Roma aposta em taxas de hospedagem e limites a aluguéis para conter avanço do turismo

Administração do prefeito Roberto Gualtieri pretende ampliar a regulamentação dos aluguéis de curta duração e elevar impostos em uma estratégia para evitar o esvaziamento residencial do centro histórico e administrar o fluxo crescente de visitantes, que alcançou níveis recordes em 2025

Por

Bloomberg — Roma pode preservar melhor o caráter de seu centro histórico de 3 mil anos com medidas como a restrição aos aluguéis de curta duração e o aumento das taxas turísticas, em vez de impor uma taxa de entrada, afirmou o prefeito Roberto Gualtieri.

“Não faria sentido introduzir aqui um bilhete de entrada na cidade, como fizeram em Veneza”, disse Gualtieri em entrevista à Bloomberg para o podcast em vídeo. O prefeito acrescentou que pretende aumentar as taxas atualmente cobradas sobre hotéis e outras formas de hospedagem.

A Cidade Eterna, destino turístico desde a Antiguidade, não tem planos de bloquear o acesso, afirmou o prefeito. Os visitantes desejam vivenciar a cidade como os romanos, e isso exige garantir que o centro histórico não seja esvaziado e que os turistas tenham acesso a lojas e restaurantes locais, em vez de estabelecimentos “falsos”, acrescentou ele.

“Os turistas sempre virão a Roma”, disse Gualtieri. “Sempre houve turistas, e sempre haverá.”

⟶ Assine as newsletters da Bloomberg Línea e receba as notícias do dia em primeira mão no e-mail.

No último verão, a Câmara Municipal de Roma aprovou uma atualização das normas relativas ao desenvolvimento urbano, um processo que levou quase 20 anos. Entre as mudanças apoiadas por Gualtieri estavam proteções mais rigorosas para as moradias residenciais no centro histórico. Ainda são necessárias medidas para adotar novas regulamentações aplicáveis aos aluguéis de curta duração.

Veneza testou medidas para controlar o número de turistas e visitantes de um dia que visitam o centro histórico, incluindo uma taxa de acesso de € 5, que foi testada nesta temporada.

Segundo Gualtieri, tal sistema é mais adequado à cidade sobre as águas, pois sua extensão é menor e um grande número de visitantes não pernoita no local, de modo que não paga impostos sobre hospedagem.

Florença e Bolonha também aprovaram novas regulamentações sobre aluguéis de curta duração, como a proibição da mudança de uso de imóveis não residenciais em seus respectivos centros históricos.

Leia também: Destino de luxo, Tulum enfrenta queda no turismo e cortes na oferta de voos

Energia a partir de resíduos

Gualtieri, ex-ministro da Fazenda e membro do Partido Democrático, venceu as eleições em 2021, comprometendo-se a combater o excesso crônico de turistas e a lentidão na coleta de lixo.

Para surpresa de muitos romanos, ele deu início a alguns projetos que haviam escapado aos antecessores, tanto da esquerda quanto da direita. Uma usina de conversão de resíduos em energia vem avançando após anos de resistência do tipo “Nimby” (Not In My Backyard, ou “Não no meu quintal”, em tradução livre), e fundos do Jubileu Católico e do plano de recuperação da União Europeia foram utilizados para promover a regeneração urbana. Gualtieri confirmou na entrevista que o plano de resíduos entrará em operação no final de 2029.

Entre suas prioridades restantes está a de coibir o que ele descreveu como um turismo “de passagem”, no qual os visitantes “simplesmente consomem e não oferecem nada em troca”, afirmou.

De acordo com uma pesquisa divulgada em setembro pela imobiliária Brixa, o centro da cidade de Roma conta com mais de 122 mil leitos disponíveis para pernoites, em comparação com os mais de 116 mil residentes da área.

A pesquisa indicou que a tendência de aluguéis de curta duração, que tradicionalmente se limitava ao centro histórico, está se espalhando para bairros residenciais na periferia da cidade.

Leia também: Brasil é o país mais bem preparado para o turismo na América Latina, diz lista do WEF

“Não podemos intervir em imóveis existentes a menos que nos seja concedida a competência para fazê-lo”, afirmou Gualtieri. “Por isso, estamos nos dotando de ferramentas para impor restrições” a diversos tipos de imóveis.

Seu objetivo é manter Roma como “uma cidade maravilhosa e aberta, à qual as pessoas queiram voltar”. Um turismo de melhor qualidade, focado em grandes eventos culturais que, por vezes, ocorrem fora do centro histórico, estimulará a demanda por experiências verdadeiramente romanas, afirma Gualtieri.

Roma atraiu um número recorde de turistas em 2025, de acordo com dados fornecidos pela prefeitura. O total de chegadas foi de 22,9 milhões, incluindo 12 milhões de visitantes estrangeiros. O total de pernoites chegou a 52,92 milhões, outro recorde histórico.

O mandato de Gualtieri terminará em 2027, e ele tem sido apontado como um possível candidato por uma aliança de centro-esquerda nas eleições gerais da Itália no próximo ano.

O prefeito descartou essa possibilidade durante a entrevista, afirmando que pretende concorrer a um segundo mandato. Há muitos projetos de longo prazo na cidade que ele deseja supervisionar, disse ele.

Na campanha do próximo ano, Gualtieri afirmou que será “um prefeito, um candidato a prefeito e, espero, prefeito novamente pelos próximos cinco anos”.

Veja mais em Bloomberg.com

Leia também

Atech, da Embraer, quer dobrar de tamanho até 2030 com controle de tráfego de drones