Disparada do diesel ameaça produção agrícola global e pressiona preço dos alimentos

Produtores da Austrália, da Argentina, da Europa e do Brasil precisam de grandes volumes de diesel para colher e plantar nesta época do ano, enquanto grupos do setor alertam para quedas na produção caso os preços sigam altos

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Bloomberg — Em uma extensa fazenda próxima ao rio Murray, no sudeste da Austrália, Andrew Russell se prepara para colher uma de suas melhores safras de grãos dos últimos anos, após chuvas abundantes. No entanto, duas guerras do outro lado do mundo prejudicam o que deveria ser uma época de comemoração para os agricultores.

Os preços do diesel dispararam globalmente à medida que a oferta se torna mais escassa devido a interrupções no Estreito de Ormuz decorrentes da guerra entre os Estados Unidos e o Irã e dos ataques ucranianos a refinarias russas.

Na Austrália, por exemplo, os agricultores enfrentam custos de combustível mais de 50% superiores aos do ano passado, ao iniciarem a colheita do que se projeta ser a quarta maior safra já registrada no país, incluindo trigo, cevada e canola.

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Russell afirma que os agricultores precisam de uma safra acima da média apenas para cobrir os custos, sendo o diesel uma das principais despesas, e ele se preocupa com a crescente incerteza em torno do abastecimento de combustível.

Sua situação se repete nas principais regiões agrícolas, da América do Sul à Europa e aos Estados Unidos, aumentando o risco de que os elevados custos de energia reduzam a produção e alimentem uma nova onda de inflação dos preços dos alimentos.

“Todos nós deveríamos estar dançando em cima das mesas”, disse Russell, que administra uma fazenda de 1.300 hectares perto de Rutherglen, uma pequena cidade no norte de Victoria. Mas muitos produtores têm capacidade de armazenamento de combustível para apenas uma semana, e “a colheita dura quatro, cinco, seis semanas. Já se foram os dias em que o caminhão-tanque de diesel aparecia a cada dois ou três dias”, disse ele.

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O combustível industrial é vital para a agricultura, pois é responsável por mover tratores, colheitadeiras e bombas de irrigação, bem como caminhões que transportam alimentos para o mercado.

A escassez elevou drasticamente os preços em todo o mundo, e o diesel passou a ser vendido por cerca de 3 dólares australianos por litro no país, o equivalente a aproximadamente R$ 10,45.

Os preços médios do diesel no varejo nos Estados Unidos atingiram um recorde no mês passado, causando dores de cabeça políticas ao presidente Donald Trump antes das eleições de meio de mandato do próximo mês, enquanto os futuros europeus dispararam.

O aumento do diesel ocorre em um momento em que os preços dos alimentos já estão subindo. Um indicador das Nações Unidas ampliou seus ganhos em setembro, atingindo o nível mais alto desde 2022, à medida que condições climáticas extremas, interrupções no comércio e custos crescentes dos insumos afetam os agricultores.

O Índice Spot Agrícola da Bloomberg, outro indicador dos preços das safras, registrou seu maior aumento trimestral em quatro anos nos três meses até setembro.

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Ao mesmo tempo, vários grandes produtores entram em fases de seus ciclos de cultivo que exigem grande consumo de combustível: a Austrália e a Argentina iniciam a colheita do trigo neste mês, o plantio está em andamento na Europa e na Rússia, enquanto o plantio de soja ganha força no Brasil. Interrupções no plantio ou na colheita podem prejudicar a produtividade.

O Brasil é uma potência agrícola e ocupa o primeiro lugar na produção de açúcar e soja, além de ser um importante fornecedor da China. Os agricultores do estado do Rio Grande do Sul, no sul do país, responsável por cerca de 10% da safra de soja nacional, alertaram para possíveis atrasos no plantio caso o abastecimento de diesel continue restrito.

“O diesel está disponível, mas não nos volumes a que estávamos acostumados”, afirmou Fernando Rechsteiner, produtor de arroz e soja em Pelotas (RS).

