do ano, alta de 2,8% em relação ao mesmo período de 2025.
O lucro líquido do período somou R$ 11,1 milhões, crescimento de 11 vezes ante R$ 1 milhão um ano antes.
O Ebitda foi de R$ 33,3 milhões, com margem de 3,3%.
A melhora do resultado, sobretudo do lucro líquido, ocorreu apesar da queda de 5,3% no abate da companhia em relação ao mesmo trimestre do ano passado, que atingiu cerca de 150 mil bovinos, reflexo da menor oferta de gado e da pressão sobre o preço da arroba.
Sem as novas parcerias em Rondônia, que resultaram no início das exportações para os EUA, a redução dos abates teria sido de 14,2%, segundo a companhia.
De volta para casa
Pascon, que havia sido CEO da companhia entre 2016 e 2020, reassumiu o comando da Frigol em janeiro de 2025.
Ele disse que a primeira coisa que decidiu fazer ao assumir o comando do grupo foi “olhar para dentro de casa”, ou seja, reavaliar o trabalho que vinha sendo feito, das pessoas aos processos industriais e as decisões comerciais.
“Tem muita variável, mas as variáveis normalmente dentro do processo produtivo são as mesmas. É a questão de identificarmos aquelas que são as prioridades, aquelas que são maiores alavancas para o resultado”, disse.
Segundo o executivo, pequenos ganhos operacionais têm impacto relevante quando aplicados a uma indústria de grande volume. Ele cita o aproveitamento do tempo de produção e a gestão dos insumos.
“Muitas vezes a gente deixa alguns centavos na mesa e, na hora que multiplica por alguns milhões de quilos, tanto no mês e depois no ano, vê o quanto isso está impactando os resultados da companhia”, disse.
A partir desse diagnóstico, a Frigol concentrou os esforços em três frentes, conta o executivo: eficiência, pessoas e comercial, “no sentido de procurar os melhores mercados e os melhores valores agregados para os nossos produtos.”
Exportações e China
Esse olhar da companhia para a frente comercial se traduziu no aumento da exposição ao mercado externo.
Segundo Pascon, a Frigol chegou a obter 65% da receita mensal com vendas externas em 2025 e encerrou o ano com uma fatia próxima de 54%. A China continuou como principal destino, mas a companhia também ampliou vendas para outros mercados, como Indonésia, Canadá, Filipinas e Europa.
Apesar da relevância do mercado externo na estratégia do grupo, no primeiro trimestre deste ano, as exportações representaram 46% da receita bruta da empresa, abaixo dos 51% registrados um ano antes.
A China continuou como principal destino, com 64,8% das receitas externas, seguida por Israel, Hong Kong e Europa. A fatia de outros mercados subiu para 17,4%, ante 13% no primeiro trimestre de 2025 e 6% em 2024.
A companhia também registrou aumento da demanda de países do Sudeste Asiático, como Indonésia e Filipinas, com alta de 255% no volume exportado na comparação anual.
A maior diversificação das exportações ocorre em um momento em que a China limitou as compras de carne bovina brasileira com a implementação de cotas - Brasil já atingiu metade da cota e analistas indicam que deve completá-la até o meio do ano.
O CEO da Frigol disse que não espera uma mudança rápida da política chinesa. Para ele, eventuais ajustes poderiam ocorrer apenas depois de uma avaliação das cotas ao fim do ano, caso alguns países não consigam cumprir os volumes autorizados.
“O boi China me traz pelo menos uns 30% a mais [do que a venda para o mercado interno]”, disse o executivo.
O executivo explica que a Frigol busca ter o maior número possível de habilitações, mesmo que a decisão de vender para cada mercado dependa de preço e rentabilidade.
“A decisão se eu vendo ou não vendo é outro passo. Por questões estratégicas, por questões de resultado, eu vou decidir o que vou fazer, mas eu quero ter a opção hoje. Essa é a nossa política de ampliarmos para todos os mercados”, disse.
Rondônia no centro da estratégia
A operação das novas três plantas em Rondônia funcionam por meio de contratos de industrialização firmados com a RioBeef e a DistriBoi.
Nesse modelo, a Frigol não é proprietária dessas plantas, mas controla a compra do gado, a estratégia comercial e a venda da carne, enquanto as parceiras executam o abate, a desossa e o processamento industrial.
O formato permitiu à companhia ampliar rapidamente a presença em Rondônia sem a necessidade de construir novas unidades próprias. Também acelerou o acesso a mercados estratégicos, como os Estados Unidos, ao aproveitar habilitações sanitárias já existentes nas plantas parceiras.
Ao todo, a empresa tem três plantas próprias de abate: em Lençóis Paulista (SP), Água Azul do Norte (PA) e São Félix do Xingu (PA).
No balanço financeiro divulgado nesta semana, a Frigol afirma que as novas parcerias em Rondônia estão alinhadas à estratégia de expansão geográfica do grupo.
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Segundo Pascon, Rondônia dá à Frigol acesso ao mercado americano e também ao Canadá, por causa das condições sanitárias do estado. A região também pode posicionar a empresa em uma eventual próxima etapa de abertura do Japão à carne brasileira.
“Rondônia também nos coloca no radar talvez no próximo movimento do Japão”, disse.
A companhia fez seu primeiro embarque aos Estados Unidos em abril, via planta de Rolim de Moura.
O mercado americano é visto por Pascon como um vetor estrutural de demanda para a carne brasileira, em razão da redução do rebanho dos EUA e da necessidade de importação de carne industrial, usada em produtos como hambúrgueres e carne moída.
Para o CEO, o Brasil se consolida como um fornecedor confiável em volume, preço e regularidade.
Ele também disse que a Frigol já trabalha em novas habilitações para exportar aos EUA por outra planta em Rondônia e pela unidade de Lençóis Paulista, com a expectativa de começar 2027 com três fábricas habilitadas para o mercado americano.
A execução, no entanto, ainda enfrenta gargalos. Pascon afirmou que a captura integral da receita potencial de Rondônia em 2026 foi parcialmente limitada por dificuldades no ramp-up das operações.
O mercado doméstico também segue no coração da estratégia da empresa.
No primeiro trimestre, o Brasil respondeu por 54% da receita bruta, ante 49% um ano antes. A empresa tem reforçado linhas de maior valor agregado e ampliado a presença em grandes atacarejos com o projeto Açougue Completo.
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