Como Fabrício Batista, da JBJ Ranch, quer ‘cruzar fronteiras’ com cavalos de elite

Empresário, que também é um dos filhos de José Batista Júnior, se dedica à criação de cavalos Quarto de Milha e aposta em conectar a operação com o mercado americano; meta é alcançar R$ 150 mi em faturamento no leilão deste ano

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Bloomberg Línea — O universo equestre que marcou a infância do empresário Fabrício Batista agora também se transformou em uma aposta de negócios do executivo da JBJ Agropecuária, a partir da criação da JBJ Ranch.

Além da atuação na pecuária dentro da estrutura da JBJ Agropecuária, Fabrício se dedica à criação de cavalos Quarto de Milha com foco em Rédeas, uma das modalidades equestres mais praticadas entre os amantes da raça.

“Sempre vi que o cavalo foi levado muito para o lado da paixão e muito pouco para o profissionalismo”, disse Batista, em entrevista à Bloomberg Línea.

“Eu peguei toda a parte de gestão, de controle de custos, o profissionalismo que a gente emprega dentro da empresa, na pecuária, na agricultura e na indústria, e levei isso para o cavalo.”

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Na visão de Batista, essa profissionalização passa por tratar cada animal como uma unidade de negócios.

Na JBJ Ranch cada cavalo tem um centro de custo próprio desde o nascimento, com despesas que começam a ser contabilizadas na gestação, e passam pela alimentação, custos com veterinário, casqueamento e recria. Quando o animal chega ao leilão, esse custo acumulado define o ponto de equilíbrio da venda, explica.

“No momento do leilão, eu tenho uma planilha na mão, do lote 1 ao lote 60”, disse Batista. “Eu sei qual é o ponto de equilíbrio da parcela de cada animal.”

Fabrício é filho de José Batista Júnior, mais conhecido como Júnior Friboi, o irmão mais velho dos atuais controladores da holding J&F Investimentos, que detém a JBS, Joesley e Wesley Batista.

Júnior chegou a exercer o papel de presidente da JBS e deixou o grupo para se dedicar totalmente aos seus negócios.

A JBJ Ranch opera com duas bases: uma em Nazário, em Goiás, e outra em Pilot Point, no Texas, nos Estados Unidos.

O empresário se prepara para sediar a quinta edição do leilão JBJ Ranch e Família Quartista, entre 15 e 17 de maio, em Nazário. Em entrevista à Bloomberg Línea, ele detalhou a estrutura do negócio e as principais apostas que vislumbra para levar a operação a uma nova etapa de crescimento, ou, como ele definiu, para “cruzar fronteiras”.

A expectativa do empresário é alcançar R$ 150 milhões em faturamento no leilão deste ano, acima dos R$ 128 milhões registrados no ano passado.

A estratégia adotada pelo empresário tem sido a de criar cavalos de alta performance como um negócio baseado em genética de alto nível, com cavalos e coberturas vendidas a algumas dezenas de milhares de reais, ou, em alguns casos, até milhões de reais.

Segundo ele, 80 animais nascem na JBJ Ranch todos os anos, divididos igualmente entre a base no Brasil e no Estados Unidos.

No Brasil, a operação conta com cerca de 10 doadoras, 40 nascimentos e receptoras, enquanto nos Estados Unidos a produção anual também gira em torno de 40, mas com receptoras alugadas em vez de próprias.

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Para ele, o negócio do cavalo opera de forma oposta a do boi: enquanto a pecuária depende de volume, a genética equina depende de mais qualidade e alto valor agregado.

A rentabilidade do negócio varia conforme a categoria vendida no leilão.

As coberturas têm a melhor margem, por exigirem custo menor, ligado sobretudo ao congelamento do sêmen. Em seguida vêm os embriões, vendidos antes do nascimento e, portanto, sem os custos de recria. Na média do negócio, ele estima uma margem líquida em torno de 15%, enquanto na pecuária essa margem gira em torno de 5%.

O nascimento do negócio

O herdeiro da JBJ Agropecuária cresceu entre Brasília e o interior de Goiás, onde passou parte da infância na fazenda da família, em Luziânia.

A mudança para Goiânia, aos 12 anos, interrompeu a vivência com cavalos que ele tinha. Apenas em 2020, durante a pandemia de covid-19, que o empresário retomou o criatório, após ter passado uma temporada no exterior.

O primeiro investimento, ainda em 2020, somou cerca de R$ 30 milhões no haras em Nazaré, segundo Batista: metade em infraestrutura, como baias, piquetes e pista coberta, enquanto a outra metade foi alocado na formação da base genética, com matrizes e doadoras para o negócio. A fazenda já pertencia ao grupo.

O primeiro leilão aconteceu em 2022. Naquele momento, segundo ele, o maior leilão de cavalos Quarto de Milha do país havia faturado R$ 10 milhões. A estreia da JBJ Ranch chegou perto disso, com R$ 9,8 milhões em vendas.

No ano seguinte, o faturamento dobrou para R$ 20 milhões. Em 2024, subiu para R$ 50 milhões. Em 2025, alcançou R$ 128 milhões.