“Não dá para simplesmente fazer um pedido um dia e esperar recebê-lo rapidamente; é preciso planejar com antecedência”, disse ele, acrescentando que o preço do diesel em sua região subiu cerca de 40% desde o início da guerra entre os Estados Unidos e o Irã.

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A situação deixa os produtores com poucas opções. “Eles precisam retirar a safra do campo”, disse Beth Ford, diretora executiva da Land O’Lakes Inc., uma das maiores cooperativas de propriedade de agricultores dos Estados Unidos. “Eles não têm alternativa, e a questão é: será que conseguem arcar com essa despesa adicional?”

Alguns agricultores nos Estados Unidos, depois de já terem “consumido seu patrimônio nos últimos anos”, não conseguem arcar com isso, afirmou Ford em um evento realizado na terça-feira com o Economic Club of New York.

O combustível não é a única ameaça que os produtores agrícolas enfrentam. Os principais países produtores de alimentos, da Ásia à África, também lidam com um forte El Niño, que causou a monção mais fraca na Índia em mais de uma década e agravou os incêndios florestais generalizados na Indonésia.

O aumento dos preços já provocou uma reação da Casa Branca. Trump ameaçou proibir as exportações, mas recuou depois que os países do G7 e seus parceiros concordaram em liberar estoques de emergência. Na segunda-feira, o presidente assinou uma ordem executiva para flexibilizar as restrições ao uso de um tipo de diesel isento de impostos, em uma tentativa de reduzir os custos.

“Isso está acabando com o país inteiro”, disse o agricultor Marty Richardson, do Missouri, que reluta em colher seus campos de milho encharcados pela chuva, pois suas máquinas consumirão mais diesel na lama e ele não pode se dar ao luxo de desperdiçar nem uma gota.

Recentemente, ele pagou US$ 6 por galão pelo combustível e estaria disposto a aceitar a limitação das exportações dos EUA para reduzir os preços internos.

Mais ao sul, a agricultora de arroz e soja da Louisiana, Julie Richard, gastou recentemente quase US$ 20.000 em diesel para abastecer seus equipamentos agrícolas, descrevendo esse valor como uma quantia “absurda”.

O combustível provavelmente durará cerca de duas semanas e meia e não inclui o necessário para os caminhões transportarem os grãos dos campos até os moinhos. Richard espera que os altos custos do combustível persistam.

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A pressão se estende para além dos portões da fazenda. A Elveden Farms, uma das maiores produtoras agrícolas do Reino Unido, tem pago uma sobretaxa de combustível de 24% à empresa de transporte rodoviário que leva suas batatas da fábrica de embalagem até o mercado.

Sua própria conta anual de diesel para máquinas agrícolas saltou 40%, para 560.000 libras (US$ 743.000), enquanto os custos de eletricidade também aumentaram após um verão excepcionalmente seco.

“Isso obviamente está corroendo nossas margens”, afirmou o diretor-geral da Elveden, Andrew Blenkiron. “É impossível fazer um orçamento. Quem sabe quando isso vai acabar? No fim das contas, isso terá que aumentar o custo dos alimentos.”

A Copa-Cogeca, o maior grupo de lobby agrícola da União Europeia, que representa cerca de 22 milhões de agricultores, alertou que o aumento dos custos do diesel, dos fertilizantes e de outros insumos pode prejudicar o abastecimento de alimentos. Pode haver “quedas perceptíveis na produção” se os preços permanecerem altos, afirmou o grupo.

Na Austrália, o agricultor Mic Fels começou a colher grãos em sua fazenda de mais de 6.000 hectares perto de Esperance, na Austrália Ocidental, e não está esperando para ver o que virá a seguir. Embora as repercussões da guerra no Irã tenham levado o governo da Austrália Ocidental a considerar a criação de seu próprio estoque estratégico de diesel, ele já aumentou a capacidade de armazenamento de diesel em 30.000 litros para se proteger contra possível escassez.

“Estamos pagando cerca de 3 dólares australianos por litro no momento, e isso realmente dói”, disse Fels. “Usamos cerca de 4.000 litros por dia durante a colheita. Faça as contas.”

-- Com a colaboração de Takaaki Iwabu.

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