Bloomberg — Os bancos brasileiros estão mais rigorosos ao conceder crédito para agricultores, depois que um aumento no número de recuperações judiciais no setor deixou as instituições com menos perspectivas para recuperar um volume bilionário de crédito.
Entre as novas demandas dos bancos estão garantias mais fortes, que permitem a execução mesmo durante reestruturações judiciais, ao contrário dos mecanismos utilizados anteriormente.
A recuperação de crédito está mais difícil porque produtores rurais têm buscado a recuperação judicial em ritmo recorde, com quase 2.000 pedidos no agro no ano passado, de acordo com a Serasa Experian.
O número é mais de dez vezes maior que o de 2021, com os produtores buscando a justiça para evitar que os bancos tomem propriedades dadas em garantia.
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Muitos produtores enfrentaram problemas depois que os altos preços de commodities no período pós-Covid os persuadiram a expandir áreas de plantio, e a investir mais em maquinário, sementes e outros suprimentos.
Com os preços em queda, muitos enfrentam falta de liquidez em um momento em que a apreciação do real pesa sobre as receitas de exportação.
Empréstimos feitos para financiar a atual safra, iniciada em julho, incluem a estrutura de garantias mais rígida, e responderam pela maior parte do crédito concedido pelo Banco do Brasil deste meados de 2025, de acordo com o banco. No entanto, os novos empréstimos ainda representam apenas um terço dos pagamentos que o banco esperava receber no crédito agro em maio.
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“Verificamos uma pontualização em abril menor do que a meta que tínhamos compartilhado com vocês”, disse o vice-presidente de controles internos e gestão de riscos do banco, Felipe Prince, em uma teleconferência com analistas em meados do mês.
O custo de crédito no agro pesou sobre o lucro do banco no primeiro trimestre, com o retorno sobre o patrimônio líquido do BB atingindo 7,3%, o menor em dez anos.
O Banco do Brasil não comentou.
A Caixa Econômica Federal, também controlada pelo governo federal, tem buscado uma estrutura de garantias similar.
Os resultados do banco no primeiro trimestre mostraram um aumento de 14 pontos porcentuais na inadimplência da carteira de agronegócios em relação ao mesmo período do ano anterior, para 18,3%.
A Caixa começou a investir de forma maciça no agro em 2021, durante o governo de Jair Bolsonaro. Muitos dos empréstimos foram destinados a produtores e empresas que tomaram crédito para expandir a capacidade produtiva, disse o presidente do banco, Carlos Vieira, em entrevista coletiva neste mês.
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“Parte significativa do crédito veio em linhas de investimento, e os investimentos têm um período de maturação, que não aconteceu”, disse ele.
A Caixa tem aprimorado a estrutura de garantias e priorizando a alienação fiduciária quando aplicável, disse o banco em nota.
A carteira de crédito para o agro, de R$ 64,9 bilhões, equivalia a 2,2% de sua carteira de crédito total em março, adicionou o banco, e refletia uma estratégia de manter exposição equilibrada ao setor com foco na sustentabilidade dos negócios.
O Bradesco, maior banco privado no financiamento ao agro, atribuiu a empréstimos agro concedidos há mais tempo parte do salto de 27% nas provisões contra a inadimplência. O banco não comentou para esta reportagem.
Mesmo em meio a problemas de liquidez, o Brasil continua sendo uma potência agrícola global, que tem no setor uma das principais alavancas da economia.
Os produtores brasileiros exportaram US$ 169,2 bilhões no ano passado, alta de 3% em relação a 2024.
O agro respondeu por quase metade de todas as exportações brasileiras em 2025, sublinhando a importância acentuada que passou a ter na balança comercial do país e na entrada de moeda estrangeira.
Mas os investimentos feitos após a pandemia cobraram seu preço diante do aumento dos custos financeiros.
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A taxa básica de juros do país, a Selic, subiu depois de 2021 e chegou ao maior patamar em duas décadas no ano passado. O Banco Central iniciou um ciclo de cortes neste ano, mas o ritmo da redução tende a ser mais lento que o esperado anteriormente à medida que a guerra no Irã pressiona os preços.
Os domicílios e as empresas brasileiras estão “excessivamente endividados”, mas o agro teve uma compressão de margens própria nos últimos anos com a alta dos juros e a queda dos preços, disse Felippe Serigati, pesquisador da FGV Agro, em uma entrevista.
“Com uma margem mais estreita, basta uma quebra de safra e o produtor passa por um período de dificuldade em honrar suas dívidas, e isso naturalmente vira uma bola de neve”, disse ele, adicionando que um novo programa de renegociação de dívidas com aval do governo federal seria a solução mais viável.
Um projeto em discussão no Congresso permitiria renegociar dívidas de produtores rurais que foram contratadas antes do final do ano passado, oferecendo prazos de pagamento mais longos e juros subsidiados, entre 3,5% e 7,5%.
Parlamentares e membros da equipe econômica do governo negociam o tamanho do programa, com o Ministério da Fazenda defendendo um pacote menor.
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Parlamentares também estão debruçados sobre um outro projeto que reformaria a atual regulação do seguro rural para riscos relativos ao clima, permitindo aos produtores rurais que utilizassem as apólices como garantia em empréstimos.
A expectativa é que a medida ajude a reduzir os custos de financiamento ao diminuir a exposição dos bancos a riscos de produção ligados a eventos climáticos adversos.
As discussões estão em andamento no momento em que a guerra no Irã aumenta os preços de fertilizantes, criando outra dor de cabeça para os produtores rurais e fazendo com que alguns repensem decisões de investimento.
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