O empresário explica que a valorização dos animais depende de uma combinação entre genealogia e morfologia. O “papel”, ou o documento registrado na Associação Brasileira de Criadores de Cavalo Quarto de Milha (ABQM), precisa vir acompanhado de um animal que agrade visualmente e tenha potencial de performance em pista.

“Não adianta ter um cavalo bom de papel se ele não agrada aos olhos e não adianta ter um cavalo que agrada aos olhos, mas não tem uma boa genealogia”, disse. “A combinação dos dois é o ambiente perfeito.”

O empresário conta que decidiu investir na modalidade de Rédeas para criar animais de maior valor.

Segundo ele, o cavalo de Rédeas pode valer de duas a três vezes mais que animais voltados a modalidades tradicionais de trabalho com boi, como o Laço, a Apartação e o Ranch Sorting.

Na modalidade Rédeas, cavalo e cavaleiro (ou amazonas) são avaliados pela precisão e suavidade em um percurso previamente estabelecido. Os juízes, então atribuem uma nota para a performance. Quem receber a maior nota, vence.

“O cavalo de Rédeas é um cavalo muito específico, muito inteligente, que tem que ter muita habilidade”, disse.

A receita da JBJ Ranch vem majoritariamente do leilão próprio, que responde por cerca de 90% do faturamento do negócio. O restante vem de participações em leilões de terceiros.

O leilão próprio também se tornou uma operação relevante. A edição deste ano deve custar cerca de R$ 7 milhões, entre estrutura e shows, como a da cantora sertaneja Paula Fernandes.

O gasto com o evento foi atenuado pela venda de cotas de patrocínio de R$ 70 mil, R$ 150 mil e R$ 200 mil a cerca de 40 marcas, com arrecadação próxima de R$ 4 milhões, conta.

A quinta edição do leilão ocorre em um momento em que a operação do grupo passou a olhar para além do Brasil. Em 2025, a JBJ Ranch comprou um rancho no Texas, a cerca de 40 minutos de Dallas, com estrutura para criação, treinamento e reprodução de cavalos Quarto de Milha de Rédeas.

A propriedade inclui piquetes, baias, centro de treinamento e laboratório de reprodução, segundo Batista.

Produção internacional

O foco no exterior está no cerne da estratégia do empresário. Isso porque os Estados Unidos ainda são vistos como o berço do Quarto de Milha e concentra parte importante das linhagens de maior valor no mercado global.

“Deixamos de ser somente uma marca e uma produção brasileira para ser uma marca e uma produção internacional”, conta.

Na leitura de Batista, o Quarto de Milha tem a vantagem de ser uma raça de alcance global em relação a outras mais regionais, como o caso do Manga Larga Marchador no Brasil.

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A procura por animais com genética de ponta tem se espalhado pela América do Sul, América do Norte e Europa, especialmente em países como Alemanha, Bélgica e Itália, conta.

Além do investimento no negócio em si, Batista explica que se prepara para sediar uma competição de Rédeas em Avaré, no interior de São Paulo, a partir de 2027.

A JBJ Ranch fechou uma sociedade ligada à franquia The Run for a Million, prova criada por Taylor Sheridan, nome associado ao universo western e à série Yellowstone.

Batista oferecerá premiação de R$ 1 milhão ao vencedor e uma vaga para a disputa em Las Vegas.

Ao investir em eventos e competições, a empresa busca fortalecer o ecossistema da modalidade, elevar a exposição dos animais e criar demanda para a própria produção.

É uma lógica semelhante à de outros segmentos esportivos: quanto maior a competição, maior tende a ser o valor dos atletas — neste caso, dos cavalos, embriões, coberturas e matrizes.

Genética de peso

Uma das principais apostas para reforçar a genética dos animais do grupo é o garanhão Maverick, do qual a JBJ é sócia com outros criadores. Segundo ele, o cavalo gerou R$ 20 milhões no último leilão, com 600 coberturas comercializadas.

Com oito anos de idade, o animal está aposentado e vive na propriedade da JBJ Ranch no Texas.

Na ocasião, segundo Batista, a égua Stop Little Sister foi o lote mais caro do leilão, vendida por R$ 22 milhões.

O negócio começou a se provar rentável a partir do segundo leilão, em 2023, quando a receita passou a cobrir as despesas de criação e do evento. O ganho de escala, segundo ele, veio porque boa parte dos custos não crescem na mesma proporção da receita.

“A ração é a mesma, as pessoas são as mesmas, tudo é o mesmo, mas a sua receita aumenta muito”, disse.

O perfil do público comprador no leilão se divide em duas frentes, segundo ele. Metade busca animais para competir em pista; a outra metade é formada por criadores que compram genética para reprodução e melhoramento do próprio plantel.

“O meu grande sonho é conquistar novos mercados e ser reconhecido pelo que a gente faz”, disse. “Ser reconhecido não só no Brasil, mas na América, na Europa, e cruzar essas fronteiras.”

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