Bloomberg — Legumes, verduras, frutas e outros alimentos produzidos pela americana Taylor Farms estão em toda parte nos Estados Unidos e vêm de diversas regiões.
A empresa possui dezenas de instalações de processamento em todo o mundo, incluindo fábricas no México, no Canadá e na Europa.
Cebolas produzidas no estado de Washington são processadas no Colorado e colocadas nos hambúrgueres do McDonald’s em uma dúzia de estados. Couve-de-bruxelas com origem na Califórnia, onde a empresa está sediada, acabam em kits de salada vendidos em todo o país no Walmart.
E, como grande parte do país já sabe muito bem, a alface proveniente de suas fazendas no México é embalada dentro de lanches em uma ampla rede de restaurantes da Taco Bell.
Portanto, quando algo dá errado na cadeia de suprimentos, a situação pode ficar realmente grave.
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O recente surto de ciclosporíase, que resultou em milhares de infecções e centenas de hospitalizações em mais de 40 estados, é uma demonstração de como a consolidação no setor alimentício, de certa forma, ampliou a vulnerabilidade do sistema alimentar do país.
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A Food and Drug Administration (FDA) afirmou que “dados epidemiológicos contundentes” justificaram o recall da alface mexicana distribuída pela empresa em 27 estados diferentes.
Mas o enorme porte de grandes empresas como a Taylor Fresh Foods significa que consumidores, restaurantes e redes de supermercados têm opções limitadas para evitar o risco, e que a contaminação em uma única fazenda pode desencadear uma crise de saúde.
“O sistema foi concebido para priorizar velocidade e escala”, afirmou David Ortega, professor de economia alimentar da Universidade Estadual de Michigan.
“A mesma eficiência que nos permite comprar alface picada e pré-lavada a preços acessíveis durante todo o ano é, em parte, o que confere a um incidente de contaminação esse tipo de alcance.”
A crise renovou o foco nos procedimentos de segurança alimentar e suscitou questionamentos dentro do setor — e em Washington — sobre se o imenso porte das empresas tornou os surtos mais difíceis de prevenir, detectar ou rastrear.
“A segurança dos nossos alimentos é fundamental”, afirmou um porta-voz da Taylor Farms. A empresa informou que investe mais de US$ 200 milhões anualmente em protocolos de segurança alimentar auditados e verificados de forma independente.
A Taylor Farms afirmou que contratou especialistas independentes para conduzir “uma revisão completa dos processos e protocolos de segurança alimentar em nossas instalações no centro do México” e continua a trabalhar com autoridades de saúde, clientes e agricultores para resolver a questão.
A empresa é uma das poucas grandes fornecedoras nacionais de verduras folhosas.
A Arable Capital Partners, uma empresa de investimentos sediada em Bellevue, no estado de Washington, tomou medidas nos últimos anos para consolidar a Bud Fresh Vegetables, a Dole Fresh Vegetables e a Organic Girl em um grupo de marcas conhecido como The OG Companies.
A Fresh Express, cujo fundador foi pioneiro no transporte de alface fresca por todo o país em vagões ferroviários com gelo — dando origem ao nome “alface iceberg” —, foi adquirida pela multinacional suíça Chiquita Brands International em 2005.
Mas a ascensão da Taylor Farms simboliza a consolidação do setor de hortifrutigranjeiros — especialmente no que diz respeito ao processamento.
Fundada em 1995 por Bruce Taylor, um produtor de hortifrutigranjeiros de terceira geração que hoje é seu CEO, a Taylor Farms é responsável por 40% das saladas ensacadas ou embaladas nos Estados Unidos, segundo a empresa.
Desde a aquisição da Earthbound Farm da Danone, em 2019, a empresa comprou ou investiu em diversas empresas em todo o mundo.
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Em 2021, adquiriu a FreshPoint Toronto, no Canadá — distribuidora especializada em hortifrutigranjeiros da Sysco naquela região — e, em 2024, investiu na Hessing, uma empresa de processamento e distribuição de frutas e vegetais frescos com sede na Holanda.
No ano passado, adquiriu a Natures Way Foods, fabricante britânica de alimentos preparados, e, no início deste ano, a Equinox Growers, uma empresa sediada na Virgínia que cultiva verduras folhosas em estufas.
A Taylor Farms afirma ser a maior produtora de verduras orgânicas da América do Norte. Ela colhe cerca de 25% dos vegetais que comercializa.
A empresa mantém parceria com pouco menos de 300 fazendas menores para obter o restante, informou a Taylor Farms em um relatório de 2025. Ela gerou US$ 7,3 bilhões em receita em 2025, de acordo com a Pitchbook.
A Taylor Farms reconheceu as pressões que a rápida expansão tem exercido sobre sua empresa. Em uma entrevista de 2018 à SmartBrief, o CEO afirmou que ficava acordado à noite tentando recrutar funcionários para acompanhar seu rápido crescimento — especialmente em um “negócio muito complicado”.
“Quando se cresce 10%, 12% ao ano a partir de uma base já grande, é preciso um grande número de novos líderes, e esse é o desafio que estamos enfrentando neste momento”, afirmou ele.
