Cota chinesa para carne do Brasil vai reorganizar fluxos de produção, diz analista

Para Wagner Yanaguizawa, do Rabobank, exportações da proteína podem cair 6% ou mais a depender do ritmo de esgotamento da cota, estimou em entrevista à Bloomberg Línea; ABIEC e CNA veem necessidade de ‘ajustes ao longo de toda a cadeia’

Pork China market
12 de Janeiro, 2026 | 10:37 AM

Bloomberg Línea — A aplicação de medidas de salvaguarda pela China sobre as importações de carne bovina brasileira, em vigência desde 1º de janeiro de 2026, deve provocar uma reorganização dos fluxos de produção e impactar diretamente a exportação do setor pecuário, segundo entidades do agro e analistas de mercado consultados pela Bloomberg Línea.

“O Brasil foi o mais penalizado, em termos de volume [pela cota chinesa]”, disse Wagner Yanaguizawa, analista do Rabobank, à Bloomberg Línea.

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Yanaguizawa disse estimar que as exportações brasileiras de carne bovina caiam em até 6% no ano, com possibilidade de queda maior a depender do ritmo de esgotamento da cota.

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“Pode ser que eu corrija [o dado] para uma queda um pouco maior”, disse.

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A medida anunciada pela China estabelece uma cota crescente nos três primeiros anos, que começa com 1,106 milhão de toneladas no primeiro ano.

Dentro dessa cota, a tarifa principal será de 12%, enquanto os volumes que excederem esse limite estarão sujeitos a uma sobretaxa de 55%, o que resultaria em uma tarifa total de 67%.

Segundo Yanaguizawa, cerca de 200 mil toneladas de carne que já estão sendo transportadas podem ser contabilizadas dentro da cota estabelecida, o que reduziria o volume disponível ao longo do ano.

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Para ele, a aplicação da salvaguarda feita pela China já era esperada, visto que o país asiático tem buscado medidas para estimular a sua produção interna, enquanto o Brasil é o principal fornecedor de carne por um preço atrativo ao país.

“Somos o principal mercado, então faz sentido ser por onde eles iriam apertar mais em termos de controle”, disse o analista do Rabobank.

A Associação Brasileira das Indústrias Exportadoras de Carnes (ABIEC) e a Confederação da Agricultura e Pecuária do Brasil (CNA) disseram, em nota, que a medida “altera as condições de acesso ao seu mercado e impõe uma reorganização dos fluxos de produção e de exportação”.

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As entidades ressaltam que a China permanece como o principal destino da carne bovina brasileira e um mercado central para o funcionamento da pecuária nacional.

Em 2025, as importações chinesas de carne bovina brasileira somaram cerca de 1,7 milhão de toneladas, o equivalente a 48,3% do volume total exportado de carne bovina pelo Brasil.

Mesmo com o peso do mercado externo na dinâmica, a maior parte da produção de carne bovina do Brasil, cerca de 70%, é destinada ao mercado interno - e 30% à exportação.

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O mercado americano, por sua vez, respondeu por cerca de 8%. Juntos, a China e os Estados Unidos concentraram quase 60% das exportações brasileiras de carne bovina.

A ABIEC e CNA disseram, em nota, que veem necessidade de “ajustes ao longo de toda a cadeia, da produção à exportação, para evitar impactos mais amplos”.

Do lado da produção, o impacto tende a ser mais sensível no segundo semestre, período em que o confinamento é mais direcionado à exportação ao mercado chinês.

Segundo Yanaguizawa, há dois cenários principais: um em que a cota seria atingida apenas entre setembro e outubro, o que permitiria um “primeiro giro de confinamento” ainda elevado; e outro em que o limite seria alcançado já em julho, o que tenderia a penalizar parte dos produtores e reduziria a atratividade do confinamento.

O primeiro giro de confinamento citado por Yanaguizawa geralmente ocorre entre abril e julho, a depender da região do país, enquanto o segundo giro tende a acontecer entre agosto e outubro, com o abate previsto para o fim do ano.

Se o Brasil atingir a cota estabelecida pela China mais cedo, o segundo giro poderia ser penalizado.

Entre as estratégias apontadas pelo analista estão a antecipação do confinamento, a manutenção do gado a pasto para venda no início do ano seguinte -- quando a cota seria reiniciada -- e diversificação de exportação para outros mercados.

“Uma estratégia que veríamos, para o lado do produtor, é tentar antecipar um pouco o confinamento desse ano, em busca de termos animal pronto para abate para a China antes de bater essa cota”, disse.

Outra alternativa citada pelo analista é a retenção do gado para venda posterior.

“Caso contrário, ele [o pecuarista] vai pegar esse gado, no segundo giro, principalmente, e vai optar por manter esse gado a pasto e a engorda ficaria para a virada do ano quando a cota volta a zerar de novo.”

Estratégia das empresas

Para Yanaguizawa, a estratégia das empresas deve incluir a diversificação das exportações para mercados como Egito, Indonésia, Chile e Rússia, ainda que com preços médios inferiores aos pagos pela China - movimento que já aparece no balanço financeiro das principais empresas do setor, como a JBS e a MBRF.

Segundo os cálculos do analista do Rabobank, o Egito paga, em média, 29% menos que a China, enquanto a Indonésia paga cerca de 22% a menos. Ainda assim, esses mercados apresentam potencial de crescimento em volume.

Há também a possibilidade de “triangulação” via países como Uruguai e Argentina, aproveitando cotas menos restritivas, embora com limitações de escala.

Assim como ocorre com o frango, a China é um importante destino para cortes com menor aceitação no mercado interno, como a parte dianteira, enquanto o consumidor brasileiro tende a preferir os cortes da região traseira do boi.

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