A empresa emprega atualmente mais de 24.000 pessoas no total.
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Outros desafios são inerentes ao seu negócio. As folhas verdes são particularmente desafiadoras do ponto de vista da segurança alimentar, pois costumam ser consumidas cruas, em comparação com alimentos que são cozidos em temperaturas capazes de matar parasitas e outros germes.
Parasitas como os que causam a ciclosporíase são extremamente difíceis de detectar, e a alface tem uma vida útil curta — ambos fatores que explicam por que o governo dos Estados Unidos ainda não apresentou um teste de laboratório que vincule a Taylor Farms ao surto.
E mesmo lavar as verduras com etapas especiais destinadas a reduzir a contaminação cruzada não impedirá a ciclosporíase, pois o parasita é resistente aos desinfetantes comumente usados em sistemas de lavagem de hortaliças, de acordo com Mary Anne Roshni Amalaradjou, especialista em microbiologia alimentar da Universidade de Connecticut.
A grande escala das operações da Taylor não é a fonte da contaminação, que atualmente se suspeita ter se originado em uma única fazenda no México. No entanto, Amalaradjou afirmou: “isso pode aumentar o alcance potencial de um surto, uma vez que a contaminação tenha ocorrido”.
“Se você se abastece de diferentes fazendas, é muito mais fácil que o tipo de surto ocorrido em uma fazenda se espalhe”, disse James Sayre, professor assistente de extensão cooperativa da Universidade da Califórnia, em Davis.
Ainda assim, talvez não haja nenhum outro modelo viável. O cultivo de verduras folhosas exige grandes investimentos de capital e opera com margens baixas, afirmou Ortega, dinâmicas que favorecem as empresas de maior porte.
O número de fazendas nos Estados Unidos tem diminuído ao longo dos anos à medida que as operações de maior porte se expandiram. O Departamento de Agricultura dos Estados Unidos estima uma queda de 10% no número de fazendas na década de 2015 a 2025.
Os altos custos de insumos como fertilizantes e sementes pesam particularmente sobre as operações menores, e nem todos os filhos desejam assumir as fazendas de seus pais.
Especialistas em agricultura afirmam que o processamento consolidado permite a distribuição rápida da alface. Isso é particularmente verdadeiro para saladas ensacadas e pacotes de vegetais pré-cortados, que se tornaram cada vez mais populares entre consumidores.
Grandes empresas conseguem lidar com isso mais facilmente, uma vez que já embalam seus próprios produtos, afirmou Connor Kippe, especialista em políticas da Coalizão Nacional de Agricultura Sustentável. As propriedades menores não têm condições de lavar, cortar, misturar, ensacar e despachar rapidamente os kits para diferentes locais.
Sayre observou que empresas maiores, como a Taylor Farms, também costumam estar mais bem equipadas para investir nos equipamentos e na documentação necessários para seguir as diretrizes modernas de segurança alimentar. E há um incentivo para que elas não economizem nos procedimentos, dadas as possíveis repercussões negativas de um surto.
“Há um longo histórico de décadas mostrando o impacto que um surto de doença transmitida por alimentos causa nos preços das ações”, afirmou Martin Wiedmann, professor de segurança alimentar da Universidade de Cornell, citando surtos anteriores ligados à McDonald’s e à Chipotle. “As regulamentações governamentais e as inspeções governamentais são o mínimo indispensável.”
Mas isso também cria um incentivo para que as empresas demorem a agir quando algo dá errado. Autoridades federais expressaram frustração com a Taylor Farms em relação à forma como a empresa lidou com o recall da alface.
Os democratas, por sua vez, aproveitaram o surto para exigir mais monitoramento e infraestrutura de saúde pública, criticando a forma como o governo Trump lidou com a crise em campanhas eleitorais de grande visibilidade no Senado.
Políticos de ambos os lados do espectro têm condenado cada vez mais a consolidação do setor agrícola nos últimos anos. Os governos Biden e Trump acusaram grandes corporações de inflar artificialmente o custo de itens essenciais do dia a dia, como ovos e carne bovina, e avaliaram tomar medidas contra essas empresas.
O setor agrícola contesta essas alegações, apontando para os fundamentos da oferta e da demanda, entre muitos outros fatores, como os altos preços da energia e do transporte, que influenciam o custo dos alimentos.
“O que esse surto nos mostra é a influência desproporcional que uma única empresa pode exercer quando ocorre uma crise, devido à sua enorme participação no mercado e à sua gigantesca cadeia de produção”, afirmou Amanda Starbuck, diretora de pesquisa da Food and Water Watch, um grupo de defesa ambiental.
A Taylor Farms também pode enfrentar uma reação negativa dos consumidores — especialmente entre os compradores de produtos orgânicos, disse Steven Hoffman, que dirige uma empresa de relações públicas especializada em alimentos naturais.
“Eles estão fazendo uma escolha consciente de votar com o dinheiro que gastam em alimentos”, disse ele.
“Se você perder essa confiança do consumidor orgânico preocupado com a saúde, pode ser difícil recuperá-la.” Ainda assim, disse ele, devido à consolidação do mercado, as opções são limitadas.
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